Pesquisa de campo: carreiras de Humanas vão além de salas de aula e escritórios
Especialistas em áreas como História e Comunicação realizam imersões em comunidades e arquivos para coletar dados e analisar dinâmicas sociais
Muito além do estereótipo que limita as Ciências Humanas aos escritórios e salas de aula, a pesquisa de campo é parte fundamental da rotina de profissionais como historiadores, antropólogos e cientistas da comunicação. A prática envolve deslocamentos, viagens e permanência em comunidades ou sítios históricos para coletar relatos e analisar fenômenos sociais diretamente onde ocorrem. O objetivo dessa atuação é obter dados empíricos e sensoriais que embasam desde pesquisas acadêmicas até a formulação de políticas públicas e projetos de desenvolvimento institucional.
Historicamente, áreas como a Sociologia e a História basearam-se na chamada "pesquisa de gabinete", em que o cientista trabalhava apenas com resultados coletados por terceiros. Atualmente, a ida do pesquisador ao local de estudo é considerada fundamental para a precisão do trabalho. "Só em campo é que ele vai conseguir identificar e observar realmente o objeto do estudo que deseja", explica o historiador Márcio Alves Figueiredo, diretor do Museu do Círio, em Belém. Com mais de 10 anos de experiência na área museal, ele destaca que o contato com hemerotecas e arquivos facilita o entendimento de trajetórias muitas vezes apagadas pela história oficial.
Pesquisa em campo exige imersão e diálogo com comunidades
Para o doutor em Comunicação William Costa, a principal contribuição do trabalho de campo é a imersão sensorial. Segundo ele, o ambiente presencial revela nuances culturais como tons de voz, cheiros e percepções humanizadas que o digital não contempla. "O campo revela contradições vivas, como sincretismos religiosos na Amazônia que só emergem em conversas espontâneas", afirma o pesquisador, que investiga os impactos da pandemia de Covid-19 entre os evangélicos de Murinin, em Benevides.
A rotina desses profissionais exige competências que vão além do conhecimento acadêmico, incluindo paciência e um olhar humanizado. William ressalta que o planejamento de ida e volta é apenas o início, pois o cotidiano é construído no local com o apoio de interlocutores da própria comunidade.
"É ser presente e humano, treinando o olhar para perceber que o espaço é do outro e quem detém o conhecimento é ele", pontua.
Vínculo acadêmico e empresas privadas financiam estudos
Embora a pesquisa científica no Brasil sofra com a falta de valorização, o mercado de trabalho oferece caminhos por meio de universidades, projetos de extensão e, cada vez mais, na iniciativa privada. Márcio Figueiredo observa que grandes empresas têm investido em pesquisas de cunho social pela relevância que trazem à marca. Entretanto, ele reforça que manter o vínculo com a academia é essencial para o aval do trabalho científico.
"É a academia que vai nos fornecer as ferramentas para que possamos exercer o trabalho científico", defende o historiador.
A aplicação prática desses estudos pode ser vista em espaços como o próprio Museu do Círio, que completa 40 anos em 2026. O espaço produz conhecimento sobre uma das maiores manifestações religiosas do mundo, analisando sua interação social, política e econômica com a sociedade. Para os profissionais, essa vivência prepara para carreiras híbridas, integrando a pesquisa à consultoria e ao ativismo em contextos regionais.
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