Oposição paraguaia pede impeachment de presidente por má gestão na pandemia
Partido da base governista, que é maioria na Câmara, já convocou sessão extraordinária para debater as acusações com a intenção de arquivá-las
Os deputados de oposição apresentaram nesta quarta-feira (17) as acusações de impeachment contra o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, e seu vice, Hugo Velázquez, pela forma como o governo tem lidado com a pandemia. Desde o início de março, Benítez vem sendo pressionado por manifestações populares que pedem sua renúncia.
O impeachment de Benítez, no entanto, é considerado improvável. Para o processo seguir para o Senado, a oposição precisa do apoio de 53 dos 80 deputados, mas tem o voto de apenas 37. "Precisamos de mais 16 votos", afirmou Celeste Amarilla, deputada do Partido Liberal, que ajudou a redigir o processo. "Mas nós não estamos em busca de votos. Apresentamos a acusação porque a população exigiu."
Apesar de o impeachment unir o Partido Liberal, de Efraín Alegre, e a esquerdista Frente Guasu, de Fernando Lugo, a chave da votação está nas mãos do ex-presidente Horacio Cartes, que controla uma importante facção do Partido Colorado, o mesmo de Benítez. Por enquanto, os deputados cartistas demonstraram sinais de que se manterão fiéis ao presidente.
A única chance de a oposição mudar o jogo está nas ruas. Analistas afirmam que, se os protestos crescerem e continuarem por mais tempo, Cartes não terá saída e poderá abandonar o governo para não naufragar com ele. Ontem, os paraguaios viveram o 12.º dia seguido de protestos.
Autoridades sanitárias vêm registrando uma média diária de 40 mortes e 2 mil casos de covid - um a cada três testes dão resultado positivo no Paraguai. Os hospitais estão lotados e o programa de imunização do governo está atrasado: até agora, apenas 12 mil pessoas foram vacinadas.
"O sistema de saúde está saturado, à beira do colapso. Estamos lutando para preservar a integridade e a vida dos paraguaios", disse Jorge Giubi, diretor de atendimento do Hospital de Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional. "O Hospital de Clínicas vive uma situação difícil. Temos um orçamento limitado, que já foi usado para remédios e suprimentos Esse déficit é transferido para o bolso do paciente. Muitos têm de comprar os insumos que não temos."
Em comparação com o Brasil, o Paraguai tem menos da metade de casos de covid-19 registrados por milhão de habitantes e quase um terço do total de mortes por milhão de habitantes. Mesmo assim, a população insatisfeita foi às ruas e protesta diariamente em frente ao Congresso, ao palácio presidencial e até diante da casa de Benítez em Assunção.
Base legal
Celeste Amarilla afirmou que os documentos de acusação incluem uma relação de erros do governo no pagamento ao Covax, consórcio ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS) para distribuição de vacinas contra covid-19. No total, Benítez teria pago US$ 6,8 milhões (cerca de R$ 38,4 milhões) por uma parcela das 4,3 milhões de doses de vacina.
Segundo a imprensa paraguaia, a oposição diz que o primeiro dos pagamentos foi fechado de forma irregular por meio de uma transferência à Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (Gavi), a fundação criada por Bill Gates para garantir que as vacinas cheguem aos países mais pobres.
"Algum tempo depois, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e a OMS comunicaram ao Paraguai que o dinheiro deveria ter sido transferido para a conta da Opas e da OMS, não para a fundação Gavi. O governo errou", diz a peça de acusação.
A oposição afirma que foi necessário iniciar um procedimento para recuperar o dinheiro transferido e enviá-lo para a conta correta, o que atrasou o início da campanha de vacinação. O Ministério da Saúde respondeu que apenas um dos valores foi para a Gavi, como havia sido determinado no contrato de aquisição das vacinas, mas o valor teria sido devolvido, segundo o governo.
Até agora, além dos 12 mil vacinados, o Paraguai conseguiu 20 mil doses que foram doadas pelo Chile, país que tem a vacinação mais avançada da região. A prioridade é imunizar os trabalhadores do setor da saúde. Ontem, Benítez afirmou que amanhã chegará uma nova remessa de 36 mil doses distribuídas pelo Covax.
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