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Torcedoras de Remo e Paysandu reforçam presença feminina nos estádios

Torcedoras da dupla Re-Pa destacam união, representatividade e a luta por mais segurança e espaço nas arquibancadas

Aila Beatriz Inete

No meio da arquibancada, entre bandeiras, cantos e batuques, elas ousaram ocupar um espaço antes preenchido majoritariamente por homens. Levantam os braços e puxam os gritos de incentivo que ecoam pelo estádio. Hoje, cada vez mais mulheres transformam a arquibancada em território de paixão, resistência e protagonismo. E neste domingo, no Dia Internacional da Mulher, na final do Parazão entre Remo e Paysandu, elas marcam presença para empurrar o time do coração.

“É um momento de lazer, creio que não só para mim, mas também para outras mulheres. Eu queria muito que todas as meninas sentissem a mesma coisa que a gente sente. Porque é acolhedor, é representativo”, declarou a torcedora do Remo e engenheira civil Ludmilla Moreira, de 29 anos, membro da torcida organizada azulina Camisa 33.

Presença feminina

De acordo com levantamento realizado pela Kantar IBOPE Media, em 2022, focado em mídias digitais, as mulheres representam 44% da base de fãs de futebol no Brasil. O Paysandu, assim como o Remo, tem grande presença feminina nas arquibancadas. Mas esse espaço nem sempre foi seguro.

Por conta disso, em março de 2012, Nazaré Sampaio, junto de outras torcedoras, criou a Charme Bicolor, torcida organizada exclusivamente de mulheres do Papão.

“Estamos há 12 anos fazendo a festa, ocupando esse espaço que é nosso por direito. Saímos desse lugar de apenas telespectadoras para ocupar um lugar ativo e visível. Usamos a nossa voz e a nossa presença para formar uma rede de apoio. Hoje é muito diferente de quando começamos. Tinha meninas que vinham de outros municípios e não tinham uma rede de apoio. Quando nos vimos no estádio, percebemos que precisávamos dessa união e formamos a Charme Bicolor para nos sentirmos mais seguras”, contou.

Assim, 12 anos após a criação da torcida, as mulheres seguem ocupando as arquibancadas. Mesmo diante da violência que ainda insiste em existir nos estádios, elas se tornaram protagonistas - não apenas da festa nas arquibancadas, mas também das próprias histórias, da paixão pelo clube e dos seus sonhos.

“Surgiram outras torcidas do Paysandu. E isso nos deixa muito felizes, porque fortaleceu. Outras meninas se organizaram. A gente está aqui para mostrar a nossa força, a nossa união, a nossa voz, a nossa presença, a nossa identidade, porque a gente precisa disso. A gente ocupou o nosso espaço ativo”, ressaltou Nazaré, que também apontou o apoio do clube bicolor para a iniciativa.

“Eu fui diretora da mulher, diretora do futebol feminino. Então, a gente protagonizou muita coisa dentro do nosso clube e isso, se o clube não desse esse espaço para a gente, a gente também não conseguiria”, completou.

Desafios

Ludmilla também conhece bem essa realidade. Segundo ela, o pai - já falecido -, principal responsável por despertar nela a paixão pelo futebol e pelo Remo, tinha receio de que a filha fosse ao estádio por conta da violência. Ela mesma já sofreu com assédios nas arquibancadas e, por isso, dentro da organizada azulina foi criado um espaço de acolhimento voltado às mulheres.

“Hoje em dia, para mim, ver no nosso setor muitas mulheres reunidas mostra que a gente tem força e que temos voz para lutar pelos nossos direitos, não só na arquibancada e no gramado, mas também em outros momentos em que talvez a gente precise. Ainda mais em um contexto em que vemos muitas mulheres fragilizadas diante da violência. Então é um momento em que usamos também a torcida, a nossa voz, para sermos ouvidas”, afirmou.

Tanto na Charme Bicolor quanto na Camisa 33, novas torcedoras são bem-vindas. As duas torcidas mantêm canais abertos nas redes sociais para quem deseja participar. O objetivo é integrar cada vez mais pessoas ao ambiente da arquibancada.

“Torcer para mim é algo que vai além das quatro linhas. A gente que vive esse dia a dia de torcida organizada tem que estar cedo no estádio com faixa, com bandeira, com bateria, banda. Essa é uma correria muito boa”, disse Ludmilla.

Resistência

Ir ao estádio, demonstrar o seu amor pelo clube, gritar e cantar é um ato de resistência. Segundo a pesquisadora Isabella Matosinhos, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em dias de jogos de futebol as agressões físicas às mulheres aumentam quase 21%, enquanto as ameaças nessas ocasiões também crescem em quase 24%.

Dentro dos estádios, hoje há mais ações do poder público. No Mangueirão, tanto a Polícia Civil quanto o Ministério Público têm feito campanhas de conscientização, além de haver uma delegacia especializada. Ludmilla consegue ver essas mudanças e destacou a importância delas.

“Antes, o Mangueirão era um estádio que tinha poucos banheiros femininos. Hoje em dia tem até com espelho dentro. A própria diretoria feminina do clube também vem brigando pelos nossos direitos. Há anos a gente não tinha a mesma visibilidade. Talvez anos atrás a gente nem tivesse matérias como esta aqui. E eu fico muito satisfeita de ver que cada vez mais o percentual de mulheres nas arquibancadas tem aumentado, porque elas fazem toda a diferença”, apontou.

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, elas desejam mais do que a vitória do time do coração: querem ver as arquibancadas cada vez mais ocupadas por mulheres, com mais acolhimento, respeito e representatividade.

“A gente não está aqui para tirar espaço de ninguém. A gente só quer igualdade e respeito. No início foi bem difícil, chegava no estádio e não era bem assim, mas hoje cresceu muito a nossa torcida [feminina], hoje é quase metade. A gente não vai recuar, estamos aqui para mostrar a nossa voz, a nossa presença, porque esse é um lugar de direito nosso. Nós temos os mesmos sentimentos que qualquer torcedor tem e estamos aqui para mostrar isso”, concluiu Nazaré.