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Hambúrgueres regionais já representam 15% do faturamento de hamburguerias em Belém

Com jambu, queijo do Marajó, tucupi preto, charque e cupuaçu no cardápio, estabelecimentos apostam em sabores amazônicos para atrair turistas, fidelizar clientes e ampliar receitas

Jéssica Nascimento

O tradicional hambúrguer americano ganhou sotaque amazônico em Belém e vem se transformando em um importante motor de faturamento para as hamburguerias da capital paraense. Ao apostar em ingredientes típicos da região, como jambu, tucupi, queijo do Marajó, carne de búfalo, charque e cupuaçu, empresários do setor relatam crescimento nas vendas e apontam que os chamados “burgers regionais” já representam cerca de 15% do faturamento de algumas casas, além de ajudarem a fortalecer a identidade gastronômica local.

O movimento acompanha o aumento do interesse por experiências gastronômicas amazônicas, impulsionado tanto pelo público local quanto pelo fluxo crescente de turistas em Belém, especialmente diante da projeção internacional da cidade com a COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas).


Ingredientes amazônicos viram diferencial competitivo

Na disputa por espaço em um mercado cada vez mais competitivo, hamburguerias de Belém encontraram nos ingredientes regionais um diferencial para conquistar consumidores. A mistura entre culinária tradicional amazônica e hambúrguer artesanal vem gerando inovação no setor e ajudando negócios a se destacarem.

Na hamburgueria do empresário Diego Costa, localizada na avenida Duque de Caxias, a aposta em sabores regionais surgiu da busca por valorizar a identidade amazônica e oferecer experiências diferentes ao público.

“Nossa proposta sempre foi valorizar a cultura e os sabores da região Norte. Percebemos que muitos clientes buscavam experiências gastronômicas que representassem a identidade amazônica, então decidimos criar um produto que pudesse nos destacar da concorrência, unindo a tradição dos ingredientes locais à paixão pelos hambúrgueres artesanais”, afirma.

Entre os ingredientes utilizados estão jambu com tucupi, castanha-do-Pará e queijo do Marajó. Segundo ele, o resultado foi a criação de receitas exclusivas que preservam a essência do hambúrguer artesanal enquanto reforçam a regionalidade.

Queijo do Marajó e jambu lideram preferência dos clientes

Os sabores amazônicos também vêm despertando a curiosidade dos consumidores. No caso de Diego Costa, hambúrgueres feitos com queijo do Marajó estão entre os campeões de vendas.

“Os hambúrgueres que levam queijo do Marajó têm excelente procura, pois ele tem uma cremosidade e um sabor muito característico, enquanto o jambu desperta curiosidade e chama bastante atenção, principalmente por proporcionar uma experiência única muito associada à culinária paraense”, explica.

No bairro de Nazaré, o empresário Renan Maciel também transformou ingredientes regionais em protagonistas do cardápio. A hamburgueria dele criou dois produtos de destaque: o CupuCharque, feito com charque desfiada e geleia de cupuaçu, e o Carabao, que leva frito do vaqueiro marajoara, maionese de tucupi preto, queijo de búfala, pão de macaxeira e macaxeira palha.

“Os dois surgiram em uma proposta de levar um burger regional para o festival do Dia Mundial do Hambúrguer de 2025 e 2026. Foram sucesso e permaneceram no cardápio”, conta.

Segundo Renan, o Carabao, lançado neste ano, tem sido o favorito do público. “Como é uma novidade, ele tem feito mais sucesso atualmente”, afirma.

Burgers amazônicos aumentam faturamento e atraem turistas

Além do apelo gastronômico, os hambúrgueres regionais têm gerado impacto financeiro positivo para os empreendimentos.

Diego Costa afirma que a estratégia contribuiu diretamente para ampliar a receita da hamburgueria, com crescimento médio de aproximadamente 20% no faturamento após a introdução dos produtos regionais.

“Os hambúrgueres com ingredientes amazônicos se tornaram um dos nossos principais diferenciais e contribuíram diretamente para o crescimento do faturamento. Além de conquistar o público local, passaram a atrair um número crescente de turistas, especialmente com o aumento da visibilidade de Belém em função da COP30”, destaca.

Ele afirma ainda que os clientes têm impulsionado a divulgação espontânea nas redes sociais, ampliando o alcance da marca.

Já na hamburgueria de Renan Maciel, os burgers regionais também representam aproximadamente 15% do faturamento total — percentual considerado expressivo diante da variedade do cardápio.

“Mesmo sendo produtos muito bons para quem prova, ainda são mais desejados por pessoas que vêm de outras cidades. O nosso povo ainda é um pouco restritivo com certos ingredientes, mas mesmo assim pedem muito. Quinze por cento é algo bem expressivo, visto que nosso cardápio é composto por 12 hambúrgueres”, observa.

Ele acrescenta que, após uma promoção realizada no período pós-festival, o hambúrguer regional ganhou ainda mais força nas vendas. “Do dia 28 ao dia 31 de maio, vendemos mais de 50% do faturamento do Burger Carabao”, relata.

Turismo e COP 30 ampliam interesse por sabores amazônicos

O perfil dos consumidores mostra que os hambúrgueres regionais têm conseguido dialogar com diferentes públicos, embora os turistas apareçam como protagonistas na demanda.

Diego Costa observa que moradores locais valorizam a releitura dos sabores tradicionais, enquanto visitantes procuram experiências gastronômicas ligadas à Amazônia.

“O interesse é bastante diversificado, mas observamos dois grupos principais: os moradores locais, que valorizam sabores tradicionais em um formato moderno, e os turistas, que procuram experimentar ingredientes típicos da Amazônia”, diz.

No caso de Renan Maciel, a localização do negócio ao lado da Basílica de Nazaré reforça a presença do turismo no perfil dos clientes.

“Com certeza são turistas. Quando a pessoa nos procura pelo hambúrguer, se depara com a regionalidade e fica instigada a provar nossos burgers regionais e se apaixona”, afirma.

Valorização da produção local fortalece economia regional

Além de movimentar o setor de alimentação, o crescimento dos hambúrgueres regionais também fortalece cadeias produtivas locais. Os empresários relatam priorizar fornecedores paraenses para garantir autenticidade aos pratos e incentivar a economia regional.

Diego Costa afirma que utiliza queijo do Marajó vindo diretamente da Fazenda Santa Filomena, além de jambu, tucupi e castanha-do-Pará adquiridos em feiras locais.

Já Renan mantém parceria com fornecedores paraenses responsáveis pelo pão de macaxeira, carne de búfalo, polpa de cupuaçu e tucupi preto.

Com a valorização da gastronomia amazônica e o avanço do turismo em Belém, empresários do setor avaliam que os hambúrgueres regionais deixaram de ser apenas uma aposta sazonal e passaram a ocupar um espaço consolidado no cardápio — e no faturamento — das hamburguerias da cidade.

Economia da diferenciação e valor cultural dos produtos regionais chamam a atenção, segundo economista

O economista paraense Nélio Bordalo, membro do Corecon-PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), avalia que o desempenho dos hambúrgueres regionais em Belém se explica, principalmente, pela lógica da diferenciação em mercados de concorrência monopolística, nos quais produtos semelhantes competem não apenas por preço, mas por atributos simbólicos, culturais e de experiência.

Para Bordalo, a regionalização dos hambúrgueres altera a forma como o consumidor percebe o valor do produto. Ele destaca que “quando o hambúrguer incorpora ingredientes amazônicos, ele deixa de ser uma commodity alimentar e passa a ser um bem de experiência, com forte componente cultural e afetivo”.

Segundo o economista, esse processo reduz a sensibilidade do consumidor ao preço e aumenta a disposição a pagar mais.

“O consumidor não está apenas comprando um alimento, mas uma narrativa de identidade regional. Isso eleva o valor percebido e fortalece a fidelização”, afirma.

Outro ponto destacado por Bordalo é o impacto na estrutura de mercado local. Ele observa que a utilização de ingredientes típicos da Amazônia cria barreiras naturais à reprodução por grandes redes nacionais, o que amplia a competitividade das pequenas e médias hamburguerias locais

“A exclusividade dos insumos regionais funciona como um mecanismo de proteção de mercado, porque não é facilmente escalável fora da região”, explica.

O economista também ressalta o efeito multiplicador sobre a economia regional. Ao priorizar fornecedores locais, o setor de hamburguerias contribui para a circulação interna de renda e fortalecimento de cadeias produtivas curtas

“Há um encadeamento produtivo importante: o crescimento da demanda por insumos regionais estimula pequenos produtores, feiras e cooperativas, ampliando o impacto econômico para além do setor de alimentação”, pontua.

Bordalo chama atenção ainda para o papel do turismo e da projeção internacional de Belém, especialmente com a COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas). Para ele, o contexto externo reforça a valorização da gastronomia amazônica como ativo econômico. “A visibilidade internacional transforma a culinária regional em um vetor de atração econômica, ampliando o consumo tanto por turistas quanto por moradores que passam a ressignificar sua própria cultura alimentar”, afirma.

Por fim, o economista sintetiza que o sucesso dos hambúrgueres regionais não se limita a uma tendência gastronômica, mas representa uma estratégia econômica consistente de agregação de valor

“Trata-se de um caso típico em que identidade cultural, inovação de produto e inserção produtiva local se combinam para gerar crescimento de receita e fidelização em um mercado altamente competitivo”, conclui Bordalo.