Selo 'feito no Pará' e sustentabilidade elevam valor de produtos artesanais em até 50%
Empreendedoras de Belém e Castanhal apostam no reaproveitamento de resíduos têxteis e em elementos da cultura regional para conquistar mercados internacionais e garantir independência financeira
A economia criativa no Pará consolidou-se como um motor econômico robusto, representando atualmente 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual — marca superior à média nacional de 3%. Impulsionado por nichos como o artesanato, a moda autoral e o design amazônico, o setor cresce cerca de 8% ao ano no estado, segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no Pará. A estratégia que une a identidade regional à sustentabilidade, especialmente através do upcycling (reaproveitamento), tem sido o diferencial para artesãos transformarem talento em negócios lucrativos, elevando o valor de mercado das peças em até 50% em relação aos itens industriais.
Em um atelier na travessa Mauriti, em Belém, a artesã Alegria Méra dá vida a resíduos que iriam para o lixo. Há dez anos produzindo mochilas, ela encontrou no tecido de guarda-chuvas descartados e em sobras de tapeçaria a matéria-prima ideal para seus acessórios. “Eu não jogava nada fora, guardava todos os retalhos e decidi que tinha que dar um fim responsável a isso. Comecei a produzir as bolsas e não parei mais. A sustentabilidade sempre existiu na minha rotina”, afirma a empreendedora.
O diferencial de Alegria está na união do reaproveitamento com o grafismo marajoara, o açaí e figuras da fauna local, como o sapinho muiraquitão. Segundo ela, a mão de obra manual é o componente mais caro do produto. “A mão de obra no preço final corresponde a mais de 50%, porque a cadeia operatória é complexa. Desde a idealização, a peça piloto, até a separação dos materiais, o trabalho é muito maior do que o custo do material em si”, explica Alegria.
A artesã destaca que a matéria-prima é abundante, mas a carência de mão de obra qualificada ainda limita a escala. “Matéria-prima não falta. O que falta é gente preparada para costurar bolsas, que é diferente de costurar roupa. Por isso, em 2026, meu projeto é ministrar oficinas para capacitar outras mulheres e fomentar o empreendedorismo na região”, planeja. Recentemente, uma funcionária foi contratada para ajudar nos trabalhos de costura das peças.
Atualmente, 90% das vendas de Alegria ocorrem pela internet, com peças alcançando clientes em Portugal, Inglaterra e França. “A Praça da República é um lugar de reencontro e divulgação aos domingos, mas o faturamento real vem das redes sociais. Recentemente, pelo programa Sebrae Delas, minha cabeça abriu. Sou outra empreendedora e estou muito otimista para este ano”, celebra.
Da sala de aula para o atelier
Em Castanhal, no nordeste paraense, Edrícia Nunes percorreu um caminho semelhante. Ex-professora, ela ingressou no artesanato em 2018 para conciliar o trabalho com a maternidade. O ponto de virada veio em 2022, após capacitações em gestão financeira. “Antes, o dinheiro só entrava e saía, eu não via lucro. Hoje, consigo tirar o meu salário e custear a educação da minha filha”, relata.
Edrícia especializou-se no uso da juta, fibra natural produzida em Castanhal, e em ecobags de algodão cru que misturam a identidade regional com temas da cultura geek. A profissionalização permitiu que ela triplicasse seu faturamento em feiras locais. “Meu negócio hoje é sustentável e provê minha independência. Meu próximo passo é ter uma loja física, pois ainda trabalho dentro de casa”, revela a artesã, que já conquistou clientes fiéis pelo primor do acabamento manual.
O desafio da gestão
Para Alessandra Lobo, analista do Sebrae Pará, o crescimento do setor é consistente, mas exige que o artesão mude sua mentalidade. “A maior carência hoje não é a técnica, que o paraense já domina, mas a gestão. Os desafios estão na precificação correta, no controle financeiro e no marketing digital”, pontua.
Segundo a analista, existem linhas de crédito específicas para quem trabalha com economia circular. “Artesãos que atuam com reaproveitamento de resíduos estão inseridos nas agendas de sustentabilidade priorizadas por editais e programas de fomento. Nossa missão é ajudar esse profissional a se enxergar como um empreendedor de fato”, conclui Alessandra.
Dados sobre o impacto da economia criativa regional
- Participação no PIB: 4,2% (Pará) contra 3,0% (Brasil)
- Valorização do produto: itens com estampa regional e narrativa de sustentabilidade valem de 20% a 50% mais que os industriais
- Crescimento do setor: média de 8% ao ano na área artesanal
- Fatores de escolha: consumidores buscam exclusividade, origem rastreável e impacto ambiental positivo
Fonte: Sebrae Pará
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