Jornalista critica vídeo de influenciadores com búfalo no Marajó e alerta para a 'espetacularização'
Para ela, a polêmica não está no consumo da carne ou nas tradições da região, mas na forma como práticas culturais são transformadas em espetáculo para gerar engajamento nas redes sociais
A repercussão do vídeo em que a influenciadora paraense Lia Mendonça aparece preparando um búfalo inteiro assado na Ilha do Marajó ganhou um novo capítulo após críticas da jornalista e escritora paraense Isis Drumond, mestre em sociologia política. Para ela, a polêmica não está no consumo da carne ou nas tradições da região, mas na forma como práticas culturais são transformadas em espetáculo para gerar engajamento nas redes sociais.
A gravação, publicada na terça-feira (14), reúne Lia Mendonça, os influenciadores Chrys Dias e Débora Paixão e o cantor MC Daniel. Nas imagens, o grupo encena a retirada do búfalo da água e, em seguida, prepara o animal inteiro em uma churrasqueira improvisada. O vídeo rapidamente viralizou e dividiu opiniões entre os internautas.
Na avaliação de Isis Drumond, o desconforto provocado pelas imagens não está relacionado ao fato de o animal ser abatido para consumo. "Quem consome carne sabe que o bife não nasce em bandejas de isopor e plástico filme. A questão que grita aqui não é o consumo, tampouco a tradição. É a espetacularização do processo", afirma.
Segundo a jornalista, o preparo de animais integra saberes ancestrais e faz parte da relação histórica das comunidades amazônicas com o território. O problema, diz ela, surge quando esse contexto é retirado de sua realidade e adaptado à lógica das redes sociais. "O abate e o preparo são ritos que vêm de uma herança daqueles que entendem a terra e a água. É a vida acontecendo em sua forma mais orgânica. Só que existe uma fronteira entre o cotidiano de um território e a vitrine fria de um Reels. Quando essa realidade é transportada para um feed com milhões de seguidores, o rito perde o caráter de subsistência e assume a roupagem de conteúdo", analisa.
Para Isis, a busca por visualizações acaba incentivando a produção de conteúdos cada vez mais impactantes. "O grupo sabe exatamente onde a linha está e escolhe cruzá-la porque a indignação gera cliques, e o asco gera comentários. O algoritmo não diferencia amor e espanto, apenas entrega o conteúdo", critica.
A escritora também alerta para o risco de reforçar estereótipos históricos sobre a Amazônia. "Ao expor na internet a imagem isolada de um contexto complexo de costumes locais, sem o devido cuidado ou sensibilidade, eles jogam lenha na fogueira histórica do preconceito que o restante do Brasil alimenta contra o Pará e, muito especificamente, contra o Marajó", diz.
Ela acrescenta que esse tipo de conteúdo reduz a complexidade cultural da região a uma imagem de impacto. "O Marajó acaba reduzido a um cenário de barbárie aos olhos de quem assiste de longe. Transformar a nossa ancestralidade e o nosso modo de vida em um espetáculo grotesco para chocar é prestar um desserviço à nossa própria identidade", afirma.
O vídeo que motivou o debate foi publicado por Lia Mendonça durante uma passagem pela Ilha do Marajó. Além da influenciadora, participam da gravação Chrys Dias, Débora Paixão e o cantor MC Daniel. Nas redes sociais, muitos usuários criticaram a produção. "Acho que passaram um pouco do limite", escreveu uma seguidora. Outro comentário dizia: "Quanto exagero, tudo por engajamento".
A reportagem procurou a Polícia Civil do Pará para saber se o caso é acompanhado pela instituição e se houve alguma irregularidade relacionada ao abate ou à exposição do animal. Também entrou em contato com Lia Mendonça e com a equipe de MC Daniel para solicitar posicionamento sobre a repercussão do vídeo. Até a publicação desta matéria, não houve retorno.
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