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Dia Mundial de Conscientização do Autismo reforça importância da inclusão e da garantia de direitos

Debate sobre diagnóstico, preconceito e políticas públicas ganha destaque com relatos e especialistas no Pará

O Liberal

Celebrado nesta quinta-feira, 2, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo chama atenção para a necessidade de ampliar o debate sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), combater o preconceito e promover a inclusão em diferentes espaços da sociedade. Mais do que uma data simbólica, o momento convida à reflexão​ sobre práticas cotidianas que garantam dignidade, respeito e acessibilidade às pessoas autistas.

Aos 23 anos, a estudante de psicologia Maria Eduarda dos Santos representa a realidade de muitas pessoas que só recebem o diagnóstico na vida adulta. Natural de Ulianópolis, no sudeste paraense, ela descobriu o TEA aos 21 anos, já vivendo em Belém, após ingressar na universidade.

“O meu diagnóstico se deu a partir do momento em que eu vim para a capital, onde principalmente através dos meus relacionamentos com as pessoas do meu convívio, é que foi percebida essa questão de que tinha algo a mais ali”, contou.

Segundo ela, a falta de acesso à informação no interior contribuiu para que os sinais passassem despercebidos. “Quando a gente vem de uma realidade onde o acesso à informação é mais precário e a questão de que saúde mental é um assunto que está em alta de uns anos para cá, eu não pensava que fosse alguma coisa. Normalmente a gente só acha que é diferente, mas não pensa que tenha alguma causa mais específica por trás disso”, afirmou.

Maria Eduarda relata que, antes do diagnóstico, enfrentava dificuldades que hoje reconhece como características do espectro. “No Transtorno do Espectro Autista, existem algumas condições no comportamento onde existe uma certa rigidez cognitiva, uma dificuldade de adaptação, uma dificuldade de lidar com imprevistos, quebras de expectativa, relacionamentos sociais se tornam um verdadeiro desafio”, disse.

Ela também destaca a sobrecarga sensorial em ambientes movimentados. “São muitos estímulos que eles acabam ganhando um enfoque muito, muito importante na nossa atenção e isso dificulta que a gente consiga estabelecer um relacionamento sem se sentir sobrecarregado”, relatou.

Rede de apoio

A mudança começou quando passou a conviver com novos ambientes e pessoas, especialmente dentro da universidade. “Eu cheguei a cogitar trancar o curso e, enfim, voltar para o interior, mas eu tive esse apoio de pessoas que me entendiam, principalmente de professores”, afirmou.

Ela conta que duas professoras foram fundamentais nesse processo. “Eu tinha um comportamento diferente, que todo mundo percebia. Mas foram essas professoras que me orientaram a procurar uma ajuda”, disse.

A partir desse incentivo, Maria Eduarda buscou atendimento especializado. “Através de um relacionamento pessoal, também eu tive o incentivo e o apoio para ir atrás de um neurologista, um psiquiatra, um psicólogo, fazer terapia. Foi o meu processo de diagnóstico”, relatou.

Autoconhecimento

Para Maria Eduarda, o diagnóstico representou um divisor de águas. “O diagnóstico foi um grande marco na minha vida, porque era difícil pensar a minha identidade, quando eu não sabia quem eu era”, afirmou.

Ela destaca que passou a compreender melhor suas características e limites. “Entender que como eu sou, existe toda uma causa por trás disso e que isso tem como ser tratado e que muitas dessas coisas, na verdade, elas nem são um problema”, disse.

Na Universidade Federal do Pará (UFPA), ela passou a ter acesso a suportes acadêmicos. “Na UFPA, a partir do meu diagnóstico, eu consegui acessar vários auxílios e suportes diferentes, além de flexibilizações que me permitem permanecer no curso com mais qualidade, sem que isso se torne algo tão desgastante”, afirmou.

A estudante também reforça a importância do conhecimento sobre direitos. “Então, é uma questão de direito mesmo: conhecer os nossos direitos e saber como buscá-los, onde eles podem ser acessados, como conseguimos garanti-los e até que ponto estamos amparados”, disse.

Preconceito

Apesar dos avanços, ela relata episódios de discriminação. “Mesmo assim, pessoas fizeram comentários em voz alta dizendo que eu não deveria estar ali e que pessoas como eu nunca deveriam ter saído de manicômio”, contou, ao lembrar de uma situação vivida em um espaço público de Belém.

Ela destaca que o autismo é uma deficiência invisível. “Você não olha para alguém e consegue identificar se ela é autista ou tem TDAH apenas pela aparência”, afirmou. Para ela, a conscientização é essencial. “A conscientização é fundamental para que as pessoas desenvolvam respeito e empatia pela condição autista”, disse.

Entendimento clínico e desafios

O psicólogo Marcelo Moraes Moreira explica que o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento com características bem definidas. “Ele é caracterizado basicamente por duas grandes áreas de domínio, que são os déficits persistentes na área da comunicação e interação social e padrões muito restritos e repetitivos de comportamento ou de interesses ou de atividades da criança”, afirmou.

Segundo ele, o diagnóstico é clínico. “Não há um exame laboratorial específico para isso”, destacou. O especialista também chama atenção para os impactos do diagnóstico tardio. “Esse adulto, ele costuma se isolar e ele tem uma dificuldade para manter vínculos, né?”, disse.

No ambiente de trabalho, as dificuldades podem se intensificar. “Tudo que for subjetivo demais ou informal demais, ele tem essa dificuldade de refletir sobre isso”, explicou. Além disso, há a questão sensorial. “Essa sobrecarga sensorial pode tornar esses ambientes extremamente barulhentos”, afirmou.

Ele alerta que a falta de suporte pode gerar sofrimento psíquico. “Essa pessoa pode experimentar muito sofrimento psíquico”, disse. Como caminhos para inclusão, defende mudanças práticas. “A gente precisa trabalhar com uma comunicação que seja cada vez mais clara e objetiva, onde a gente possa assegurar uma rotina mais previsível”, pontuou.

Inclusão e políticas públicas

A advogada Flávia Marçal, presidente da Comissão da Pessoa com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção Pará, destaca que, apesar dos avanços legais, ainda há falhas na efetivação dos direitos. “O autismo deixou de ser um tema técnico e passou a revelar, na prática, as falhas estruturais na garantia de direitos”, afirmou.

Ela relata dificuldades enfrentadas na prática. “Enfrentei resistência no acesso à educação inclusiva, dificuldade na obtenção de serviços do plano de saúde e a necessidade constante de acionar o sistema de justiça para assegurar direitos já previstos”, disse.

Na região Norte, os desafios são ainda mais evidentes. “Há baixa cobertura de serviços especializados, poucas universidades que formam profissionais especializados na área”, afirmou.

Ela também destaca a realidade na vida adulta. “Na vida adulta, as pessoas com autismo enfrentam um cenário de maior invisibilidade e ausência de políticas estruturadas”, disse.

Para garantir avanços concretos, defende ações integradas. “É indispensável avançar da norma para a implementação qualificada das políticas públicas, com foco em resultados concretos na vida das pessoas”, afirmou.

Dia a dia

Na prática, iniciativas locais mostram caminhos possíveis. A cabeleireira Stephanie Corrêa desenvolve um projeto voltado ao atendimento de crianças com autismo na Grande Belém. “O Couple Kids é muito mais do que um salão infantil, é um espaço pensado com amor, acolhimento e respeito às individualidades de cada criança”, disse.

Ela explica que o atendimento foi adaptado às necessidades sensoriais. “O objetivo não é apenas cortar o cabelo, mas proporcionar uma experiência positiva, segura e cheia de carinho”, afirmou.

A iniciativa surgiu da demanda das famílias. “Muitos pais chegavam inseguros, com medo de como seria a reação da criança”, relatou. Para ela, a inclusão precisa ser prática. “Não basta falar sobre o autismo, é preciso criar espaços onde essas crianças se sintam respeitadas, compreendidas e bem-vindas”, disse.

E reforça o sentido da data. “O Dia Mundial da Conscientização do Autismo é uma data muito importante para dar visibilidade ao tema, mas o nosso compromisso é diário”, concluiu.