Maternidade pelo mundo: mães paraenses mantêm a cultura do estado viva em outros países
Muitas mães paraenses moram em outros países em busca de melhoria de vida e segurança, levando nas suas bagagens algo em comum: a cultura do Pará
Dizem que “mãe é tudo igual, mas só muda de endereço”, mas será? Muitas mães paraenses moram em outros países em busca de melhoria de vida e segurança, levando nas suas bagagens algo em comum: a cultura do Pará. Éricka Fonseca, 47 anos, é uma dessas mães. Ela é do município de Ananindeua, na Grande Belém, mas mora no Japão há um ano. Ela é mãe de João Vitor, 21 anos, e Manuella, de 11. Os dois filhos da operária de fábrica descobrem, hoje, uma nova rotina do “outro lado do mundo”.
Além do impacto em relação à renda e segurança, existe a diferença cultural, que está sendo bastante sentida por Éricka e seus filhos. A mãe conta que a pequena Manuella ainda não conseguiu se adaptar à escola japonesa, mas que continua positiva.
“O impacto cultural é assustador, mas de forma benéfica por conta dos hábitos e costumes, como a disciplina dos japoneses, por exemplo. Minha filha teve dificuldades justamente por conta da diferença entre idiomas, por isso, a matriculei numa escola brasileira, onde além de manter viva a cultura de nascença, aprenderá o idioma e os costumes do Japão”.
Além de matricular a filha em uma escola brasileira, mas que possuem diretrizes do ensino japonês, Éricka sempre executa algo para manter a cultura paraense viva: a culinária. Diariamente ela prepara comidas típicas do Brasil e Pará; e leva inclusive uma marmita bem brasileira para o trabalho.
“Na minha casa não deixamos de viver a comida paraense e é importante para minha família manter o paladar brasileiro, principalmente por ainda não estarem totalmente acostumados com a comida japonesa”, afirma. Mesmo com a falta de alguns recursos, há sempre o “jeitinho brasileiro” de resolver as coisas. “Aqui fazemos maniçoba da folha da macaxeira e o tucupi também é feito da macaxeira. Tentamos cultuar nossa cultura mesmo com adaptações, realizando nossas próprias plantações”, conta.
Europa
Já na Europa, a massoterapeuta Simone Campos, nascida em Óbidos, no Pará, mora há 6 anos em Portugal e também aposta na culinária como forma de manter a cultura paraense em dia. Além disso, Simone conta que também mantém a linguagem popular paraense em casa.
“O idioma, por exemplo, mesmo sendo português, o de Portugal, é diferente. Minhas filhas se adaptam no novo idioma, que possui muitas palavras e pronúncias diferentes, mas sempre mantemos o nosso português nativo do Pará”, explicou. Ela é mãe de Letícia, 22 anos, Heloísa, 8 anos e Emanuela de 1 ano e 10 meses. As duas mais velhas nasceram no Brasil e a mais nova em Portugal.
Benefícios x desafios
As mães afirmam que os maiores benefícios na criação dos seus filhos em outro país está na qualidade de vida. “Aqui posso oferecer estudo e segurança, além de ter poder de compra para proporcionar tudo para os meus filhos”, contou Simone. Portugal não foi o único endereço internacional da família Campos, que também morou na Holanda por 1 ano e meio.
Independentemente do local de onde nasceram ou vivem, Campos afirma que as filhas conseguem se adaptar às mudanças culturais e linguísticas. “A facilidade que a minha filha do meio teve de aprender o holandês e a cultura holandesa, por exemplo, foi impressionante e muito bom pra ela. É algo que levará para toda sua vida. Enquanto a minha filha mais velha agrega experiência e conhecimento para migrar para outros países da Europa”, afirma.
Por outro lado, o maior desafio citado pela massoterapeuta é a falta da rede de apoio. “Diferente do Brasil, aqui não temos apoio, mas com o passar do tempo, tudo foi se ajeitando e as coisas começaram a fluir. Em geral, eu sempre vivenciei a maternidade, com muito desafio, mas é gratificante”, afirma.
Éricka também tem saudade dos familiares e sente dificuldades em relação à distância. Contudo, ela afirma que recebe suporte de outras maneiras. “Na escola japonesa onde minha filha foi primeiramente matriculada - e também na escola brasileira - fomos muito bem recebidas e tivemos um grande apoio da direção e professores. Eu não esperava que receberia tanto apoio desses profissionais, o que tornou nosso começo no Japão mais fácil”, relembra.
Desafio da adaptação
De acordo com Ana Paula Souza, doutora em Educação e Pós-doutorado em Linguagem da Universidade Federal do Pará, campus de Bragança, a maior dificuldade das mães que migram para outro país está na adaptação quanto a diferença cultural, mercado do trabalho e domínio de outra língua, pois cientificamente, o adulto tem maiores obstáculos que as crianças em aprender outro idioma.
“Diferente dos adultos, o cérebro da criança aprende uma segunda língua de forma brincante, por repetições e de modo autônomo, como escutar música ou interagir com outra criança ou adulto. O maior benefício para a criança que vive multiculturalmente é experimentar modos de vida diverso e plural", explica.
Outro desafio para as mães brasileiras, segundo a especialista, com certeza é não ter pessoas próximas como a família ou amigos que tenham a mesma identidade cultural.
“O adulto tem mais limitação de se adaptar à ideia multicultural. Mas, as mães são como camaleoas e borboletas, vivem fases versáteis, emoções e inteligência que permite reinventar-se e seguir adiante. A experiência de criar uma família em outro país e atravessar uma cultura diferente, muitas vezes é sofrida e silenciosa, por isso, digo às mães paraenses que moram fora: sintam orgulho da sua trajetória!”.
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