De Macapá ao Baenão: conheça a história do Leão de pedra do Remo
Escultura foi feita no Amapá, viajou no porão de um navio e é um dos maiores símbolos da torcida do Remo
Imponente e silencioso, o Leão de pedra instalado à beira do gramado do Estádio Evandro Almeida, o Baenão, faz parte do cenário do Remo há décadas. Para o torcedor azulino, a escultura é muito mais do que uma representação do mascote: tornou-se um dos principais símbolos do clube. O que muitos não sabem, porém, é que a história do Leão começa longe de Belém e envolve uma viagem de navio, um torcedor do Paysandu e uma homenagem de um remista apaixonado.
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Quem resgata essa trajetória é o historiador do Clube do Remo, Orlando Ruffeil, que contou à equipe de esportes de O Liberal como a escultura foi parar no estádio azulino e ganhou o status de patrimônio afetivo da torcida.
A história começa no final da década de 1950 e início dos anos 1960. Após a reorganização do Remo, em 1911, um dos organizadores, Cândido Jucá, tinha um sobrinho chamado Hermano Jucá, que morava em Macapá, no Amapá. Apaixonado pelo clube, Hermano tinha o desejo de presentear o Remo com um Leão.
Para transformar a ideia em realidade, chamou um pedreiro para construir a forma da escultura e contratou um português, Antônio Pereira da Costa, para realizar o trabalho de esculpir o animal.
“O final da década de 50, e início da década de 60, ele tinha uma vontade imensa de fazer a doação de um Leão ao Remo, seu time de coração. Ele chamou um pedreiro para fazer a ‘forma’, além de contratar um português chamado Antônio Pereira da Costa, responsável por esculpir o Leão, isso lá em Macapá”, contou Ruffeil.
Com o trabalho concluído no final da década de 1960, surgiu um novo desafio: transportar uma escultura de pedra de Macapá para Belém.
Uma viagem no porão de um navio
Naquele período, o navio Oiapoque fazia a rota entre Belém e Macapá. O dirigente remista Roberto Macedo, benemérito do clube, ajudou a estabelecer a ligação para que o Leão pudesse ser transportado. O comandante da embarcação era parente de Hermano Jucá, mas torcia pelo Paysandu. Mesmo assim, aceitou levar a escultura para Belém, desde que uma condição fosse cumprida.
“Depois de uma conversa, o comandante aceitou trazer o Leão de Pedra de Macapá para Belém, porém, fez uma exigência: ele queria preservar a integridade física dos passageiros e exigiu que o Leão fosse ‘algemado’ e ‘encarcerado’ e fixado no porão do navio. Hermano Jucá ‘engoliu seco’ e aceitou”, relatou o historiador.
O comandante determinou que a diretoria do Remo fosse até a chamada Bacia, área onde as embarcações paravam nas proximidades de Icoaraci, para buscar a escultura.
“Na hora da partida para Belém, o comandante fez uma outra exigência: queria que a diretoria do Remo fosse até à ‘Bacia’, era um porto em que as embarcações paravam por lá, ficava ali próximo de Icoaraci. Foi feito isso e a diretoria foi pegar o Leão, no final da década de 60 e início de 70”, explicou Ruffeil.
Depois de ser confeccionado em Macapá e atravessar o rio escondido no porão de um navio comandado por um torcedor rival, o Leão finalmente chegou ao seu destino.
Da arquibancada para o gramado
O primeiro endereço da escultura dentro do Baenão, no entanto, não foi à beira do campo. O Leão foi colocado na arquibancada voltada para a Avenida Rômulo Maiorana, embaixo da placa do Café Glória, onde posteriormente ficou conhecida a área da placa “O Mais Querido”.
A mudança aconteceu em 1972, justamente quando o Remo começou a disputar o Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão e ganhou maior projeção nacional. O dirigente José Brito Gomes de Souza, engenheiro civil, coordenou a transferência da peça para o local onde permanece até hoje.
“Esse Leão inicialmente foi colocado na arquibancada que fica para a Avenida Rômulo Maiorana e foi colocado embaixo da placa do ‘Café Glória’. Passaram os anos e, em 1972, o Remo passou a disputar o Brasileiro da Primeira Divisão. O doutor José Brito Gomes de Souza, que era dirigente do Remo e engenheiro civil, ele com sua equipe colocou o Leão neste local, tirando da arquibancada”, afirmou.
Para Ruffeil, a mudança foi determinante para transformar a relação entre a escultura e a torcida.
“Desde então o Leão passou a ser conhecido nacionalmente. Enquanto esteve na arquibancada, era um Leão da torcida. Quando veio para o gramado, passou a ser o símbolo maior. Existem muitos Leões, mas azul, só tem um", disse.
A origem do “Leão Azul”
A ligação do Remo com o leão, entretanto, é anterior à chegada da escultura. A alcunha “Leão Azul” ganhou força na década de 1940, após uma partida contra o São Cristóvão, do Rio de Janeiro.
O time carioca vivia grande fase e havia vencido seus adversários em Belém, mas não conseguiu superar o Remo. O jornalista e desportista Edgar Proença, que posteriormente emprestaria seu nome ao Mangueirão, registrou no jornal uma expressão que ficaria marcada na história azulina.
“Ele deu o nome de Leão Azul, pois na década de 40, o São Cristóvão era um timaço no Rio de Janeiro (RJ), veio jogar em Belém, ganhou de todo mundo, mas do Remo não conseguiu vencer. Ele usou uma expressão no jornal da época: ‘O Leão Azul com suas garras aduncas foi o orgulho da cidade’”, lembrou o historiador.
A escultura acabou dando forma ao apelido e consolidando a imagem do animal como representação do clube paraense.
Um ponto de encontro da torcida
A partir dos anos 1970, o Leão de pedra também passou a fazer parte da memória afetiva de quem frequentava o Baenão. Ruffeil recorda que, depois dos jogos, a escultura chamava a atenção de torcedores, fotógrafos, jornais e emissoras de televisão.
“Depois de 1972, depois que o Remo começou a jogar a Série A do Brasileiro. Eu vinha para tirar uma foto ao lado do Leão. Via a satisfação no semblante do torcedor azulino, quando acabava o jogo do Remo e a torcida invadia o gramado. Eram jornais, televisão, todos filmando e fotografando o Leão”, recordou.
Atravessou gerações
O historiador lembra de um garoto que queria tirar uma foto com o Leão e precisou convencer o avô, que não era remista, a acompanhá-lo.
“Eu me recordo de um garoto que pediu para o avô tirar uma foto com o Leão, mas o avô não era remista. O avô não podia se furtar às vontades do neto, e veio para cá e tirou foto com o Leão”, disse.
As fotografias também passaram a fazer parte de momentos especiais. “Casamentos, os noivos ligavam para a diretoria e faziam fotos aqui no Leão. Hoje as pessoas fazem questão, pedem para a diretoria, chegam no clube e fazem fotos”, contou.
Albertinho
Ao longo das décadas, o Leão de pedra também esteve envolvido em episódios que ultrapassaram as quatro linhas. Um deles ocorreu em uma partida entre Paysandu e Tuna, quando o jogador Albertinho, após marcar um gol, colocou a camisa do Paysandu sobre a escultura. Para Ruffeil, o episódio foi um ato de covardia, principalmente porque o Remo não estava em campo e a torcida azulina não acompanhava aquela partida.
“Infelizmente quero dizer que foi um ato covarde. O Remo não estava em campo, foi um jogo entre Paysandu e Tuna Luso Brasileira, o torcedor do Remo não estava presente. Então foi um ato puramente covarde, no qual ele se arrependeu profundamente e depois pediu perdão”, afirmou.
ASSISTA
O historiador fez uma comparação com um episódio protagonizado por Alcino, um dos maiores ídolos da história do Remo, em um clássico Re-Pa.
“Naquele jogo ele marcou um gol e colocou a camisa [do Paysandu] aqui [no Leão]. Diferente do Alcino [jogador do Remo], que em um Re-Pa, ele sentou na bola. Foi em um clássico e o Alcino enfrentou com galhardia a incha bicolor, diferente do Albertinho, que protagonizou um ato covarde, pois ele não teve peito, não teve ‘aquilo roxo’, para enfrentar a torcida azulina. Tanto é que depois se arrependeu, pediu perdão e a vida dele se transformou em um inferno”, finalizou.
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