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Potencial neuroprotetor do óleo de gergelim preto pode reduzir sequelas de AVC, diz estudo da Ufopa

O neuroprotetor não possui efeitos colaterais e visa melhorar a qualidade de vida dos pacientes

Ayla Ferreira

Na Amazônia, o óleo de gergelim é utilizado de forma artesanal há décadas pelas comunidades tradicionais, que trituram a semente e misturam com outros componentes, até a obtenção do “leite de gergelim” — que, na verdade, se trata de um óleo. Acredita-se, popularmente, que o composto pode melhorar a saúde do cérebro, sendo aplicado diretamente na pele. O conhecimento tradicional se tornou foco de estudos do pesquisador Walace Gomes, doutor em neuropatologia experimental e proprietário da startup Neuroprotect, que constatou cientificamente os benefícios para a redução de sequelas de AVC.


Walace, que foi professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e hoje é docente da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), atua em conjunto com uma equipe pesquisadores para desenvolver um neuroprotetor fitoterápico à base de gergelim preto, que traz como premissa a diminuição de danos causados pelo acidente vascular cerebral (AVC), chamado Neurosesame.  A grande inovação do projeto é a ausência de efeitos tóxicos, diferente dos alopáticos já testados, que podem induzir a psicose e alucinações. 

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Na área da saúde, os neuroprotetores são estratégias farmacológicas para proteger o cérebro da morte neuronal e disfunção celular, além de melhorar a recuperação funcional depois de um AVC. “O nosso é um neuroprotetor a base de gergelim, que também é um alimento. Nossa dose sugerida para humanos vai ser cerca de 2ml de 12 em 12 horas com óleo encapsulado, uma quantidade bem menor de gergelim do que as pessoas costumam consumir em alguns países. Ele tem um potencial de toxicidade basicamente inexistente”, diz.

O estudo foi desenvolvido em laboratórios de Neuroproteção e Neurorregeneração Experimental da UFPA e Ufopa, e também no Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (Cienp), de Florianópolis (SC), em parceria com a Embrapii. “Começamos a pesquisar produtos naturais em 2010, utilizando estudos etnobotânicos, que trazem pistas da medicina popular. Vimos a copaíba e o gergelim, por exemplo. Para colocar no mercado, resolvi aprofundar e fundei a Neuroprotect em 2021, para criar neuroprotetores naturais derivados da biodiversidade amazônica”, conta.

Existem dois tipos de AVC: o isquêmico, que ocorre quando há o entupimento de vasos sanguíneos em alguma área do cérebro; e o hemorrágico, quando um vaso intracraniano rompe. “Temos uma terapia para AVC limitada atualmente. Existe um alopático, cujo nome técnico é trombolítico. Na ciência, lítico é dissolver algo, e ele funciona para dissolver o trombo que obstrui o vaso no caso do AVC isquêmico. Ele quase não é usado, já que só pode ser usado se os sintomas tiverem começado há cerca de 4 a 6 horas”, explica o professor.

Quando o trombolítico é aplicado depois do tempo delimitado, podem ocorrer efeitos colaterais, como a transformação hemorrágica. O fenômeno altera a parede do vaso sanguíneo e pode acabar gerando o rompimento, o que restringe seu uso.

Em casos de AVC, a recomendação médica é que o paciente seja atendido por equipes médicas o mais rápido possível, para evitar sequelas, agravamento do quadro e até mesmo morte. Em áreas onde não é possível o atendimento rápido, o neuroprotetor pode ajudar, principalmente em caso de AVC isquêmico.

“A lesão primária do AVC acontece pela falta da chegada de oxigênio no processo cerebral. O problema é que ela se expande com o tempo, os mecanismos que chamamos de expansão secundária expandem de 60% a 70%. O que nosso neuroprotetor faz é controlar a inflamação, esse fenômeno de estresse oxidativo, que é a formação radicular livre, evitando uma expansão da lesão secundária”, destaca Walace.

Entre os principais benefícios do neuroprotetor Neurosesame, estão:

  • Diminuição ou redução de sequelas motoras;
  • Diminuição ou prevenção de sequelas sensoriais;
  • Melhora da qualidade de vida de pacientes que sofreram AVC;
  • Evita a expansão da lesão secundária, protegendo neurônios na penumbra isquêmica;
  • Possui potencial preventivo antes de um AVC;
  • Diminui e reduz a dor;
  • Conta com baixo potencial de toxicidade, por ser derivado de um alimento.

Aplicação

O projeto foi desenvolvido em parceria com a Embrapii e o Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (Cienp), de Florianópolis (SC), sob a coordenação do pesquisador João Batista Calixto. As etapas incluíram testes de prova da eficácia do produto, para avaliar se o produto pode induzir mutação no DNA e causar câncer, se pode lesionar órgãos internos, além de testes de mecanismos de ação, entre outros. 

Os testes foram realizados com cerca de R$ 1,6 milhão liberado pela Embrapii e confirmaram a eficácia do produto. Ainda na UFPA, o projeto foi testado em duas teses de doutorado orientadas pelo professor Walace, sendo um teste na medula de ratos paraplégicos e outra em modelos de AVC induzido, também nos animais.

Com isso, os pesquisadores constataram o potencial benefício do insumo, e receberam um convite para colaborar com o Cienp. “Nós testamos, durante quatro anos, com apoio da Embrapii, seguindo as normas da Anvisa. Vimos a preservação sináptica em animais, tanto animais tratados antes quanto depois do AVC. Estabelecemos a prova do princípio de que o neurofármaco derivado de gergelim, já considerado na medicina popular, também é neuroprotetor”, afirma.

O neuroprotetor desenvolvido não induz câncer e nem mutações no DNA. Atualmente, os pesquisadores estão trabalhando em um dossiê técnico que será enviado para a Anvisa, para a testagem da iniciativa em humanos, que levará cerca de quatro a cinco anos.

Perspectivas

Os pesquisadores possuem estudos com a copaíba, iniciados em 2012, que destacam o potencial neuroprotetor de uma substância derivada da planta. Foi o primeiro no mundo a mostrar que o óleo de copaíba é neuroprotetor em ratos com lesão aguda do cérebro. Além disso, também pretendem averiguar o potencial de outros insumos da biodiversidade amazônica, como a Citus Verticilatta, o Pau-de-Angola e até mesmo o açaí. 

Para o futuro, a Neuroprotect visa atuar com outras condições de saúde, como a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que afeta o sistema nervoso e possui sobrevida de 3 a 5 anos. “Pretendemos transformar a Neuroprotect em um modelo de startup da Amazônia com impacto mundial, para utilizar produtos da biodiversidade amazônica”, reforça o professor.

A startup já possui um suplemento, que está sendo liberado primeiramente no município de Santarém, e outro suplemento que será lançado em São Paulo em julho. Assim que houver a liberação da Anvisa para o teste do neuroprotetor em humanos, os pesquisadores pretendem transferir a tecnologia para uma farmacêutica, licenciando a patente, para enfim chegar ao mercado e ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Walace é natural de Santarém, no Oeste do Pará, e acredita que a Amazônia pode ser uma resposta para encontrar soluções que outros países ainda não encontraram. Para ele, a biodiversidade deve ser utilizada de forma sustentável, considerando os princípios da sustentabilidade e bioeconomia.

“A Amazônia é uma farmácia viva e seus produtos naturais devem ser investigados. Nós devemos parar de ter uma mentalidade de que só somos produtores de matéria-prima, nós temos que nos ver como cientistas da Amazônia, nos tornamos protagonistas e mostrar que aqui tem competência instalada e que a ciência aqui tem impacto”, finaliza.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades