Rival de Orbán, Peter Magyar promete 'nova era' após vencer eleições na Hungria
Com 45 anos, Magyar é líder do Tisza, partido de centro-direita fundado por ele após sua saída do Fidesz, em 2024
Péter Magyar prometeu nesta segunda-feira, 13, uma "nova era" na Hungria, um dia após sua ampla vitória sobre o ex-primeiro-ministro nacionalista, Viktor Orbán, que contava com o apoio do presidente norte-americano, Donald Trump.
Com 45 anos, Magyar é líder do Tisza, partido de centro-direita fundado por ele após sua saída do Fidesz, em 2024.
"O povo húngaro não votou por uma mera mudança de governo, e sim por uma mudança total de regime", acrescentou em uma coletiva de imprensa em Budapeste. Ele pediu ao presidente do país, Tamas Sulyok, aliado de Orbán, que convoque o novo Parlamento "o mais rápido possível".
Segundo a contagem oficial dos votos, com 98,94% das urnas apuradas, o partido de Magyar, o Tisza, conquistou 138 cadeiras de um total de 199 no Parlamento, com 53,07% dos votos. Por sua vez, o Fidesz de Orbán obteve 55 cadeiras (38,43% dos votos). A taxa de participação foi recorde: 79,50%.
Orbán reconheceu a derrota, mencionou resultados "dolorosos, mas inequívocos", e parabenizou "o partido vencedor". Orbán tornou-se uma referência da extrema direita internacional, tanto dentro quanto fora da Europa, por suas posições contrárias à imigração e sua oposição aos direitos LGBTQ+ e sua rejeição ao apoio contínuo dos países ocidentais à Ucrânia em sua guerra contra a Rússia.
Magyar moderou o entusiasmo generalizado gerado por sua vitória ao descartar, por ora, o apoio à entrada da Ucrânia na União Europeia.
"É completamente impensável que a União Europeia admita um país em guerra", disse ele, acrescentando que um referendo húngaro não está nos planos. "Não creio que isso aconteça em um futuro próximo, nem mesmo nos próximos dez anos", observou.
Milhares de eleitores comemoraram até a madrugada a vitória de Magyar diante da sede de sua campanha, às margens do Danúbio e nas ruas de Budapeste, exibindo bandeiras do país e dançando.
Derrota para o autoritarismo
A derrota de Orbán, que havia transformado seu país de 9,5 milhões de habitantes em um modelo de democracia iliberal, também representa um golpe contra os movimentos nacionalistas e de extrema direita em todo o mundo, incluindo a ala MAGA do presidente americano Trump.
"É uma derrota estrondosa para o autoritarismo", afirmou o think-tank 'Center for American Progress'.
"Também é um golpe importante para aqueles que viam no modelo corrupto de Viktor Orbán um exemplo a seguir, incluindo Donald Trump", acrescentou.
O analista Pawel Zerka, do European Council on Foreign Relations (ECFR), apontou que os resultados "podem marcar um verdadeiro ponto de inflexão na guerra cultural de Donald Trump na Europa", já que prosseguir com ela poderia representar "mais um fardo que um ativo" e dar 'confiança às forças pró-europeias do continente'.
Orbán, que tem bloqueado as decisões da União Europeia para apoiar a Ucrânia na sua luta contra a invasão russa, transformou a questão em um tema central da sua campanha, apresentando Kiev como "hostil" para a Hungria.
Repercussão pelo mundo
A presidência russa, próxima de Orbán, afirmou nesta segunda que "respeita" o voto dos húngaros e que espera manter "contatos pragmáticos com as novas autoridades", segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.
"Tomo nota de que o Kremlin se manifestou, assim como Pequim. Agradeço que tenham aceitado com respeito a decisão do povo húngaro e que estejam abertos a uma cooperação pragmática", reagiu Magyar.
Também próximos do ex-primeiro-ministro nacionalista, os governantes da República Tcheca e da Eslováquia, Andrej Babis e Robert Fico, "parabenizaram" Magyar nesta segunda-feira.
No domingo, outros líderes europeus celebraram o resultado, como o francês Emmanuel Macron e o polonês Donald Tusk, que afirmou em húngaro: "Russos, voltem para casa", uma referência à amizade entre Orbán e o presidente russo Vladimir Putin.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou que a Hungria "escolheu a Europa", e o chefe de Governo da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou nesta segunda que "o populismo de direita sofreu uma forte derrota".
Magyar prometeu restabelecer os contrapesos e garantir "o funcionamento democrático" da Hungria, uma "tarefa enorme".
O futuro primeiro-ministro já foi integrante do Fidesz, que ele abandonou ao denunciar as supostas práticas corruptas do governo de Orbán.
Os dirigentes do Fidesz "asfixiaram, estrangularam, envenenaram este país durante tanto tempo que o ar estava quase irrespirável", declarou Kristoffer Mayer, um taxista de Budapeste de 28 anos.
"Agora, espero que possamos finalmente ter um sistema de saúde melhor, escolas melhores, estradas pelas quais eu possa dirigir, que as coisas possam ser normais", acrescentou. "Esperamos e acreditamos que o futuro começa agora".
Csilla Bekesi, de 25 anos, disse à AFP: "Finalmente é bom ser húngara. É como se um peso tivesse sido tirado dos nossos ombros."
Quem é Peter Magyar
A campanha de Magyar teve foco no restabelecimento da democracia na Hungria, com a promessa de alavancar a economia e adicionar o país à zona do Euro, além do combate à corrupção governamental. Ele defende uma alternativa nacionalista, mas menos centralizadora que a da administração atual.
Nascido em 1981, na cidade de Budapeste, Magyar descreveu-se como alguém atraído pela política desde muito jovem. Tendo crescido durante os últimos anos do regime comunista, ele admirava Orbán e seu círculo de jovens democratas liberais que desafiavam o domínio soviético no final da Guerra Fria.
Magyar afirmou que assistia aos debates parlamentares na televisão ainda na escola primária e participava de manifestações políticas com seus pais. Imerso na política conservadora, Magyar filiou-se ao Fidesz em 2002, aos 21 anos, e fez amizade com outras figuras em ascensão no partido, incluindo Gergely Gulyás, que mais tarde se tornaria chefe de gabinete de Orbán.
Ao longo dos anos, o político trabalhou em cargos de bastidores, em empresas estatais e foi diplomata em Bruxelas. Em 2023, o húngaro passou pelo divórcio com a juíza Judit Varga, uma das ministras mais ligadas à Orbán. No ano seguinte, Judit se envolveu em um escândalo que abalou a Hungria quando veio à tona que o presidente Katalin Novák havia concedido um indulto a um cúmplice condenado em um caso de abuso sexual infantil.
A decisão chocou o país e levou à renúncia de Katalin Novák, enquanto Judit, que havia apoiado o indulto, também renunciou. No dia seguinte, Magyar concedeu uma longa entrevista a um popular canal húngaro do YouTube, na qual rompeu publicamente com o Fidesz, acusando o governo de Orbán de corrupção sistêmica e de agir em benefício de um pequeno círculo de elites políticas e econômicas.
Sua consolidação política se deu quando criou o Tisza para rivalizar com o Fidesz. Em junho daquele ano, o Tisza obteve 30% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu, e Magyar assumiu a cadeira de eurodeputado. A ascensão meteórica o colocou em uma posição vantajosa para disputar as eleições deste ano, já que a antiga coligação de oposição de Orbán não conseguiu força suficiente para derrotar o primeiro-ministro em 2022. Desde então, o candidato viajou pela Hungria mais de uma vez para fazer campanha e incluiu roteiros em comunidades húngaras também no exterior.
Agora, Magyar se posiciona como uma alternativa para retomar o contato mais próximo com o grupo e com a sua própria população, depois de anos de isolamento do país na Europa e de deterioração da democracia na Hungria.
Em dezembro de 2022, a UE bloqueou cerca de 22 bilhões de euros destinados à Hungria como parte da política de coesão, que prevê uma ajuda financeira aos países do bloco. O montante deve ser aplicado em estrutura, serviços e desenvolvimento, mas, no caso húngaro, foi congelado após o governo descumprir as condições para o recebimento do valor. A acusação da UE é de falha no Estado de direito, com violações à independência do judiciário, corrupção e restrições à liberdade de imprensa.
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