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Inverno Amazônico impõe desafios aos sistemas de água e esgoto; saiba como reduzir impactos

O chamado Inverno Amazônico é marcado por chuvas intensas, frequentes e prolongadas na região Norte do Brasil

O Liberal

O chamado Inverno Amazônico, marcado por chuvas intensas, frequentes e prolongadas na região Norte do Brasil, entre os meses de dezembro e junho, traz desafios adicionais para a infraestrutura urbana e para a operação de serviços essenciais, como o abastecimento de água e o esgotamento sanitário. Embora esses impactos sejam sentidos em todo o estado do Pará, em maior ou menor grau, em Belém e na Região Metropolitana eles se tornam ainda mais evidentes, exigindo atenção redobrada de concessionárias, poder público e da própria população para reduzir riscos de interrupções, extravasamentos e transtornos à rotina das cidades.

De acordo com especialistas, o impacto das chuvas vai além dos alagamentos visíveis nas ruas. Ele atinge sistemas que funcionam de forma integrada e contínua, muitos deles dependentes de energia elétrica e de redes dimensionadas para volumes específicos.

Energia elétrica: um elo sensível do abastecimento de água

Em caso de falta de energia, o impacto vai além da iluminação. Com as chuvas intensas, as interrupções e oscilações no fornecimento de energia elétrica, comuns durante temporais, afetam o sistema de abastecimento de água, que por trabalhar com sistemas elétricos e bombas na captação, produção e distribuição, depende diretamente da energia elétrica. A engenheira sanitarista Katiucia Nascimento Adam, doutora em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pela Universidade Federal do Pará (UFPA) explica que o sistema de abastecimento de água não para só no momento da queda de energia.

“Quando a eletricidade retorna, é preciso religar os equipamentos de forma gradual, pressurizar toda a rede e recuperar os níveis dos reservatórios, o que leva tempo”, explica Katiucia. Ela ressalta que, em redes mais antigas, esse processo exige ainda mais cautela, já que oscilações elétricas aumentam o risco de queima de motores, danos a bombas e outros equipamentos, o que pode prolongar o período de interrupção no fornecimento de água.

No caso do Pará como um todo, os sistemas eletromecânicos das redes de abastecimento de água são antigos e estão sendo assumidos agora pela Águas do Pará, que já está operando em 50 municípios paraenses, chegando em 126 cidades até maio deste ano.

Em todas as entradas nessas localidades, a concessionária realiza melhorias dos sistemas eletromecânicos que estão em funcionamento, mas precisam de manutenção, revitalização de bombas paradas, aquisição de equipamentos mais modernos, organização de quadros elétricos e reforma de subestações que controlam a energia elétrica que alimenta os motores e componentes eletrônicos.

Essa ação já está trazendo os primeiros resultados. Em Marabá, no sudeste paraense, a Águas do Pará assumiu a operação em 08 de dezembro do ano passado. Lá, a Estação de Tratamento de Água (ETA) Nova Marabá atende os núcleos Nova Marabá e Cidade Nova, onde sempre houve um problema histórico de falta de água. Com pouco mais de um mês, a concessionária está realizando toda a revitalização do sistema elétrico e de bombas da captação de água bruta e da distribuição, o que vai aumentar a quantidade de água produzida e, consequentemente, vai encerrar os rodízios de abastecimento nos bairros.

O gerente Executivo de Operações da Águas do Pará, Felipe Silveira, reforça que esse processo é feito com foco na segurança operacional. “O tempo de retomada do abastecimento após manutenções corretivas é uma medida necessária para evitar danos às tubulações, equipamentos e garantir o trabalho seguro para nossas equipes. Operamos sobre uma infraestrutura que, em muitos casos, é antiga, e qualquer religamento precisa ser feito com muito cuidado. Nosso compromisso é restabelecer o serviço com segurança e transparência, sempre informando a população sobre o que está acontecendo”, afirma.

Chuvas intensas, solo saturado e pressão sobre os sistemas

A engenheira sanitarista da UFPA Katiucia Nascimento Adam explica que o Inverno Amazônico também pode ter impactos significativos na rede de esgotamento sanitário. “É uma combinação de intensidade, duração e abrangência das chuvas. Os altos volumes, muitas vezes concentrados em curtos intervalos, elevam rapidamente as vazões e sobrecarregam tanto os sistemas de drenagem quanto os de esgotamento sanitário”, ressalta.

Segundo ela, outro fator relevante é a saturação permanente do solo, que fica constantemente úmido ou encharcado. Essa condição reduz a capacidade do solo de absorver a água da chuva, fazendo com que um volume maior de água escoe superficialmente para ruas, galerias e redes subterrâneas, aumentando a pressão sobre os sistemas de drenagem e esgoto. “Além disso, o aumento dos níveis dos rios e das marés pode gerar a chamada condição de jusante afogado, que é quando o rio, ou a maré, está tão cheia que sua água afoga a saída da barragem, impedindo o escoamento livre da mesma, dificultando a fluidez das redes de drenagem e esgoto”, acrescenta.

Em Belém, o problema é agravado pelo descarte irregular de resíduos sólidos. “O lixo é arrastado pela força da água e acaba obstruindo galerias, bocas de lobo e poços de visita (mais conhecidos como tampões de esgoto ou bueiros), criando pontos de alagamento e ampliando os riscos de extravasamento”, destaca a engenheira.

Por que a rede de esgoto não pode receber água da chuva?

Um dos pontos mais importantes e pouco conhecidos pela população sobre o sistema de esgoto é que a rede de esgotamento sanitário não é projetada para receber águas pluviais, ou seja, águas de chuva. As chamadas “ligações cruzadas”, que são ligações irregulares de calhas, ralos de quintal e drenos à rede de esgoto, aumentam de forma significativa o volume de água dentro do sistema, elevando a pressão nas tubulações e reduzindo sua capacidade de funcionamento adequado, o que favorece extravasamentos durante o período chuvoso.

“O sistema de esgotamento doméstico é dimensionado para uma vazão específica. Quando a água da chuva entra na rede, ela sobrecarrega tubulações, pressuriza condutos que deveriam funcionar por gravidade e pode causar refluxo de esgoto para dentro das residências”, explica a engenheira sanitarista Katiucia.

Mesmo sem ter essa percepção técnica, esse impacto já é bem conhecido por moradores que convivem diretamente com os efeitos do período chuvoso. Rosa Maria Sobreira, 68 anos, aposentada e moradora do bairro da Terra Firme, conta que passou a adotar cuidados simples no dia a dia após entender como pequenas atitudes podem evitar problemas maiores.

“Hoje eu me preocupo muito com esses pequenos detalhes, porque a gente aprende que fazem diferença. No período de chuva, por exemplo, eu não coloco mais o lixo na frente da casa esperando o carro passar. Se cair uma chuva forte, o saco pode ser levado, entupir bueiro, canal, e depois o problema volta pra gente mesmo. Então, deixo o lixo em um espaço protegido, onde sei que vai ficar lá até o caminhão recolher. Lixo é no lixo, não pode estar na rua”, relata.

Entre os riscos das ligações irregulares e do descarte inadequado de resíduos estão o extravasamento do esgoto na rua, o retorno pelo vaso sanitário e até danos estruturais em estações de bombeamento e de tratamento. Em Parauapebas, no sudeste do estado, a Águas do Pará realizou uma força-tarefa no Bairro Vila Nova, que tem recebido chamados frequentes de extravasamentos por conta de ligações domésticas na rede de esgoto sanitário.

Ações preventivas e monitoramento constante

Em Belém, a Águas do Pará opera, atualmente, 16 Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e 21 Estações Elevatórias de Esgoto (EEEs). Antes do início do período mais chuvoso, equipes realizaram ações de limpeza preventiva em trechos críticos da rede e historicamente mais vulneráveis a extravasamentos.

“Essas ações fazem parte de um planejamento contínuo, que se intensifica no Inverno Amazônico. Monitoramos os pontos mais sensíveis e reforçamos as equipes de operação para agir rapidamente quando necessário”, explica André Facó.

Ele também destaca que extravasamentos causados por falhas ou sobrecarga nos sistemas de drenagem pluvial, que não fazem parte da concessão, não são de responsabilidade da empresa, embora impactem indiretamente o funcionamento da rede de esgoto.

O papel da população na prevenção

  • Além das ações técnicas, a concessionária reforça que a colaboração da população é fundamental para reduzir os impactos das chuvas intensas. São atitudes simples, mas que fazem diferença:
  • Não descartar lixo, óleo, gordura ou restos de alimentos na rede de esgoto;
  • Não ligar calhas, ralos externos ou drenos de quintal ao sistema de esgotamento sanitário;
  • Manter caixas de gordura limpas e em bom estado;
  • Acionar a Águas do Pará sempre que houver extravasamentos, mau cheiro persistente ou dúvidas sobre ligações corretas.
  • “Cuidar do sistema de saneamento é uma responsabilidade compartilhada. Quando cada um faz a sua parte, os impactos do inverno diminuem e a cidade funciona melhor”, resume André Facó.