All Star Rodas: esporte, dedicação, superação e um local de inclusão na Região Norte
Clube All Star Rodas foi fundado em 1999 e tornou-se referência no esporte paralímpico brasileiro e inclusão social na Região Norte
Quando tudo parece estar perdido, uma fatalidade, um acidente, a falta de locomoção, as dificuldades para o básico da vida, tudo isso se transforma em ferramenta de inclusão e em histórias de gente batalhadora, que viu no esporte a chance de recomeçar. O All Star Rodas, comandado pelo técnico Wilson Cajú, mostra como o esporte é uma ferramenta poderosa na vida de pessoas que reescrevem suas histórias nas quadras de basquete e em cima de cadeiras de rodas, em Belém. Os atletas do All Star já ganharam o mundo, representam o Pará, o Brasil e, acima de tudo, representam um povo que luta por políticas públicas e reivindica seus direitos.
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As dificuldades de uma pessoa com deficiência são enormes. A falta de perspectiva de um futuro, a mente após um acidente, a perda do poder de locomoção, a dependência de outras pessoas para realizar tarefas básicas, além de todo o impacto psicológico. São dramas de milhares de pessoas pelo país e, em Belém, não é diferente. Porém, com um trabalho dedicado e cheio de dificuldades, surgiu o All Star Rodas, com o técnico Wilson Cajú, em 1999, para encontrar novos talentos do basquete em cadeiras de rodas. Tornou-se, porém, uma referência dentro e fora das quadras, com um trabalho de inclusão incrível.
“O clube foi criado para formar atletas. Fiz uma viagem em competição internacional, vim de lá com a ideia de criar um clube e formar atletas. Mas, quando cheguei em Belém, vi que a nossa realidade era outra. Precisávamos primeiro incluir a pessoa com deficiência dentro de uma sociedade discriminadora, em uma área esportiva que é limitada. Não tem espaço, faltam políticas públicas dentro do esporte. E começou a vir muita gente nos procurar. Uns com talento para ser atleta de basquete, outros com talento de outra modalidade, e eu nunca ‘joguei fora’. Sempre agreguei, pois acho que o principal objetivo do esporte é formar cidadão, principalmente a pessoa com deficiência, que ela tem tanta dificuldade de encontrar espaço. O All Star é um espaço onde se sente útil à sociedade, útil ao mundo inteiro, porque o esporte é comprovado, através de estudos, que é a maneira mais rápida de você recuperar a sua autoestima”, falou.
A principal dificuldade
Cajú procura por novos talentos em clínicas de fisioterapia, visitas a escolas na região metropolitana, centros comunitários em bairros muitas vezes afastados do centro, além de palestras para pessoas com deficiência. O técnico falou das dificuldades em manter as pessoas no esporte.
“Eu sempre tenho que acreditar que o ser humano está melhorando. Tenho aqui pessoas com paralisia cerebral, tem pessoas com deficiência intelectual que talvez nunca se tornem grandes atletas, mas o fato de estar incluso, de estar participando de uma atividade, faz com que ele se sinta bem na sociedade. O nosso maior problema não é contactar os atletas, é a distância, porque nós temos um problema muito sério de acessibilidade na nossa cidade, do transporte, mas com certeza já passou muita gente aqui”, disse.
Um trabalho consistente
Cajú se emociona ao falar do All Star e de como o projeto mudou a vida de pessoas ao longo desses 27 anos de clube.
“Eu digo sempre que tenho duas coisas que me fazem viver: a minha família e o All Star. Porque, quando eu criei o All Star, eu tinha um ano de deficiência. Fiquei numa cadeira de rodas. E, nesse ano em que eu fiquei na cadeira de rodas, tu vais começando a ver várias coisas na tua vida. Some todo mundo, somem os amigos, somem as noites, some tudo, porque tu ficas isolado. Aí eu senti na pele que eu precisava fazer alguma coisa para elevar as pessoas e começar esse trabalho. Se você perguntar se é cansativo? É demais. Toma muito meu tempo, toma tempo da minha família, que me ajuda, mas é gratificante. Você vê um atleta na seleção, você vê uma pessoa que chegou aqui que não sabia nem tocar cadeira. Você vê um atleta que só andava com os pais e hoje vai ao shopping só. Então, o All Star é tudo na minha vida”, falou.
Mudança de planos
A história do All Star Rodas e a da jovem Beatriz Gonçalvez, de 24 anos, se encontraram após um acidente entre a moto de sua propriedade e um caminhão, que Bia sofreu no ano de 2024, quando teve a amputação de uma das pernas. Após uma série de cirurgias, a jovem soube do projeto que mudou sua vida.
“Após o acidente eu pensei: como será a minha vida agora? Como vai ser o meu futuro? Estava tudo planejado, tinha acabado de comprar a minha moto, tinha mudado de curso na faculdade. Foi uma reviravolta na minha vida. E, através de uma consulta, conheci o basquete por meio de um recepcionista. Eu só malhava, ele passou o número do professor Cajú e comecei. Será que isso é pra mim? Gostei disso, fui para a Supercopa e lá mudou minha visão, sabe? Eu achava que não tinha jeito para mim. Que a minha vida com deficiência seria limitada, e mudou totalmente a minha cabeça. Hoje treino pensando em Seleção Brasileira, me vejo também uma futura médica veterinária. O esporte mudou completamente minha forma de pensar. O Cajú, na minha vida, foi um homem enviado por Deus, que transforma vidas. Eu queria dizer que as pessoas que chegaram a esse ponto, a vida não acabou, a vida só começou”, falou Bia.
Uma picada de cobra e tudo parecia ser o fim
O All Star também mudou a vida de Vileide Brito, a Vivi, que faz parte da história do clube. Vivi chegou ao All Star aos 15 anos, após perder os movimentos das pernas depois de uma picada de cobra.
“Fiquei deficiente aos 11 anos de idade, ocasionada por uma picada de cobra. Nunca me imaginei praticar esporte, até porque em casa mesmo ninguém praticava, até mesmo o futebol, que todos são apaixonados, e em casa não tinha, nem pelos meus irmãos e também pelo meu pai. Então nunca me imaginei realmente jogar um esporte adaptado”, falou.
Passa um filme
Vivi fala com orgulho da sua trajetória no All Star Rodas e hoje pratica uma função que recebeu bastante quando chegou ao clube: o acolhimento.
“É algo maravilhoso pra mim, porque olho lá atrás e lembro quando eu iniciei. O quanto foi difícil, o quanto foi importante também esse acolhimento, esse ensinamento, essa paciência, que é muito difícil no início. A gente nem se imagina que um dia possa ser um atleta de alto rendimento e aí conhece através de uma deficiência, né? É muita informação ao mesmo tempo e poder ter essa oportunidade de estar hoje com as meninas que estão chegando e passar isso para elas, para mim é algo muito maravilhoso, que preenche meu coração e que me deixa muito feliz”, disse.
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