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Grande Belém registra 12 mortes por tiros dentro de residências em dezembro, aponta levantamento

Nesta quarta-feira (14), um homem identificado apenas como Leonardo foi baleado e morto durante uma operação policial

O Liberal

Durante o mês de dezembro de 2025, ao menos 12 pessoas foram baleadas dentro de casa na Grande Belém — todas morreram. A capital concentrou a maior parte dos casos, com sete pessoas mortas dentro de suas próprias residências. A maioria dos casos está relacionada a ações e operações policiais. Os dados são do 12º relatório mensal do Instituto Fogo Cruzado, divulgados nesta quarta-feira (12). E, em meio aos números alarmantes de dezembro do ano passado, ainda em janeiro, casos de violência continuam em Belém. Um homem identificado apenas como Leonardo foi baleado e morto durante uma operação do 24º Batalhão da Polícia Militar (24º BPM) na manhã desta quarta-feira (14), na área de ocupação conhecida como Monte das Oliveiras, na rua Benjamin, no bairro da Cabanagem, em Belém.

Informações iniciais apontam que ele possuía antecedentes por roubo, tráfico de drogas e violência doméstica, e teria resistido à prisão, chegando a atirar contra os militares. Leonardo foi socorrido e levado para a unidade de saúde do bairro, mas não resistiu aos ferimentos, segundo a Polícia Civil.

Ainda de acordo com a PC, com Leonardo foram apreendidos um revólver calibre .32, munições e um aparelho celular. As armas policiais e o material apreendido foram apresentados na delegacia para realização de perícia. O caso deve ser investigado pela Delegacia da Cabanagem.

O coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Pará, Eryck Batalha, avalia que o início de janeiro já demonstra um ritmo preocupante de violência. Segundo ele, apenas até 14 de janeiro, o número de pessoas atingidas por disparos corresponde a pouco mais de um terço de todas as vítimas registradas em dezembro, indicando que o cenário pode se repetir - ou até se agravar - caso o mês siga nessa tendência. “Dezembro foi um mês violento na região, especialmente quando comparado aos meses anteriores. Até o dia 14/01 de 2026, registramos cerca de 34% do total de vítimas por arma de fogo em relação a dezembro do ano passado”, afirma.

“O número aponta uma tendência de redução, mas seguiremos atentos a qualquer variação dessa proporção. Nossos dados são disponibilizados em tempo real para acompanhamento da população por meio do site e do aplicativo. Compreender essa flutuação é um esforço conjunto que precisa envolver o governo do Estado, pesquisadores e a sociedade civil, por meio da produção e interpretação de dados”, completa o coordenador.

Casos relacionados a ações policiais

Os demais casos apontados no levantamento foram registrados em Ananindeua e Castanhal com duas mortes e Santa Izabel do Pará, com uma. Entre as vítimas, 11 eram adultas e uma adolescente. No mesmo período de 2024, foram registrados quatro casos. A maioria das ocorrências dentro de residências está relacionada a ações e operações policiais, que somaram seis casos, seguidos por homicídios e tentativas de homicídio com com quatro registros. Também houve um episódio associado a briga e outro a tentativa de roubo.

O bairro que mais concentrou mortes dentro de casa, também como mostram os dados do Fogo Cruzado, foi a Cabanagem, em Belém. No dia 23 de dezembro, próximo ao Natal, duas pessoas foram mortas, em casa, em uma operação da Polícia Militar. Entre as vítimas estava um adolescente de 16 anos. Dias antes, em 17 de dezembro, um casal foi encontrado morto dentro de casa, no mesmo bairro, com múltiplas perfurações por arma de fogo.

O coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Pará observa que os dados indicam que os confrontos continuam extremamente letais, em especial nas ações policiais. Além disso, ele alerta que o alto número de mortes em residências sinaliza como a violência armada tem invadido o espaço privado e familiar.

Sobre o que explica o aumento dessas ocorrências, Eryck Batalha explica que “é difícil precisar as motivações, visto que cerca de metade das mortes segue sob investigação quanto à autoria e às circunstâncias”. “A outra metade dos casos, no entanto, ocorreu durante ações policiais, o que chama a atenção para o aumento consistente de operações após a queda registrada em julho do ano passado. Esse é o único padrão que os dados indicam”, detalha.

“Metade das pessoas baleadas em residências em dezembro do ano passado, registradas pelo Fogo Cruzado, morreram durante ações e operações policiais. Entre essas vítimas, há um adolescente. Uma sétima pessoa foi morta em uma circunstância na qual um policial fora de serviço foi chamado a prestar depoimento por suposta participação. Os demais casos ocorreram em circunstâncias ainda não identificadas pelos órgãos de inteligência do Estado, o que dificulta afirmar se foram ações coordenadas por organizações criminosas ou não, acrescenta Batalha.

Morte na Pratinha

Na semana passado, um homem suspeito de envolvimento em vários crimes, como assalto, participação em organização criminosa e assassinato de policiais, foi morto na sexta-feira (9) por policiais militares, dentro de casa, no bairro da Pratinha II, no distrito de Bengui.

Ainda sobre o caso, Moisés Freitas Pantoja, também conhecido como “Killer” ou “KL”, foi atingido pelos tiros quando estava com uma mulher grávida em uma rede, dentro de uma residência na rua Vip. A ação foi mais uma fase da Operação Game Over. Moisés Pantoja foi um dos suspeitos de um assalto a uma empresa de embarque no bairro da Condor, na capital paraense.

Belém registra 27 tiroteios, 19 mortos e oito feridos

Em dezembro, os homicídios ou tentativa de homicídios foram responsáveis por 22 ocorrências, seguidas de ações policiais com 21. A capital paraense concentrou 52% dos registros do mês, com 27 tiroteios, 19 mortos e oito feridos, entre elas, o agente de segurança privada Reully Amaral Costa.

Ele foi morto a tiros na rua Veiga Cabral, nas proximidades do Portal da Amazônia, no bairro da Cidade Velha, no dia 15 de dezembro. Imagens de uma câmera de segurança registraram o crime. Reully foi surpreendido por dois homens encapuzados, que efetuaram diversos disparos. Ele morreu no local. Quanto ao perfil das vítimas da violência armada, entre os 40 mortos, a maioria era homem adulto (39).

Ainda com relação a mortes em ações policiais, que totalizaram seis ocorrências na Grande Belém, dois suspeitos morreram e após perseguição no dia 30 de dezembro do ano passado, em Belém. Os suspeitos que estavam em um carro modelo Jeep Compass teriam feito uma pessoa refém em uma caminhonete modelo Mitsubishi Triton. Entretanto, a vítima conseguiu fugir e avisar os policiais do 24º Batalhão da Polícia Militar (BPM), que conseguiram interceptar os criminosos após perseguição, nos bairros do Mangueirão e do Bengui.

Os suspeitos fugiram pela rua Liberdade em direção a avenida Transmangueirão, momento em que foram interceptados, desceram do veículo e tentaram fugir. De acordo com a polícia, os suspeitos tentaram abordar moradores na via pública, com o intuito de tomá-los como reféns. Eles atiraram contra os policiais que reagiram atingindo dois suspeitos. O terceiro foi detido no local. Segundo testemunhas, foram ouvidos muitos tiros no momento que os suspeitos desceram do veículo.

Ao todo, na Grande Belém, foram registrados 52 tiroteios, com 50 pessoas baleadas. No mesmo mês de 2024 foram 65 tiroteios e 71 baleados. Desse total, 40 pessoas morreram e 10 ficaram feridas. Entre os municípios que compõem a Região Metropolitana de Belém, a violência armada se distribuiu de forma desigual. Belém registrou 27 tiroteios, com 19 mortos e 8 feridos.

Em seguida aparece Castanhal, com 8 tiroteios, 7 mortos e 1 ferido, e Ananindeua, que contabilizou 7 tiroteios, 6 mortos e 1 ferido. Marituba registrou 4 tiroteios e 5 mortos, enquanto Santa Izabel do Pará teve 3 tiroteios e 2 mortos. Barcarena contabilizou 2 tiroteios e 1 morto, e Benevides registrou apenas 1 tiroteio.

Cabanagem, Mangueirão e Águas Lindas são os bairros mais afetados

Ainda de acordo com o levantamento do Fogo Cruzado, os bairros mais afetados pela violência armada foram: Cabanagem (Belém), com 3 tiroteios, 4 mortos e 1 ferido; Mangueirão (Belém), com 3 tiroteios e 4 mortos; e Águas Lindas (Ananindeua), com 2 tiroteios e 2 mortos.

E ao menos seis pessoas foram mortas durante ações policiais registradas no mês analisado. Os casos se concentraram principalmente na região da Cabanagem, que contabilizou três mortos. Em Águas Lindas, houve uma morte, mesma quantidade registrada no bairro do Mangueirão. Em Castanhal, no bairro Imperador, também foi confirmada uma vítima em decorrência de operação policial.

“O que se destaca nos dados é o peso da ação policial nos números de mortes por arma de fogo na Região Metropolitana, que segue sendo um ponto de preocupação para a sociedade civil. Esses casos acendem um alerta sobre o uso da força em ambientes habitacionais e o risco às pessoas no entorno”, analisa o coordenador do Fogo Cruzado.

Dezessete vítimas eram negras, 5 brancas e 18 não tiveram a cor informada

Do ponto de vista racial, dos mortos na Grande Belém, 17 vítimas eram negras, cinco brancas e 18 não tiveram raça/cor informada, segundo o levantamento. Entre os baleados, há registros de um agente de segurança, um agente de segurança privada e um motorista de aplicativo mortos; três pessoas em situação de rua e um vendedor ambulante, indicando que a violência atinge diferentes grupos sociais e ocupacionais.

Cenário constante

O avanço da violência é constante, como também mostra o levantamento do Instituto. Somente em novembro do ano passado, segundo os dados, a Grande Belém registrou 34 tiroteios, que resultaram em 33 mortos e 7 feridos. Os casos se distribuíram entre os municípios da região metropolitana, com Belém concentrando parte significativa dos episódios: foram 12 tiroteios, que deixaram 10 mortos e 1 ferido.

Em Ananindeua, ocorreram 7 tiroteios, com 10 mortos. Marituba contabilizou 2 tiroteios e 2 mortos, enquanto Castanhal registrou 6 tiroteios, resultando em 2 mortos e 3 feridos. Já Barcarena teve 5 tiroteios, com 7 mortos e 3 feridos. Em Santa Bárbara do Pará, houve 1 tiroteio, que deixou 2 mortos, e em Santa Izabel do Pará foi registrado 1 tiroteio, sem vítimas.

No mesmo período, em novembro, ao menos dois adolescentes entre 12 e 17 anos foram baleados, e ambos morreram. As duas vítimas foram atingidas em ações policiais. Desde janeiro de 2025, nove adolescentes foram baleados na região metropolitana. O número indica uma média de um adolescente baleado a cada 37 dias. Entre essas vítimas, seis foram atingidas em ações ou operações policiais, o que mostra que a cada três adolescentes baleados na região metropolitana, dois foram feridos na presença de agentes de segurança.

As ações policiais seguem como o principal motor da violência na região. Dos 34 tiroteios mapeados em novembro, 16 (47%) ocorreram durante ações com agentes do estado. Em 2024, nesse mesmo período, dos 84 tiroteios mapeados, 41 (49%) foram em meio a ações ou operações policiais. Os dados evidenciam que, apesar da queda dos registros, a participação policial em episódios de violência armada se mantém.

Segup

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) informou que “a metodologia utilizada na pesquisa não utiliza critérios e dados oficiais, o que pode gerar divergências nos indicadores e não retratar a realidade.”

A Segup informou ainda que “o Estado registrou redução de 16% nos homicídios no período de 1º a 8 de janeiro de 2026 se comparado ao mesmo período de 2025 e 65% se comparado a 2018.”

“A Segup reforça que ações integradas e estratégicas de combate à criminalidade, com atuação de equipes especializadas, investimento em tecnologia, reforço do efetivo a partir dos concursos públicos, além do monitoramento 24 horas por câmeras de segurança com inteligência artificial e 100 totens de monitoramento instalados em pontos estratégicos, auxiliam as forças de segurança no combate à criminalidade nas vias urbanas”, diz o comunicado da pasta.

VIOLÊNCIA ARMADA NA GRANDE BELÉM (DEZEMBRO)

Mortes por violência armada dentro de casa:

  1. 12 mortes
  2. Distribuição dos casos:
  3. Belém: 7 mortes dentro de residências

Municípios da RMB mais afetados pela violência armada:

  • Belém: 27 tiroteios, 19 mortos e 8 feridos
  • Castanhal: 8 tiroteios, 7 mortos e 1 ferido
  • Ananindeua: 7 tiroteios, 6 mortos e 1 ferido
  • Marituba: 4 tiroteios e 5 mortos
  • Santa Izabel do Pará: 3 tiroteios e 2 mortos
  • Barcarena: 2 tiroteios e 1 morto
  • Benevides: 1 tiroteio

Bairros mais afetados na RMB mais afetados pela violência armada:

  • Cabanagem (Belém): 3 tiroteios, 4 mortos e 1 ferido
  • Mangueirão (Belém): 3 tiroteios e 4 mortos
  • Águas Lindas (Ananindeua): 2 tiroteios e 2 mortos
  • Mortes em ações policiais:
  • Cabanagem (Belém): 3 mortes
  • Águas Lindas (Belém): 1 morte
  • Mangueirão (Belém): 1 morte
  • Imperador – Castanhal: 1 morte

Perfil de mortes - em geral - por gênero e faixa etária:

  • Homens adultos: 39
  • Outros perfis: 1
  • Raça/Cor das vítimas:
  • Negras: 17
  • Brancas: 5
  • Sem informação: 18

Perfis específicos entre os mortos:

  • 1 agente de segurança pública
  • 1 agente de segurança privada
  • 1 motorista de aplicativo
  • 3 pessoas em situação de rua
  • 1 vendedor ambulante

Fonte: Instituto Fogo Cruzado