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Cresce número de mortos por protestos no Irã; líder supremo culpa 'vândalos'

Estadão Conteúdo

O número de mortos pela repressão à onda de protestos no Irã subiu para 538, informou a Iran Human Rights, uma organização não governamental com sede na Noruega que monitora a situação no país. Outras 10.600 pessoas foram detidas durante as duas semanas de protestos, segundo a entidade.

O mais recente balanço de mortes nos protestos contra o regime teocrático do aiatolá Ali Khamenei ocorre em meio à denúncias de violência policial feitas por manifestantes. O chefe da polícia do Irã, Ahmad-Reza Radan, afirmou neste domingo que "o nível de confronto contra os manifestantes se intensificou". Enquanto isso, mais protestos foram convocados.

O governo do Irã descreveu a luta contra o que chamou de "tumultos" como uma "batalha de resistência nacional iraniana contra os Estados Unidos e o regime sionista".

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, prometeu abordar as queixas econômicas, mas não mostrou sinais de recuar de uma severa repressão. Ao contrário: ele conclamou a população a participar de uma "marcha de resistência nacional" com manifestações em todo o país na segunda-feira, 12, para denunciar a violência, que o governo atribuiu a "criminosos e terroristas urbanos", informou a televisão estatal.

"Nosso dever é resolver e atender às queixas do povo. Mas também temos o dever de não deixar que manifestantes desestabilizem o país", disse o presidente, Masoud Pezeshkian, em uma entrevista à televisão estatal iraniana no sábado.

Ele falou enquanto os manifestantes no Irã enfrentam uma repressão intensificada e letal por parte das autoridades.

À medida que os protestos escalam, a teocracia do Irã parece cada vez mais vulnerável, e altos funcionários procuraram culpar os Estados Unidos e Israel, dizendo que ambos apoiam os manifestantes.

As instalações militares e nucleares do Irã foram danificadas por uma guerra de 12 dias com Israel em junho passado, e o país vem afundando em uma grave crise econômica após a reativação de sanções econômicas da ONU no ano passado.

Aumentando a pressão, o Presidente Trump disse que poderia atacar o Irã se as autoridades matassem manifestantes pacíficos, e vários funcionários dos EUA disseram ao The New York Times no sábado que ele foi informado sobre novas opções de ataques militares.

O novo balanço de mortes nos protestos contra o governo do aiatolá Ali Khamenei, que tomaram as ruas do país há quase duas semanas, ocorre em meio a denúncias de violência policial feitas por manifestantes. Iranianos ouvidos por jornais dos EUA e do Reino Unido afirmaram que policiais atiraram contra manifestantes ao longo das mais de 100 cidades que registraram protestos pelo país.

"Desde o início dos protestos, a Iran Human Rights confirmou a morte de pelo menos 490 manifestantes e 48 agentes de segurança", afirmou a ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega. O número real de mortos pode ser muito maior, já que um bloqueio de internet que dura dias dificulta a verificação dos dados.

O governo iraniano não divulgou números oficiais de vítimas das manifestações. Há o temor de que o bloqueio cibernético esteja encorajando o regime do país a reprimir os manifestantes de forma sangrenta.

Maiores protestos em 15 anos; líder fala em 'vândalos' e acusa EUA

As manifestações, iniciadas há duas semanas por insatisfação com a situação econômica do país, são as maiores em uma década. Para além da pauta econômica, os protestos passaram a ecoar contra o regime político do Irã.

O país está sem acesso à internet há 48 horas, após um apagão nacional imposto pelas autoridades do regime teocrático, segundo a ONG de cibersegurança Netblocks. Apesar do bloqueio à rede, os protestos seguem em crescente.

O líder supremo do Irã criticou os "vândalos" que, segundo ele, estão por trás dos protestos, e acusou os Estados Unidos de incitá-los.

"Estamos em plena guerra", declarou Ali Larijani, um dos conselheiros do aiatolá e chefe da principal agência de segurança do país, denunciando "incidentes orquestrados no exterior".

No sábado, a televisão estatal exibiu imagens dos funerais de integrantes das forças de segurança mortos durante os protestos. Na cidade de Shiraz, no sul do país, o comparecimento nos ritos fúnebres foi expressivo.

Ameaça aos EUA; Israel em 'alerta máximo'

O Irã afirmou que atacará alvos militares e navios dos EUA no caso de um ataque dos Estados Unidos em apoio aos manifestantes durante a onda de protestos em curso no país, afirmou o presidente do parlamento neste domingo.

Em meio aos protestos, a Guarda Revolucionária do Irã, organização militar que tem como foco a defesa do regime Khamenei, afirmou que proteger a "segurança nacional é um ponto inegociável".

As Forças Armadas dos EUA afirmaram que, no Oriente Médio, estão "posicionadas com forças que abrangem toda a gama de capacidade de combate para defender nossas forças, nossos parceiros e aliados e os interesses dos EUA".

Tais ameaças ganharam força após a captura do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, pelas forças dos EUA, no início deste mês. "Se os Estados Unidos tomarem ação militar, tanto os territórios ocupados quanto as rotas militares e marítimas dos EUA serão nossos alvos legítimos", disse Mohammed Ghalibaf, presidente do parlamento do Irã, em um comunicado no domingo, de acordo com a agência de notícias semi-oficial do Irã, Tasnim. Bases militares dos EUA e de Israel também poderiam ser alvos, ele acrescentou.

O exército de Israel disse estar "preparado defensivamente" para qualquer ataque, enquanto o primeiro-ministro do país, Binyamin Netanyahu, elogiou os manifestantes.

"Israel apoia a luta deles pela liberdade e condena firmemente os assassinatos em massa de civis inocentes", disse ele. "Todos nós esperamos que a nação persa em breve seja libertada do jugo da tirania, e, quando esse dia chegar, Israel e Irã serão novamente parceiros fiéis".

As autoridades iranianas vêm tentando um delicado equilíbrio em sua resposta aos protestos, ao reconhecer as queixas econômicas e tomar medidas para abordá-las, enquanto também acusam tanto os Estados Unidos quanto Israel de apoiar os "arruaceiros" que eles retratam como "sequestradores das manifestações".

Os protestos dos últimos dias não apenas cresceram significativamente em tamanho, mas parecem ter se tornado cada vez mais violentos de ambos os lados. Edifícios do governo foram incendiados, enquanto o chefe da polícia do Irã, o brigadeiro-general Ahmadreza Radan, culpou as mortes e ferimentos em "soldados não pagos dos inimigos do Irã".

"Uma parte significativa dos mortos morreu por armas brancas e ferimentos de faca. Nos casos envolvendo tiros, a distância dos disparos era muito próxima, indicando que essas ações não foram realizadas pelas forças de segurança, mas por elementos treinados e dirigidos", disse o General Radan.

Alguns ativistas relataram forças de segurança iranianas invadindo hospitais para procurar os feridos. Skylar Thompson, diretora adjunta da HRANA, disse que as dificuldades de comunicação com pessoas dentro do Irã tornaram difícil assegurar o que estava acontecendo dentro das instalações médicas. Mas ela disse que a organização havia confirmado casos de manifestantes feridos sendo removidos dos hospitais.

"Temos documentos hospitalares que mostram indivíduos afetados por gás lacrimogêneo, temos casos semelhantes de pessoas atingidas por balas - balas de borracha e munição real - e sendo transferidas para instalações de detenção sem o devido cuidado", disse ela.

Ao contrário de alguns oficiais de segurança iranianos e até do líder supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, Pezeshkian anteriormente tentou adotar um tom de responsabilidade governamental pelas dificuldades econômicas que muitos iranianos estão sentindo, oferecendo pequenas reformas, embora economistas digam que não são suficientes para solucionar a severidade da crise.

Papa reza pelas vítimas

No Vaticano, o Papa Leão XIV rezou pelas vítimas da repressão e afirmou que, caso não haja distensão, "muitas vidas serão ceifadas".

"Meus pensamentos se voltam para o que está acontecendo atualmente no Oriente Médio, particularmente no Irã e na Síria, onde tensões persistentes estão causando a morte de muitas pessoas", disse o pontífice. "Espero e rezo pelo cultivo paciente do diálogo e da paz, para o bem comum de toda a sociedade."