Amazônia FiDoc celebra cinema amazônico e aposta na formação de novos realizadores
Premiações de desenvolvimento, intercâmbios internacionais e conexões com o mercado audiovisual marcaram a 11ª edição do festival, que reuniu mais de 40 reconhecimentos entre mostras competitivas e iniciativas formativas
"Tudo começa pela natureza. A gente, o peixe, o clarão do céu." O trecho de fala de personagem do longa "Glória e Liberdade" (Brasil, 2025), dirigido por Letícia Simões, resume bem o espírito do filme vencedor do júri oficial da Mostra Pan-Amazônica da 11ª edição do Amazônia FiDOC. Com narrativa política e poética, o filme acompanha Azul, uma cineasta que atravessa países surgidos após a fragmentação do Brasil, uma geografia reinventada pela vitória de revoltas como a Cabanagem e a Balaiada, em que a Amazônia deixa de ser periferia e se torna centro de um continente chamado Pau-Brasil.
O que poderia soar como ficção especulativa ganha densidade por dialogar com questões contemporâneas - autonomia, colonialismo, identidade - sobretudo num cenário pós-COP30. O anúncio ocorreu na noite de quarta-feira (6), no Cine Líbero Luxardo, em Belém, onde a diretora disse em vídeo: "A história da Amazônia está sendo reimaginada e povoando a memória do povo da Amazônia."
A 11ª edição do festival conta com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet de Incentivo a Projetos Culturais, Ministério da Cultura e Governo do Brasil, com apoio cultural do Governo do Estado do Pará, Sesc/Pará, Fórum dos Festivais e Mistika. Parceria: Aliança Francesa Belém, Instituto +Mulheres, FICCI e Apex Brasil. A realização e produção são da Z Filmes e do Instituto Culta da Amazônia.
Cinema das Amazônias
Durante nove dias, a Amazônia deixou de ser cenário para se tornar voz durante o Festival. Filmes da Amazônia Brasileira e da Pan-Amazônia chegaram às telas carregando horror, musicalidade, ancestralidade, denúncia e modos de existir que o cinema hegemônico raramente para para escutar. O festival foi, como sempre, esse espaço de escuta e projeção. A presença internacional reforçou esse caráter pan-amazônico: Venezuela e Peru também levaram prêmios para casa, lembrando que a floresta não respeita fronteiras e que o cinema que ela inspira também não.
Durante a cerimônia de encerramento, que teve a distribuição de 41 prêmios a 35 realizadores, a idealizadora Zienhe Castro reuniu toda a equipe para agradecer os 17 anos de construção do projeto. "Muitas pessoas estão comigo carregando essa missão cidadã de entender a necessidade dessa janela de exibição para obras das Amazônias", disse.
Foi a primeira vez, por exemplo, que uma comitiva de três pessoas de Rondônia esteve presente em Belém para celebrar e trocar experiências sobre o fazer cinematográfico na região, os desafios e as possibilidades de continuar filmando em meio às incertezas de financiamento.
Antes mesmo dos prêmios das mostras competitivas, o festival anunciou as premiações de formação e desenvolvimento, voltadas ao fortalecimento do cinema amazônico em diferentes etapas de criação, circulação e internacionalização. Um dos destaques foi o Prêmio Vivência Conexão Criativa Globo, que selecionou realizadores amazônicos para uma experiência de troca com profissionais do audiovisual nacional. Foram contemplados Jacirene do Espírito Santo Alves ("Filhos do Boto"), Lu Peixe e Rafael Nzinga ("Graças a Elas"), Lucas Lourenço Escócio de Faria ("Ressonâncias"), Lucas da Silva Negrão ("Na Matinê") e Rodrigo Aquiles Santos ("Todo Rio Deságua no Mar").
Os reconhecimentos incluíram ainda residências artísticas, mentorias, consultorias de roteiro e impacto, apoio em pós-produção e conexões com festivais internacionais. (Rodolfo Mendonça)
Ressonâncias", de Lucas Escócio, garantiu participação no laboratório do FIFAC 2026. "Filhos do Boto", de Jacirene Alves, foi contemplado pela Taturana, voltado ao desenvolvimento de campanhas de impacto social. O festival também distribuiu prêmios em parceria com a Aliança Francesa de Belém, o Festival de Cine de Cartagena das Índias e iniciativas de circulação europeia e latino-americana. A formação nas escolas também teve espaço: "A Fundação de Joanes" venceu a Mostra Primeiro Olhar, e "Escola Bosque – 30 anos" recebeu menção honrosa.
Em um setor marcado pela descontinuidade de políticas públicas e pela concentração histórica do audiovisual no eixo Rio-São Paulo, cada bolsa, laboratório ou convite internacional era celebrado como possibilidade concreta de permanência e sobrevivência do cinema produzido na Amazônia.
Na Mostra Pan-Amazônica de longas, "Dona Onete: Meu Coração Nesse Pedacinho Aqui", de Mini Kerti, venceu o júri popular. A menção honrosa foi para "Kueka, Memória Ancestral" (Venezuela), de María de los Ángeles Peña Fonseca, reconhecido como um alerta contra a exotificação das ancestralidades indígenas. Entre os curtas, "Boiuna", de Adriana de Faria, venceu tanto o júri oficial quanto o popular pela força estética e pela conexão entre as encantarias amazônicas e questões sociais contemporâneas. "Sara" (Peru), da peruana Ariana Andrade Castro, recebeu menção honrosa por retratar, com sensibilidade, um tema invisibilizado mas universal.
Na Mostra Amazônia Legal, "A Mulher Sem Chão", de Auritha Tabajara e Débora McDowell, levou o prêmio do júri oficial de longas pelo modo como constrói relações entre corpo, território e identidade. O júri popular premiou "Xingu, Nosso Rio Sagrado", de Angela Gomes, e a menção honrosa foi para "Concerto de Quintal", de Juraci Júnior. Nos curtas, "Sukande Kasáká | Terra Doente", de Kamikia Kisedje e Fred Rahal, venceu o júri oficial pela potência visual e pelo protagonismo indígena. O júri popular premiou "Mucura", de Fabiano Tertuliano Barros, e "A Ascensão da Cigarra", de Ana Clara Ribeiro, recebeu menção honrosa.
A Mostra As Amazonas do Cinema premiou "A Vida Secreta de Meus Três Homens", de Letícia Simões, como melhor longa, e "Quem Quer?", de Célia Maracajá, como melhor curta. Em videoarte, "Didibuísmos", de Marise Maués, venceu júri oficial e popular. No videoclipe, "Corra! - Kalika", de Kayke Ryan, levou o prêmio oficial; "Monalisa - Frimes", de Lucas Sá, venceu no popular; e "Madalena - Malena", de Ramon Ítalo e Malena, recebeu menção honrosa.
Sobre a Petrobras
A Petrobras é uma das principais empresas do país. Atua de forma integrada e especializada na indústria de óleo, gás natural e energia. A Cultura é também uma energia na qual a companhia investe, patrocinando há mais de 40 anos projetos que contribuem para a cultura brasileira e se fazem presentes em todos os Estados brasileiros.
Sobre a ZFilmes
Fundada em 1988, em Belém, desde 2004 dedica-se ao desenvolvimento de projetos audiovisuais. A principal atuação está na produção independente e autoral de curtas, médias e longas-metragens com temáticas voltadas à discussão e debate das problemáticas e as potencialidades da região Amazônica, foco principal da produtora. Realiza documentários, ficções, publicidades e oficinas de audiovisual. É a produtora oficial do Festival Pan-Amazônico de Cinema – Amazônia Fidoc, que propõe o intercâmbio e o diálogo das diversas “Amazônias” por meio da produção cinematográfica dos nove países que integram o território Pan-amazônico. Já produziu e co-produziu diversos formatos de curtas, médias e longas-metragens nacionais e internacionais. Dentre suas produções originais, estão o curta documental “Ervas e saberes da floresta” (2010/2012), premiado em Edital da Petrobras; o curta de ficção “Promessa em azul e branco” (2012/2013), premiado em Edital do MinC; o curta de ficção “O homem do Central Hotel” (2020), premiado em edital Carmen Santos/Minc e Prêmio de Melhor curta ficção no Festival Festin 3 en 1 em Lisboa - Portugal; o longa documentário e animação “Simplesmente Eneida”, que chega aos cinemas em 2026; e “Amazônia Ancestral”, série documental de oito episódios, que será lançada em 2026 pelo Canal CURTA!
CONFIRA OS PREMIADOS DA 11ª EDIÇÃO DO AMAZÔNIA FiDOC
Mostra Pan-Amazônica • Longas
Melhor Longa • Júri Oficial
Glória e Liberdade (Brasil • CE), Letícia Simões
Melhor Longa • Júri Popular
Dona Onete: Meu Coração Nesse Pedacinho Aqui (Brasil • RJ), Mini Kerti
Menção Honrosa
Kueka, Memoria Ancestral (Venezuela), María de los Ángeles Peña Fonseca
Mostra Pan-Amazônica • Curtas
Melhor Curta • Júri Oficial
Boiuna (Brasil • PA), Adriana de Faria
Melhor Curta • Júri Popular
Boiuna (Brasil • PA), Adriana de Faria
Menção Honrosa
Sara (Peru), Ariana Andrade Castro
Mostra Amazônia Legal • Longas
Melhor Longa • Júri Oficial
A Mulher Sem Chão (PA), Auritha Tabajara e Débora McDowell
Melhor Longa • Júri Popular
Xingu, Nosso Rio Sagrado (PA), Angela Gomes
Menção Honrosa
Concerto de Quintal (RO), Juraci Júnior
Mostra Amazônia Legal • Curtas
Melhor Curta • Júri Oficial
Sukande Kasáká | Terra Doente (MT), Kamikia Kisedje e Fred Rahal
Melhor Curta • Júri Popular
Mucura (RO), Fabiano Tertuliano Barros
Menção Honrosa
A Ascensão da Cigarra (RO), Ana Clara Ribeiro
Mostra As Amazonas do Cinema
Melhor Longa • Júri Popular
A Vida Secreta de Meus Três Homens (Brasil • CE), Letícia Simões
Melhor Curta • Júri Popular
Quem Quer? (PA), Célia Maracajá
Mostra Competitiva Videoarte
Melhor Videoarte • Júri Oficial
Didibuísmos (PA), Marise Maués
Melhor Videoarte • Júri Popular
Didibuísmos (PA), Marise Maués
Mostra Competitiva Videoclipe
Melhor Videoclipe • Júri Oficial
Corra! - Kalika (PA), Kayke Ryan
Melhor Videoclipe • Júri Popular
Monalisa - Frimes (MA), Lucas Sá
Menção Honrosa
Madalena - Malena (AM), Ramon Ítalo e Malena
4º Festival Curta Escolas • Mostra Primeiro Olhar
Melhor Curta • Júri Oficial
A Fundação de Joanes, Escola Municipal de Joanes
Menção Honrosa
Escola Bosque - 30 anos, Escola Bosque
Prêmios de Formação e Desenvolvimento
Prêmio Talentos Artísticos Estúdios Globo • Não Ficção Doc
- Lucas da Silva Negrão, Na Matinê
- Lu Peixe e Rafael Nzinga, Graças a Elas
- Lucas Lourenço Escócio de Faria, Ressonâncias
- Jacirene do Espírito Santo Alves, Filhos do Boto
- Rodrigo Aquiles Santos, Todo Rio Deságua no Mar
Prêmio FIFAC / Doc Amazonie Caraïbe
Participação no laboratório da edição do FIFAC 2026
Lucas Lourenço Escócio de Faria, Ressonâncias
Prêmio Aurora Docs Film (Puerto Rico)
Consultoria de roteiro e produção
Carla Larrea Sánchez, Tioniza
Prêmio Taturana Cinema e Impacto
Consultoria para desenvolvimento de campanha de impacto
Jacirene do Espírito Santo Alves, Filhos do Boto
Menção Especial
Luciana Diniz e Rodrigo Hinrichsen, Santa ou Onça
Prêmio Residência Espírito Mundo • Bruxelas
- George Ferreira dos Santos, Cosmopoéticas Afro-Amazônicas
- Ítalo Rodolpho Rodrigues Miranda, Quem Vigia os Vigias de Rua?
- Carla Larrea Sánchez, Tioniza
- Jacirene do Espírito Santo Alves, Filhos do Boto
- Rodrigo Aquiles Santos, Todo Rio Deságua no Mar
Prêmio Indústria FICCI
(Festival Internacional de Cine de Cartagena) Passe premium para o FICCI 2027
Lucas Sá, Até Tua Mãe Me Recomenda
Prêmio Aliança Francesa de Belém
Curso de francês e uso de sala de cinema para curadoria em parceria com o festival
- Luciana Diniz e Rodrigo Hinrichsen, Santa ou Onça
- Felipe Marcos Gonçalves Cortez, Cidade dos Urubus
Prêmio Bruno Ottati
Consultoria em produção, pós-produção e inteligência artificial
Ítalo Rodolpho Rodrigues Miranda, Quem Vigia os Vigias de Rua?
Prêmio Betweenfilms
Consultoria sobre circulação em festivais e mercados europeus
Felipe Marcos Gonçalves Cortez, Cidade dos Urubus
Menção Especial
Natali Estefanía Peñarreta Muñoz, Interespecial