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'Nenhuma civilização cresceu sem ouro', aponta geólogo

O Geólogo Régis Munhoz Krás Borges, professor da Universidade Federal, nos conduz a uma viagem através do tempo, revisitando origens, convidando-nos a compreender processos relacionados à lavra do minério e compreendendo que o brilho deste minério pode ser percebido na Medicina e na nanotecnologia. 

Nosso Minério: O Brasil é reconhecidamente um país rico em minerais. Falando sobre o ouro, tema deste fascículo, gostaria que o senhor fizesse um breve apanhado histórico acerca da extração desse minério aqui no Pará. Como se descobriu ouro na região amazônica e, mais especificamente, no Pará, e como se deu esse processo de extração inicial (quais foram as técnicas utilizadas, as dificuldades geográficas encontradas naquele momento etc.)?  

Régis Krás: As dificuldades logísticas para quem trabalha na Amazônia são muitas, a começar pelo deslocamento às áreas de interesse para a mineração. Os acessos às diversas áreas na Amazônia, com potenciais para minérios, são realizadas por via rodoviária, a mais problemática principalmente na época das chuvas (inverno); por via fluvial, em barcos de alumínio conhecidos como “voadeiras”, por serem mais rápidos que as embarcações tradicionais; e por aviões monomotores, propícios para aterrisagem em regiões no meio da mata, em pistas de pouso muitas vezes curtas e extremamente perigosas. Dentre os conceitos básicos para entendermos as diferentes formas de extração de ouro, diz-se que o trabalho do garimpeiro pode ser definido como mineração artesanal, em função da maneira rudimentar do trabalho, enquanto que as atividades operacionais executadas por mineradoras são definidas como mineração industrial, onde grandes obras de engenharia e alta tecnologia são utilizadas para colocar as minas em operação. Desta maneira, as primeiras atividades de extração de ouro na Amazônia paraense se deram através de pequenos garimpos localizados em regiões ínvias, onde, seguidamente, o garimpeiro chegava por caminhadas por dentro da mata tropical. Na verdade, estes homens eram verdadeiros exploradores, e todo seu conhecimento veio da experiência de anos seguidos na garimpagem.

 

Nosso Minério: Na história da humanidade (e para o progresso da mesma), qual é a contribuição desse minério?                                                  

Régis Krás: O ouro foi, provavelmente, o primeiro metal a ser descoberto pelo homem. Na realidade, a procura deste metal esteve na origem do aparecimento, desenvolvimento e conquistas das primeiras civilizações conhecidas. Em resposta à sua beleza e raridade, o ouro se tornou um símbolo de riqueza e fascínio em todas as culturas. Seu brilho e resistência o tornaram uma mercadoria ideal para fazer joias e, eventualmente, uma moeda viável. O ouro é um metal superior aos outros metais: versátil, durável, fascinante e com um brilho extraordinário. Esse brilho encantou os primeiros habitantes da Terra e, desde a sua descoberta, foi moldado e cobiçado, ornamentando reis, rainhas e castelos, impulsionando o homem a aventurar-se por mares desconhecidos e terras inabitáveis em busca de seu valor. Com ele, impérios foram erguidos, outros destruídos. Nenhuma civilização cresceu sem ele. Com o passar do tempo o ouro perdeu seu valor divino, e virou dinheiro, moeda de troca, que não perde o seu valor nem no tempo e nem atravessando fronteiras. O valor associado ao ouro é inteiramente imaginário, mas as pessoas sempre foram motivadas por uma crença e essa crença teve um grande impacto em todas as sociedades. Em 3500 a.C., quando as tribos nômades começaram a se instalar em lugares fixos, construindo as suas primeiras cidades, a arquitetura dessas cidades, a arte das esculturas e da ourivesaria começaram também a se desenvolver. No Egito Antigo, durante a construção das pirâmides e das tumbas e também com a glorificação por deuses e imperadores, muito ouro foi utilizado. A Idade Média caracterizou-se pela diminuição do comércio e, portanto, diminuiu a necessidade de uso de moeda. Ainda durante o período medieval, se depositavam ouro nas oficinas dos ourives, para ter uma maior segurança sobre o seu tesouro. Os ourives emitiam títulos e eram obrigados a devolver o ouro. Para efetuar essa devolução envolvendo o ouro, as pessoas começaram a usar esses títulos como moedas. Era o início dos primeiros bancos. Governantes e templos podiam acumular grandes tesouros, em geral na forma de vasos ou outros objetos semelhantes e também na forma de joias (as correntes em ouro eram largamente utilizadas). O ouro era guardado como um sinal de poder e riqueza, e era utilizado nos negócios e para financiar guerras e pagar resgates. Nas sociedades mais modernas, o ouro tornou-se um dos ativos mais interessantes, configurando-se, em muitos países, como lastro financeiro, até que perdeu este status em 1971, quando o dólar americano assumiu este papel. E, finalmente, citando Marx (1890), “a importância geopolítica e geoeconômica do ouro é inquestionável ao longo da história do capitalismo até o período atual. A posse do metal dourado confere ao detentor poder financeiro, a partir da capacidade de transformá-lo em capital, reservá-lo, trocá-lo por moeda ou mercadorias”.

 

Nosso Minério: Serra Pelada, nos anos 1980, é um marco histórico na extração de ouro no Pará. Como o senhor analisa esse momento? Quais motivos levaram o Estado a se tornar um dos principais cenários da “corrida do ouro” nesse período?

Régis Krás: Desde o período colonial, o Brasil se destacou pelos imensos recursos minerais (ouro, diamantes, etc.) em seu subsolo. O país ficou conhecido pela grande quantidade de ouro encontrado durante os séculos XVII e XVIII. Após esse período, acreditava-se que o recurso aurífero brasileiro não seria mais encontrado em grandes proporções. Porém, em 1980, surgiu uma “nova corrida” em busca do ouro em Serra Pelada (PA). Neste aspecto, o Estado do Pará tornou-se o foco das atenções no cenário nacional. Na Serra Pelada (“Novo Eldorado Brasileiro”, como noticiavam alguns órgãos de imprensa na época), no atual município de Curionópolis, encontravam-se pessoas oriundas praticamente de todo o território nacional, principalmente oriundos do Nordeste [brasileiro]; trabalhadores que abandonaram a atividade agrícola ou que mantinham uma alternância entre esta e a garimpagem, deslocando-se periodicamente entre as duas, num ritmo cíclico que acompanha a sazonalidade de ambas. A mineração, por definição, é uma atividade econômica e, como tal, necessita ser estruturada com base em códigos e normas. Em função dos progressivos conflitos envolvendo a disputa pelo ouro, inclusive com muitas mortes nos núcleos habitacionais construídos precariamente no entorno da serra, o Governo Federal (Presidente João Figueiredo) interveio na região do garimpo, com o intuito de disciplinar as atividades de exploração. O major do Exército, Sebastião Curió, era o responsável pela organização no garimpo, evitando, na medida do possível, confusões e atritos entre os trabalhadores. Uma das medidas estabelecidas foi a proibição de bebidas alcoólicas no local. Rapidamente a área se tornou o maior garimpo a céu aberto do mundo. Aproximadamente 25 mil homens trabalhavam dia e noite, em condições extremamente precárias e perigosas, e chegavam a tirar uma tonelada de ouro por mês. Conforme dados do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), somente no ano de 1983 foram extraídas cerca de 14 toneladas de ouro na área de Serra Pelada. Esse fato fez com que muitos pensassem que as jazidas de ouro seriam capazes de enriquecer os garimpeiros. Porém, esse fato não se concretizou, e o que é pior, muitos morreram durante o trabalho. Entre 1980 e 1992, ano em que o garimpo foi definitivamente fechado, foram produzidas 42 toneladas de ouro, compradas pela Caixa Econômica Federal. Toda esta riqueza foi controlada com “mão de ferro” pelo governo militar, a fim de minimizar os conflitos na região. No final, restou uma imensa cratera de 80 metros de profundidade e completamente alagada, na denominada Vila de Serra Pelada.

 

Nosso Minério: O que mudou de Serra Pelada para cá na extração de ouro realizada aqui no Estado? Por quais transformações passaram os processos de extração e beneficiamento? Quais avanços podem ser vistos e quais tecnologias são utilizadas hoje nessa cadeia? Como essas tecnologias atuam na cadeia do ouro em relação à redução de danos e à proteção do meio ambiente aqui no Pará? 

Régis Krás: Na realidade, os métodos de extração de ouro são técnicas tradicionais, quando falamos sobre a atividade garimpeira. Neste caso, a técnica clássica, utilizando picareta e bateia, artesanal, foi gradativamente substituída por maquinário pesado (retroescavadeiras, etc.), uma vez que esta atividade começou a receber o aporte de recursos financeiros de “empresários”, investidores representantes de diversas classes, como pecuaristas (também interessados em derrubar a floresta), políticos, grileiros e outros. Assim, a avaliação global é de que neste segmento não houve “avanço”, e sim retrocesso, porque os danos socioambientais cresceram cada vez mais. A leitura que se tem, quando analisamos o cenário, é o de que, nos últimos anos, há uma convergência muito grande entre o aumento do desmatamento na Amazônia, com queimadas associadas, um aumento dos casos de disputas por terra, conflitos entre os “garimpeiros”, com apoio de grupos armados, e os povos indígenas, e, infelizmente, parece haver a anuência do governo federal, que está quase que completamente ausente nestas áreas de conflito, dando margem para o aumento dos crimes ambientais. 

 

Nosso Minério: Atualmente, qual é o real potencial do Pará na mineração do ouro, em comparação com os demais Estados do país que possuem tradição colonial na extração desse minério? Acredita que podemos ter uma nova corrida pelo ouro, uma nova “Serra Pelada”, nos próximos anos? Quais são as projeções para o futuro desse minério?

Régis Krás: Em Geologia Econômica, um ramo da geologia que estuda a formação e a evolução dos depósitos minerais no planeta, lidamos com a ideia de que determinados depósitos, por suas características especiais, como dimensões gigantescas, volumes muito grandes de minério, ou até mesmo pela sua idade (por exemplo, o maior depósito de ouro do mundo, na África do Sul, se formou há 2,85 bilhões de anos atrás), são “únicos”; ou seja, nesta linha de raciocínio, é altamente improvável encontrarmos uma “nova Serra Pelada”. O estado do Pará, até pelas suas características geológicas, tem, sim, um grande potencial para novas descobertas de depósitos de ouro. Além de Serra Pelada, que foi uma grande produtora de ouro na década de 1980, temos no extremo oeste do estado a denominada Província Aurífera do Tapajós, região onde o ouro foi descoberto pela primeira vez no ano de 1958, nas imediações do Rio das Tropas. Esta região tornou-se grande produtora de ouro nas décadas de 1980 e 1990, através de grande atividade garimpeira, quando mais de 200 mil pessoas trabalharam na lavra do ouro. Ainda na região do Tapajós, mais recentemente, trabalhos de pesquisa mineral realizados por empresas de mineração foram responsáveis por descobertas de depósitos primários de ouro em várias regiões, e com potencial para futura produção de ouro em minas de médio a grande porte. Quando falamos em projeções para o futuro, a indústria mineral depende muito da utilização de novas tecnologias (beneficiamento) para poder extrair o ouro, normalmente muito fino, das rochas onde esse metal se encontra. Essa é uma diferença fundamental entre os métodos que os garimpeiros (mesmo aqueles mecanizados) e as empresas utilizam para a extração do ouro. 

 

Nosso Minério: Para além dos usos do dia-a-dia, hoje quais são as aplicações mais importantes do ouro?

Régis Krás: Como decorrência do avanço das pesquisas científicas, pode-se dizer que, provavelmente, uma das aplicações mais importantes e sofisticadas do ouro, atualmente, é na nanotecnologia. O universo da nanotecnologia se expandiu consideravelmente na esfera da pesquisa científica em todo mundo nos últimos anos e constitui uma área que certamente acarretará em enormes retornos econômicos. Materiais e tecnologias em escala nanométrica têm sido empregados em diversas áreas, tais como no setor alimentício, sistemas de energia renovável, bioinformática e na medicina. Neste contexto, uma classe de nanomateriais de grande potencial tecnológico e educacional são as nanopartículas de ouro (AuNPs), que possuem propriedades ópticas, magnéticas e estruturais interessantes para aplicações químicas e biológicas. São também consideradas as nanopartículas metálicas mais estáveis que se tem conhecimento. Na área da Medicina, em relação às suas aplicações terapêuticas e medicinais, o ouro pode atuar tanto na área da nanotecnologia quanto na realização de pesquisas que lidam com o combate ao HIV ou no tratamento do autismo. Também é utilizado em terapias para malária, câncer e reumatismo. Na Odontologia, é utilizado na confecção de blocos dentários. Além disso, dentre outras aplicações menos comuns, o metal pode também ser utilizado em equipamentos eletrônicos e chips, por permitir a fabricação de fios extremamente delicados; em alguns procedimentos fotográficos (ácido cloroáurico); como catalisador na indústria e na pesquisa laboratorial; na coloração de vidros (conhecidos como vidro Cranberry). Em microscopia eletrônica de varredura (MEV), o ouro é utilizado como recobrimento (metalização) de materiais geológicos ou biológicos, para melhorar a qualidade das imagens ou das próprias análises químicas realizadas nestes materiais de interesse científico.

 

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