Mercado de trabalho concentra 87% das novas vagas na faixa de até 2 salários mínimos
Expansão nacional da base salarial acompanha a urgência de renda mas escancara desafios estruturais
Entre 2023 e 2025, o mercado de trabalho brasileiro expandiu-se majoritariamente na base da pirâmide, concentrando 87,3% do crescimento em vagas de um a dois salários mínimos. O fenômeno nacional se repete em Belém em 2026, impulsionado pela forte absorção nos setores de comércio e serviços tradicionais. A contratação nessa faixa atende à urgência financeira da população mais afetada pela desocupação, mas evidencia gargalos estruturais de remuneração e qualificação profissional na capital paraense.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) analisados pela consultoria 4Intelligence, essa faixa de renda registrou acréscimo de 4 milhões de trabalhadores ocupados em três anos, alcançando 37,1% do total de empregados no País em dezembro de 2025. Enquanto a base cresceu, as funções com rendimentos acima de dois salários mínimos tiveram expansão menor, somando 546,5 mil ocupados, o que reduziu a participação desse grupo para 30,3% do mercado total.
Custo de vida elevado e falta de preparo desafiam a capital
Em Belém, a maioria das admissões formais ocorre na faixa de até dois salários mínimos, gerando rendimentos entre R$ 1.621 e pouco mais de R$ 3 mil mensais em 2026. Contudo, o supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Pará, Everson Costa, aponta que o custo de vida local gera uma severa defasagem, pois apenas a cesta básica na capital paraense atingiu cerca de R$ 727,70.
"Quando se considera uma família composta por dois adultos e duas crianças, o gasto estimado apenas com alimentação ultrapassa R$ 2.180 mensais", explicou Costa.
Para cobrir todos os gastos essenciais, o orçamento familiar necessário em Belém aproxima-se de R$ 6 mil, contrastando com o salário mínimo necessário nacional calculado pela entidade em R$ 7.425,99 para março de 2026.
Costa ressalta que o perfil econômico de Belém, concentrado em comércio, serviços tradicionais e administração pública, possui baixa intensidade tecnológica e menor produtividade, o que limita os salários próximos ao piso. Há também uma pressão provocada pela elevada oferta de mão de obra e pela informalidade, que atinge mais de duas milhões de pessoas no Pará. Diante disso, dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) indicam um afunilamento ocupacional.
"A dinâmica predominante ainda parece ser a mobilidade horizontal — isto é, a troca de empresa ou função sem mudança significativa de renda", ponderou o supervisor técnico.
A reportagem procurou o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para obter dados locais do Caged, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
Descompasso entre vagas abertas e qualificação profissional
Do lado empresarial, as organizações locais enfrentam dificuldades para preencher postos que exigem maior complexidade técnica. A diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Estado do Pará (ABRH-PA), Anna Padinha, afirma que há um paradoxo no mercado com a existência de vagas abertas sem preenchimento por falta de candidatos preparados.
"Esse descompasso ocorre porque a velocidade das mudanças no mercado é maior do que a formação de profissionais qualificados", declarou.
Cargos estratégicos cobram conhecimentos específicos, experiência prática e competências comportamentais.
A alta rotatividade nas funções operacionais também é estimulada quando o funcionário não enxerga oportunidades claras de ascensão dentro da própria empresa. Padinha destaca que muitas corporações locais ainda falham por não estruturar iniciativas como planos de carreira, avaliações de desempenho e programas de desenvolvimento. "Empresas que investem nessas práticas tendem a criar ambientes mais atrativos e com maiores possibilidades de crescimento interno", observou a diretora. Ela complementa afirmando que o avanço na carreira também depende diretamente do protagonismo e da vontade de desenvolvimento do próprio colaborador.
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