Morre aos 76 anos a Pajé Roxita, uma das maiores guardiãs dos saberes ancestrais do Marajó
Referência da Pajelança Cabocla na Amazônia, líder espiritual, benzedeira e ativista comunitária faleceu neste sábado (30), após ser transferida de Soure para Belém
A líder espiritual e benzedeira Pajé Roxita morreu neste sábado (30), aos 76 anos, após complicações de saúde. Considerada uma das maiores referências da Pajelança Cabocla na Amazônia, Dona Irandilva Roxita, conhecida popularmente como Dona Roxita ou Tia Rô, estava internada em Soure, no arquipélago do Marajó, e havia sido transferida para Belém para receber atendimento especializado.
Segundo o amigo da família Madson Santos, uma primeira tentativa de remoção aérea precisou ser interrompida na sexta-feira (29) devido ao agravamento do quadro clínico. Na manhã deste sábado, uma nova transferência foi realizada, mas a líder espiritual morreu já em Belém, a caminho do hospital. Familiares organizam o traslado do corpo para Soure, onde ocorrerá o velório.
Espiritualidade
Reconhecida como guardiã da Pajelança Cabocla — manifestação religiosa amazônica que reúne elementos indígenas, católicos e afro-brasileiros —, Pajé Roxita dedicou a vida ao atendimento espiritual e à cura tradicional por meio de rezas, ervas medicinais, banhos de cheiro e rituais ligados aos Encantados, entidades centrais da cosmologia amazônica. Sua trajetória também ficou marcada pela resistência feminina em um campo historicamente ocupado por homens, tornando-se símbolo da preservação dos saberes ancestrais e do protagonismo das mulheres na espiritualidade marajoara.
A importância de Dona Roxita ultrapassou as fronteiras do Marajó. Ao longo dos anos, ela foi tema de pesquisas acadêmicas, documentários e reportagens que retrataram a riqueza cultural e espiritual da região. Entre os trabalhos de destaque está sua participação na série documental Amazônia Ancestral. Ela também ganhou projeção nacional ao conduzir cerimônias tradicionais na floresta marajoara, incluindo o casamento da cantora Gretchen com o músico paraense Esdras de Souza, celebrado sob os rituais e bênçãos da pajelança.
Reconhecimento
Sua imagem e legado também estiveram presentes no Carnaval de 2025, quando a Acadêmicos do Grande Rio levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Pororocas Parawaras: As águas dos meus encantos nas contas dos Curimbós”, inspirado na cultura paraense, na Encantaria e nas tradições amazônicas. O nome de Pajé Roxita foi reverenciado na concepção oficial do desfile como uma das grandes representantes dos saberes ancestrais do Pará. A apresentação rendeu à escola o vice-campeonato do Carnaval carioca daquele ano.
Legado
Além da atuação religiosa, Dona Roxita teve forte presença na vida comunitária de Soure. Foi presidente local da Cruz Vermelha, fundadora e presidente do Centro Comunitário Filantrópico de Soure, instituição voltada ao acolhimento de crianças e famílias em situação de vulnerabilidade. Também exerceu mandato como vereadora do município e se destacou como incentivadora de manifestações culturais tradicionais, apoiando grupos de carimbó, quadrilhas juninas e boi-bumbá.
A morte da líder espiritual provocou manifestações de pesar entre moradores, admiradores e representantes da cultura marajoara. Em homenagem divulgada por familiares e amigos, Dona Roxita foi lembrada como uma mulher dedicada ao próximo, defensora das causas sociais e responsável por manter vivos conhecimentos transmitidos entre gerações. Com sua partida, o Marajó perde uma de suas mais importantes referências culturais e espirituais, deixando um legado que permanece na memória da comunidade e na história da Amazônia.
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