MENU

BUSCA

Afeto e manejo inovador garantem a sobrevivência de ave rara no Mangal das Garças

Mutum-de-penacho ameaçado de extinção completa um ano e se torna símbolo do trabalho de conservação

O Liberal

Pequena, rara e improvável. Há um ano, uma ave ameaçada de extinção mobilizava a equipe técnica do Parque Zoobotânico Mangal das Garças em uma corrida contra o tempo. Rejeitada pela própria mãe logo após o nascimento, a fêmea de mutum-de-penacho precisou receber cuidados especiais para sobreviver. A solução encontrada foi tão simples quanto surpreendente: um pintinho de galinha se tornou seu primeiro companheiro de vida.

Agora, saudável, com porte adulto e comportamento considerado adequado para a espécie, a ave completa um ano de vida e se transforma em um dos símbolos mais marcantes do trabalho de conservação realizado pelo Mangal das Garças.

Mais do que celebrar um aniversário, a data representa uma vitória da ciência, da dedicação e do trabalho técnico desenvolvido diariamente nos bastidores do parque.

Um nascimento raro que virou referência

O nascimento da fêmea de mutum-de-penacho foi o primeiro registrado no Mangal das Garças e um dos poucos casos documentados na região Norte do Brasil. Considerada sob ameaça de extinção, a espécie enfrenta a redução de habitat e a pressão da caça em diversas regiões. Por isso, cada nascimento representa uma conquista importante para a conservação.

“Estamos falando de uma ave extremamente valiosa para os programas de conservação. Cada indivíduo conta. Ver essa fêmea completar um ano, saudável e plenamente desenvolvida, demonstra que todo o trabalho realizado pela equipe alcançou resultados muito positivos”, destaca o biólogo do Parque, Basílio Guerreiro.

Os bastidores de uma história improvável

Logo após o nascimento, a equipe percebeu que a mãe não aceitaria o filhote. Sem a referência materna, os profissionais precisaram assumir integralmente os cuidados com a ave.

Biólogo, veterinários e tratadores passaram a acompanhar diariamente seu desenvolvimento, buscando estratégias que garantissem não apenas sua sobrevivência, mas também seu bem-estar comportamental.

Espelhos, estímulos visuais e até um fantoche foram utilizados para reduzir o isolamento. Mas foi uma medida inesperada que trouxe os melhores resultados: a introdução de um pintinho de galinha como companhia.

Criados juntos nos primeiros meses de vida, os dois estabeleceram uma convivência que ajudou a estimular a alimentação, a atividade e a confiança da jovem ave.

“Embora o pintinho pertença a uma espécie diferente, ele faz parte da mesma ordem taxonômica dos mutuns-de-penacho, os Galliformes. Por compartilharem esse grupo evolutivo, apresentam comportamentos semelhantes, como o forrageio no solo em busca de alimento e estratégias de cuidado parental, especialmente nos primeiros estágios de desenvolvimento dos filhotes", destaca Beatriz Tavares, técnica ambiental do Mangal, especialista em aves.

Com o passar dos meses, a ave ganhou autonomia, cresceu, atingiu o porte adulto e passou a ocupar um recinto compatível com suas necessidades.

Uma esperança para o futuro da espécie

O sucesso do desenvolvimento da fêmea representa mais do que uma conquista individual. Ela passa a integrar os esforços de conservação da espécie desenvolvidos pelo Mangal das Garças.

A expectativa da equipe é ampliar o programa reprodutivo com a futura chegada de um novo macho, fortalecendo a diversidade genética e aumentando as possibilidades de reprodução.

Conservação que acontece todos os dias

Enquanto histórias como essa encantam os visitantes, elas também revelam um trabalho técnico que muitas vezes acontece longe dos olhos do público.

Por trás de cada nascimento bem-sucedido existe uma equipe multidisciplinar formada por veterinários, biólogos, tratadores e especialistas que monitoram diariamente a saúde, a alimentação, o comportamento e o bem-estar dos animais.

É esse trabalho contínuo que transforma desafios em resultados concretos para a conservação da fauna brasileira.

Um símbolo que nasceu para inspirar

Hoje, a pequena ave que precisou de ajuda para sobreviver já não é mais um filhote. Com um ano de vida, ela se torna um símbolo de resistência, cuidado e esperança.

Sua trajetória mostra que, quando conhecimento técnico, dedicação e compromisso com a conservação caminham juntos, é possível mudar histórias individuais e criar novas perspectivas para espécies inteiras.

E talvez seja justamente por isso que a história da ave criada ao lado de um simples pintinho de galinha tenha se tornado muito maior do que um nascimento raro: ela representa a prova de que salvar uma espécie começa, muitas vezes, com um único filhote.

A equipe técnica do Mangal é composta pelo biólogo Basílio Guerreiro, os veterinários Hugo Silva, Deise Cardoso e João Fonseca; os técnicos ambientais Beatriz Tavares e Rafael Azevedo, além dos tratadores.

A mutum pode ser vista diariamente no viveiro provisório das aves, dentro do horário de funcionamento do Mangal das Garças, que é aberto ao público de terça a domingo, das 8h às 18h e fechado às segundas para manutenção.

O Parque Zoobotâncio é administrado pela Organização Social Pará 2000, por meio da Secretaria de Estado de Turismo (Setur) e governo do Estado do Pará.

Serviço:

Funcionamento do Mangal: terça a domingo, das 8h às 18h. Fechado às segundas para manutenção. Entrada gratuita.

Entrada nos espaços monitorados (Borboletário e Memorial da Navegação): R$ 9,00 (inteira) e R$ 4,50 (meia).