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Mata Fome: Moradora relata medo constante de alagamentos

A empregada doméstica Ana Cláudia Ferreira da Silva, de 37 anos, moradora da Pratinha 2, em Belém, fala de medo e insegurança vividos durante as chuvas intensas

Da Redação

A empregada doméstica Ana Cláudia Ferreira da Silva, de 37 anos, moradora da Pratinha 2, em Belém, fala de medo e insegurança vividos durante as chuvas intensas na capital paraense, especialmente em áreas próximas a igarapés. Mãe de quatro filhos, um de 18 anos, um de 17, um de 13 e outro de 6 anos de idade, além de seus dois gatinhos, Branco e Tom, ela reside na área há 28 anos.

“Eles precisam solucionar esse problema, que é o ‘Mata Fome’. Isso é assim todos os anos e só vai se agravando. A chuva de domingo foi demais e as casas ficaram debaixo de água. Em noite de chuva, é uma sensação de medo. É medo de nós acordarmos à noite e nos depararmos com a nossa casa inundada, cheia de água. E nós vemos os nossos objetos, que nós trabalhamos para conquistar, serem danificados pela água, pela enchente. E eu acordar de manhã e sair para o meu trabalho, seguir a minha rotina de todos os dias, isso me dá uma sensação de medo de deixar os meus filhos em casa”, afirmou.

Segundo Ana Cláudia, esse medo não é de agora. “É um medo que já vem há muitos anos. Já somos até acostumados com a enchente. Então todo inverno, período chuvoso em Belém, principalmente aqui no bairro da Pratinha, é uma atenção. As pessoas já fazem coisa para levantar os seus móveis, porque já sabem da enchente. Então é uma sensação de medo, de que a gente não sabe o que vai acontecer, sem saber o que fazer”, contou.

Ana Cláudia reforçou que o receio é constante, afeta toda a família e tem impacto direto no emocional dos moradores. “Mexe muito, porque a gente fica sem poder fazer nada e sem saber para quem recorrer. A minha filha...quando ela vê uma chuva, ela já pergunta: ‘mãe, vai chover hoje?’. E ainda tem os animais que também ficam desesperados. Nessa chuva, peguei eles, coloquei eles em cima de uma mesinha”, disse.

A dona de casa Maria Rodrigues dos Santos, de 47 anos, relata a indignação dos moradores da Pratinha com a falta de avanço nas obras do canal do Mata Fome, consideradas essenciais para conter os alagamentos na região. Ela mora no bairro desde 2010. “Esse projeto (do canal do Mata Fome) nunca saiu do papel. Chega de sofrer. Entra político e sai político, falam que esse projeto está pronto, mas nunca foi pronto”, afirmou.

E a insatisfação dos moradores levou a protestos consecutivos. No bairro da Pratinha 2, residentes interditaram a rodovia Arthur Bernardes em dois momentos, na noite de domingo (19) e na manhã de segunda-feira (20), denunciando os alagamentos constantes e cobrando o início das obras prometidas. Eles relataram prejuízos materiais, casas invadidas pela água, perda de eletrodomésticos e dificuldades de locomoção, além do agravamento de problemas estruturais antigos, como pontes danificadas e canais assoreados.

Na manhã de segunda (20), a dona de casa Gisele Amaral, 47 anos, continuava retirando a lama que tomou conta de sua residência. Ela mora na passagem Liberdade, cuja via principal é a rua Imperador. “Graças a Deus, a gente não perdeu bens materiais. Mas inundou a casa, que está toda suja de lama. Não escapou nada”, disse. “Até uma cobra foi tirada aqui de dentro de casa. A água foi tão grande e tão forte que, pela primeira vez, encheu a minha casa”, contou ela, que reside com o marido e as duas filhas. Morando há 25 anos naquele endereço, Gisele afirmou que o “único jeito” de resolver essa situação é o poder público “ajeitar esse canal do Mata Fome”.

Também na segunda (20), em outro trecho do bairro da Pratinha, na travessa Piedade com a rua Nova, uma ponte caiu, cuja estrutura já estava danificada. “Essa ponte estava quebrada há mais de dois anos. Só tinha dois paus por onde o pessoal passava”, contou Iranilde Tavares, 43 anos. “A chuva de domingo levou tudo. Agora as duas pontes estão quebradas. Não tem como a gente passar”, disse. A ponte dava acesso à rodovia Arthur Bernardes, à feira do Tapanã e aos conjuntos Cordeiro de Farias e Parque União.

Alagamentos seguem como problema crônico

Para enfrentar esse cenário de alagamentos crônicos em Belém, que afetam diretamente a rotina e a qualidade de vida de milhares de moradores, o arquiteto e urbanista Juliano Pamplona Ximenes Ponte explica que é preciso adotar soluções estruturais e não-estruturais. “O uso do termo soluções estruturais nos levaria, tecnicamente, a uma concepção mais tradicional, e parcial, de urbanismo e de drenagem urbana e planejamento ambiental urbano. Precisamos combinar as estratégias, estruturais e não-estruturais. Essas soluções devem focar, principalmente, nos problemas de drenagem na escala da bacia hidrográfica, que é a região de influência daquele rio ou canal, como o da Doca, Tamandaré, Tucunduba, Mata Fome, entre outros”, detalha.

As soluções estruturais se baseiam em dispositivos que escoam e reservam as águas de chuva, como canais, galerias, bocas-de-lobo e bacias. Já as não-estruturais tratam de ações anteriores, como as determinações existentes na legislação.

Entre as soluções, o especialista detalhou que é preciso mapear as áreas permeáveis e impermeáveis, as com vegetação, além de identificar essas áreas no relevo e no terreno. Segundo ele, é importante ainda comparar com o que a legislação determina em termos da área permeável a ser cumprida nos lotes, nas vias, nas praças e nos parques. Outro ponto destacado é a atualização do manual de arborização de Belém para incorporar diretrizes de revegetação de margens de rios e de encostas e taludes.

Urbanização desordenada

A respeito dos canais, o urbanista ressaltou que é necessário mudar o desenho deles, mantendo a sinuosidade e as margens com vegetação, além de fazer a reservação controlada das águas, com a criação de tanques que parecem lagos artificiais, mas que possuem vegetação e espaços de lazer, com pedalinho, praça, mirante, entre outros pontos. “Precisamos dessas áreas de reservação para liberar o excesso de água depois que a chuva passar e a maré baixar”, explicou Juliano Pamplona.

Por fim, para ele, é importante ter no mínimo 20% de permeabilidade em todos os lotes de dimensões médias e grandes no município. “Os lotes maiores devem ter no mínimo 30% de área permeável com vegetação, dependendo da bacia hidrográfica”, diz o especialista.

Mas as recorrentes cenas de alagamentos em Belém durante períodos de chuva intensa não são causadas apenas pelo volume de água que cai sobre a cidade. Segundo o engenheiro civil Jaisson Cavalcante, o problema é resultado de uma combinação de fatores naturais com falhas históricas de planejamento urbano e de gestão da drenagem. Segundo ele, Belém possui condições naturais desfavoráveis, por estar praticamente ao nível do rio e sofrer forte influência das marés altas de rios como o Guamá e da Baía do Guajará. Somado a isso, a capital paraense enfrenta chuvas intensas e concentradas, típicas da região amazônica. “Quando chove forte ao mesmo tempo em que a maré está alta, a água simplesmente não consegue escoar”, disse.

Outro fator determinante é a urbanização desordenada ao longo das décadas. Houve ocupação de áreas de várzea e baixadas, além da realização de aterros irregulares que bloquearam canais naturais de drenagem. O crescimento urbano ocorreu, segundo Jaisson, sem respeitar o sistema natural de escoamento das águas.

Insuficiência do sistema de drenagem

O engenheiro também apontou a insuficiência do sistema de drenagem da cidade. Segundo ele, muitos canais são antigos, subdimensionados ou mal executados. Além disso, Belém carece de reservatórios de amortecimento, conhecidos como “piscinões”, que ajudariam a reter a água das chuvas mais fortes. “Grande parte das obras foi feita sem integração entre drenagem, pavimentação e saneamento, o que acaba transferindo o problema de um ponto para outro”, disse.

A falta de manutenção preventiva agrava ainda mais o cenário, aponta Cavalcante. Canais e bueiros frequentemente estão assoreados e cheios de lixo, com redes de drenagem obstruídas. Ainda segundo o engenheiro, a manutenção quase sempre ocorre de forma reativa, apenas após os alagamentos, e não de maneira contínua e planejada. Para ele, o problema não é apenas a chuva, mas a ausência de um planejamento urbano integrado. Ele destaca que muitos projetos de drenagem não consideram, de forma conjunta, a influência da maré, o volume real das chuvas e o crescimento urbano. Além disso, a gestão pública fragmentada faz com que cada obra resolva um ponto isolado, mas acabe criando novos problemas em outras áreas da cidade.

Apesar da gravidade da situação, o engenheiro afirmou que Belém tem solução, desde que sejam adotadas ações estruturais e permanentes. Entre as medidas necessárias, ele citou investimentos em macrodrenagem, com readequação e ampliação dos canais existentes, construção de reservatórios de retenção e instalação de comportas e estações elevatórias em áreas influenciadas pela maré. Na microdrenagem, Jaisson defendeu bueiros e galerias compatíveis com a realidade climática da cidade, padronização técnica nos novos loteamentos e revisão de projetos antigos. Ele também ressaltou a importância da infraestrutura verde, como pavimentos permeáveis, parques alagáveis que funcionem como “esponjas urbanas” e a recuperação de áreas de várzea onde for possível.

Planejamento urbano mais rigoroso

Outro ponto fundamental, segundo o engenheiro, é um planejamento urbano mais rigoroso, com proibição de ocupações em áreas críticas, regularização fundiária acompanhada de obras reais e atualização do Plano Diretor, com foco específico na drenagem urbana. A manutenção permanente do sistema também é indispensável. Jaisson defendeu a limpeza periódica dos canais independentemente do período do inverno amazônico, além de ações de educação ambiental para reduzir o descarte irregular de lixo, que obstrui bueiros e contribui diretamente para os alagamentos. O monitoramento contínuo do sistema completa o conjunto de medidas necessárias.

Questionado sobre a viabilidade dessas soluções, o engenheiro afirmou que a solução existe, mas não é simples nem barata. Ele citou exemplos de cidades como Recife e partes de Manaus, que enfrentam desafios semelhantes e conseguiram reduzir drasticamente os alagamentos por meio de planejamento técnico, investimento contínuo e integração entre engenharia e meio ambiente. “O que não existe é solução rápida e de baixo custo. Belém precisa de um projeto de longo prazo, e não apenas de obras emergenciais com o intuito de resolver problemas momentâneos”, afirmou.