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'Cerca de 90% dos casos de câncer de pulmão têm origem no tabagismo', alerta especialista

Entenda os riscos do cigarro e sabia onde encontrar apoio gratuito para deixare de fumar

O Liberal

O aumento do consumo de cigarros e dos dispositivos eletrônicos de fumar, principalmente entre jovens e adolescentes, tem acendido um alerta sobre os impactos provocados pela nicotina e substâncias tóxicas. Dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) mostram que a procura por tratamento contra o tabagismo no estado apresentou redução de cerca de 2,1% em um ano. Em 2024, 145 pacientes buscaram atendimento para abandonar o cigarro no Pará. Em 2025, foram registrados 142 atendimentos. Já em 2026, até o momento, 46 pessoas procuraram ajuda para deixar o vício.

Neste domingo (31), Dia Mundial sem Tabaco, médicos chamam atenção para os riscos causados tanto pelo cigarro convencional quanto pelo ‘vape’. Tratamentos gratuitos e o acompanhamento oferecido pelo SUS ajudam quem deseja parar de fumar. O pneumologista Rubens Tofolo Jr. afirma que o crescimento do uso do vape já é tratado como uma questão de saúde pública em todo o mundo.

“O número de pessoas, não digo somente os jovens, que passaram a utilizar o cigarro eletrônico cresce a cada dia. E isso é uma questão de saúde pública, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, que atestou mais de 15 milhões de jovens em todo o mundo consumindo o dispositivo. E se levarmos em conta a quantidade de casos de câncer de pulmão e outras doenças pulmonares, muitas delas fatais, a preocupação é ainda maior”, alertou.

Segundo o especialista, ainda existe a falsa ideia de que o cigarro eletrônico seria menos prejudicial do que o cigarro tradicional. Ele explica, no entanto, que ambos causam danos graves ao organismo.

“Os dois tipos de cigarro são prejudiciais. O tradicional possui altos níveis de combustão ao ser utilizado, e isso se reverte em substâncias químicas, como o monóxido de carbono e milhares de toxinas, que vão direto para o pulmão. O cigarro eletrônico também atinge os pulmões, pois contém nicotina em altas concentrações, além de aromatizantes e metais pesados que promovem o vapor que atinge rapidamente o organismo. Os dois tipos agridem o pulmão, que em pouco tempo pode levar a lesões graves”, explicou Rubens Tofolo Jr.

O médico ressalta ainda que o tabagismo está associado a dezenas de doenças e aumenta significativamente os riscos de problemas cardiovasculares e câncer.

“É uma doença crônica que está associada a pelo menos 50 outras doenças, entre elas respiratórias, cardíacas e vários tipos de câncer. Tanto cigarros convencionais como os eletrônicos possuem os mesmos efeitos sobre o organismo, que fica suscetível a doenças cardiovasculares quatro vezes mais em quem fuma. Cerca de 90% dos casos de câncer de pulmão têm origem no tabagismo, que está associado a tumores na boca, esôfago, estômago, pâncreas, rim, fígado e colo do útero”, afirmou.

Dependência química

Sobre a dependência química, Rubens Tofolo Jr. destaca que os dispositivos eletrônicos conseguem provocar vício de forma tão rápida quanto os cigarros convencionais, especialmente entre adolescentes.

“O uso do cigarro eletrônico, assim como do cigarro tradicional, implica na inalação direta. Isso significa dizer que as pessoas inalam, além de nicotina, misturas de químicos tóxicos, solventes que causam inflamações severas, dependência química e danos a curto e longo prazos. E, quando temos aí um público mais jovem a consumir essas substâncias, que geralmente vêm acompanhadas de embalagens coloridas e perfumadas, a preocupação só aumenta”, disse.

O pneumologista relata que os efeitos do tabagismo podem começar a aparecer rapidamente no organismo. Entre os principais sintomas estão tosse frequente, dificuldade para respirar e infecções respiratórias recorrentes.

“Quem fuma ganha o aspecto de envelhecimento mais rápido, além de começar com quadros de tosse, dificuldade para respirar, gripes, bronquites e infecções frequentes”, pontuou Rubens Tofolo Jr.

Ele também reforça que não existe diferença significativa entre os danos provocados pelos cigarros tradicionais e pelos dispositivos eletrônicos nos pulmões e no sistema cardiovascular.

“Não há diferença. O sistema cardiovascular pode colapsar com o uso de qualquer tipo de cigarro. As substâncias altamente tóxicas provocam danos nos vasos sanguíneos e aumentam as chances de eventos cardiovasculares e AVCs. Basta um cigarro por dia para ter 50% de chance de ter um infarto. A nicotina promove a contração dos vasos sanguíneos, dificultando a circulação e fazendo com que surjam coágulos e, por consequência, trombose”, afirmou Rubens Tofolo Jr.

Segundo o pneumologista, já é comum o atendimento de jovens com complicações relacionadas ao uso de vape.

“A presença de jovens no consultório com crises de asma, tosse crônica e problemas respiratórios é comum. O que chama atenção é que, mesmo sendo um público com mais possibilidade de informação, devido à instantaneidade das redes sociais, continua sendo o mais prejudicado”, destacou Rubens Tofolo Jr.

Abstinência

Para quem tenta abandonar o cigarro, o principal desafio continua sendo a dependência química e os sintomas de abstinência.

“A dependência química sempre será o grande desafio do tabagismo, assim como do alcoolismo, pois lida também com questões comportamentais. Os fortes sintomas de abstinência, que incluem agressividade, insônia, crises de ansiedade e depressão, devem ser considerados”, explicou Rubens Tofolo Jr.

Apesar das dificuldades, o médico afirma que o organismo começa a apresentar melhora poucos dias após a interrupção do tabagismo.

“Em poucas semanas já é possível ver as alterações no corpo, os batimentos cardíacos sendo estabilizados, a respiração melhora e a capacidade pulmonar vai sendo restabelecida, principalmente em quem pratica atividades físicas”, afirmou.

Ao falar diretamente com pais e responsáveis, Rubens Tofolo Jr. pede atenção ao que os adolescentes têm acesso nas redes sociais.

“Aos pais, eu só peço que tenham atenção ao consumo de informação na internet, pois acessar conteúdo que incentiva esse consumo só faz aumentar as chances de um adolescente se render aos dispositivos, seja por moda ou por influência até mesmo de amigos”, alertou.

Comportamento

A cirurgiã-dentista Gabriela Avertano Rocha, do Centro de Tratamento Oncológico (CTO) e especialista em estomatologia, também chama atenção para o crescimento acelerado do uso dos dispositivos eletrônicos para fumar e os impactos dessa mudança de comportamento, principalmente entre os mais jovens.

“As políticas públicas de combate ao tabagismo foram consideradas bem-sucedidas por décadas no Brasil. Mas, nos últimos anos, qualquer um percebe o crescimento do uso dos vapes, principalmente entre jovens. Observamos uma mudança de comportamento impulsionada pela percepção equivocada de que esses dispositivos seriam menos nocivos do que o cigarro comum. Essa interpretação reduz a percepção de risco e favorece a iniciação. Esses dispositivos viciam rapidamente e explicam a retomada do crescimento do tabagismo no Brasil. Nossos jovens estão expostos a substâncias potencialmente prejudiciais à saúde”, explicou.

Segundo a especialista, sinais persistentes na cavidade oral devem ser observados com atenção, principalmente quando não desaparecem dentro do período esperado.

“Lesões persistentes na cavidade oral, especialmente aquelas que não cicatrizam dentro do período esperado, devem ser consideradas sinais clínicos relevantes. A manutenção desses quadros exige investigação imediata”, reforçou Gabriela Avertano Rocha.

Câncer

Ela explica que o diagnóstico do câncer de boca é feito por meio de exame clínico, com confirmação através de biópsia. Ela destaca que, quando identificado precocemente, o tratamento apresenta maiores chances de cura.

“O exame clínico da cavidade oral é uma ferramenta simples, porém extremamente estratégica dentro da prática clínica. A identificação de alterações iniciais permite intervenções mais precoces e menos invasivas, impactando diretamente na sobrevida e na qualidade de vida dos pacientes”, afirmou a médica.

A especialista também destaca que a prevenção envolve abandono do tabaco, redução do consumo de álcool, alimentação equilibrada e acompanhamento médico regular.

“O câncer oral não surge de forma súbita. Ele evolui a partir de alterações progressivas que, quando reconhecidas a tempo, permitem uma abordagem eficaz. A conscientização da população sobre esses sinais é fundamental para reduzir os índices de diagnóstico tardio e, consequentemente, a mortalidade associada à doença”, concluiu Gabriela Avertano Rocha.

Tratamento gratuito no Pará

A Sespa informou que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito para pessoas que desejam abandonar o cigarro, seguindo as diretrizes do Programa Nacional de Controle do Tabagismo, do Ministério da Saúde.

Segundo a secretaria, o atendimento ocorre em unidades de saúde e também em serviços de referência, como a URES Presidente Vargas. O tratamento inclui acompanhamento multiprofissional, atendimentos individuais e em grupo, além de avaliação psicológica quando necessário.

A Sespa explicou ainda que os pacientes podem buscar atendimento espontaneamente ou serem encaminhados por outras unidades e profissionais de saúde. Entre os métodos disponibilizados gratuitamente estão terapia de reposição de nicotina e medicamentos auxiliares prescritos pelos profissionais responsáveis pelo acompanhamento.

Atendimento em Belém

A Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma) informou que o tratamento gratuito contra o tabagismo também é ofertado na rede municipal por meio do Programa Nacional de Controle do Tabagismo.

De acordo com a Sesma, o atendimento ocorre em unidades básicas e serviços de referência, como UBS Marambaia, UBS Satélite, ESF Água Cristal e UBS Pratinha.

A secretaria destacou que o tratamento inclui acolhimento inicial, avaliação clínica, orientações individuais e coletivas, acompanhamento contínuo e tratamento medicamentoso, quando necessário.

A Sesma informou ainda que a rede municipal disponibiliza acompanhamento psicológico durante o processo de abandono da nicotina, principalmente por meio de grupos de apoio e abordagens cognitivo-comportamentais.

Entre os métodos auxiliares oferecidos gratuitamente pelo SUS estão adesivos transdérmicos, goma de mascar à base de nicotina e o medicamento cloridrato de bupropiona, conforme avaliação médica.

Segundo a secretaria, o acesso ao tratamento pode ser iniciado diretamente na unidade de saúde de referência do paciente, onde a equipe realiza avaliação e encaminhamento para o programa.