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Jogos online: Quando apostar deixa de ser diversão e vira problema de saúde

Ludopatia é reconhecida como transtorno e pode causar prejuízos emocionais, sociais e financeiros

O Liberal

A dificuldade de controlar o impulso de apostar, a irritabilidade ao ficar sem jogar e a necessidade constante de aumentar o valor das apostas são alguns dos sinais de alerta para a ludopatia, transtorno associado ao vício em jogos de apostas online. Nesta semana, o Pará sancionou a lei que institui a Semana Estadual de Atenção, Conscientização e Prevenção sobre as Doenças Causadas pelo Vício em Jogos de Apostas Online. A iniciativa será realizada anualmente na primeira semana de maio e tem como objetivo ampliar o debate sobre os impactos do uso excessivo dessas plataformas.

Segundo a docente e médica do Instituto de Educação Médica (Idomed), Ana Beatriz Lima, o problema já é reconhecido pela medicina e apresenta características semelhantes a outros transtornos comportamentais. “A ludopatia foi incluída como um transtorno, justamente pela questão da perda do controle, da repetição que gera comportamentos diante da interrupção, de abstinência, de irritabilidade, baixa tolerância. Vários comportamentos fazem com que uma pessoa se enquadre nessa patologia”, explicou.

Apesar disso, ainda há resistência em enxergar o vício em apostas como uma doença, o que pode dificultar a busca por ajuda. “É importante falar que apesar da ludopatia ser um termo que está aparecendo mais nos últimos anos, pelos jogos de azar que estão cada vez se tornando mais acessíveis, pela fácil monetização e pela publicidade desenfreada que a gente passou nos últimos tempos, muitas pessoas ainda têm essa dificuldade em compreender que é um transtorno, que é uma doença", observou.

“E isso muitas vezes chega a dificultar para que a própria pessoa que está com vício nos jogos, ela sinta-se confortável para procurar ajuda, para conversar, para identificar os sintomas e por ter vergonha em muitas vezes. Então, em muitos casos essa pessoa acaba tendo muitos prejuízos, prejuízos emocionais, sociais, causando sintomas ansiosos, depressivos, justamente por conta de tudo que o vício acaba resultando. Então, é muito importante que essa pessoa, no momento em que ela vá procurar ajuda, a rede de apoio dela, a família, esteja aberta a compreender e quebrar conceitos de que a ludopatia pode carregar ainda e compreender de que é uma doença e que precisa de um tratamento, precisa de um acompanhamento e essa pessoa realmente precisa daquele apoio e daquela ajuda, assim como se fosse de qualquer outra patologia fisiológica”, alertou.

A médica também chama atenção para comportamentos que indicam agravamento do quadro e que podem ser percebidos por pessoas próximas. “É importante falar que é um transtorno que queira ou não é delicado. Passar por uma avaliação é sempre o mais adequado, mas existem sintomas que são fáceis de serem identificados e que uma pessoa que esteja próxima, que ela perceba esses sintomas e ligue um sinal de alerta sobre isso. Ela pode se aproximar da pessoa que está com vício, conversar e tentar traçar uma intervenção, seja procurando um profissional ou um grupo de apoio de jogadores. Tudo isso são alternativas e estratégias para que possa ajudar esse indivíduo a sair do vício”, comentou a médica.

"Mas existem, como eu falei, sintomas que são muito latentes. Então, por exemplo, será que toda vez que eu jogo, eu sinto a necessidade de aumentar a minha aposta ou dobrar a minha aposta para que eu continue a sentir a excitação que eu senti no primeiro jogo? Será que quando eu fico sem jogar, eu sinto inquietação, pensamentos ansiosos, irritabilidade ou até os mesmos choros e por aí vai, como um sinal de alerta para uma abstinência. Quando eu estou jogando, por exemplo, que eu termino a jogada, eu já fico aí pensando numa próxima estratégia que eu posso colocar em prática, já fico pensando numa próxima rodada, então tudo isso são sinais que já podem ir me trazendo alerta, mesmo me trazendo algum tipo de prejuízo financeiro, será que eu ainda quis tentar me recuperar, ou eu ainda fui atrás de mais dinheiro para continuar colocando ali, tive necessidade de mentir para algum familiar, para algum amigo, para que eu continuasse jogando, então todos esses são alguns indicativos alarmantes e que são fáceis de serem identificados”, informou.

A identificação precoce é fundamental para evitar consequências mais graves. O tratamento pode envolver acompanhamento psicológico, grupos de apoio e mudanças na rotina. “Então, caso você se identifique com um dos sintomas, com os prejuízos que isso está trazendo para a sua vida, você pode entrar em contato com a sua rede de apoio, solicitar ajuda antes que te traga um prejuízo muito grande financeiro, antes que te afaste de pessoas queridas, antes que você tenha sintomas ansiosos, depressivos, em decorrência do resultado, do vício dos jogos. Então, se você se identificou com isso ou está querendo utilizar de ajuda, a ajuda psicológica, ela sempre auxilia bastante, referente a isso. Fazer também encontros em grupos de apoio, de jogadores, para discutir sobre a questão do vício. É sempre uma forma terapêutica muito rica de ter essa troca e criar essa rede de apoio mais ampliada. Contar também com familiares, com amigos e fazer uma mudança na rotina e de vida diária mesmo, em busca de mudar os hábitos que possam estar despertando gatilhos para que você retorne ao vício. Então, podem ser mudanças que sejam aplicadas no cotidiano, mas que são de suma importância”, concluiu.

Por que apostas online são tão viciantes

Sob a perspectiva psicológica, a docente do Centro Universitário Estácio de Belém, Lia Cristina Botega, explica que o funcionamento desses jogos ativa mecanismos importantes no cérebro. “As apostas online são especialmente viciantes porque combinam mecanismos psicológicos muito potentes, como a liberação de dopamina que é estimulada a aparecer quando ganhamos algo ou na expectativa de ganhar algo, criando a chamada recompensa variável: a pessoa nunca sabe quando vai ganhar, e isso aumenta muito a expectativa/liberação da dopamina. Além disso, há uma sensação de que é possível aprender a controlar o resultado, o que nem sempre é verdadeiro. Esse conjunto faz com que o comportamento se repita, mesmo quando há prejuízo”, afirmou.

Segundo ela, esse sistema de recompensa sustenta o comportamento compulsivo. “Como já citei acima, esses jogos ativam o sistema de recompensa do cérebro, que está ligado à liberação de dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. O mais importante é que essa ativação não acontece só quando a pessoa ganha, mas principalmente na expectativa de ganhar. Isso cria um ciclo em que o cérebro passa a buscar constantemente essa sensação, favorecendo a repetição do comportamento”, explicou.

A psicóloga também detalha os principais sinais de alerta. “Quando a pessoa passa a pensar em apostas com frequência; quando aumenta o valor apostado para sentir a mesma emoção; quando tenta parar e não consegue; quando começa a usar o jogo como forma de lidar com ansiedade e estresse. Também é comum que haja prejuízo financeiro, mentiras sobre o comportamento e irritação quando não consegue apostar. Quando esses sinais aparecem juntos, é um indicativo importante de alerta e a possível existência de um transtorno”, destacou.

Além disso, fatores externos contribuem para o agravamento do problema. “Influenciam muito. A era de excesso de informações e estímulo por propaganda aos jogos é potencialmente prejudicial. O acesso pelo celular permite que a pessoa aposte a qualquer hora, sem barreiras, o que aumenta a impulsividade. Além disso, a publicidade é altamente direcionada e muitas vezes associa as apostas a sucesso, diversão e ganho rápido. É importante relembrar do quanto a publicidade é utilizada na construção de uma cultura em uma sociedade, no poder que isso tem e daí a importância de ser um ofício que necessita de uma constante reflexão ética. Somado a isso, os aplicativos usam elementos semelhantes aos jogos, com cores, sons e recompensas imediatas, o que torna a experiência ainda mais envolvente. E quando o público é mais jovem, o risco aumenta, daí a importância nas mudanças atuais na legislação como o ECA digital”, alertou.

Para enfrentar o problema, ela destaca a importância de acompanhamento profissional e mudanças de hábitos. “O enfrentamento passa, pelo acompanhamento psicoterapêutico e psiquiátrico quando identificar uma intensificação no sofrimento e prejuízo da vida e pela substituição do comportamento por atividades que promovam satisfação e bem-estar, como práticas físicas, sociais ou culturais. Também é importante adotar medidas concretas, como restringir o acesso a plataformas de apostas e identificar situações que funcionam como gatilho”, orientou.