Petrobras faz simulado para obter licença e iniciar exploração de petróleo no litoral amazônico

Investimento previsto no planejamento da empresa é de R$ 10 bilhões na chamada Margem Equatorial, que vai até o Rio Grande do Norte

Daniel Nardin

Na primeira quinzena de dezembro, a Petrobras realizará um simulado de situação de acidente durante a atividade de exploração de petróleo. O exercício será na costa marítima do Amapá, distante cerca de 200 quilômetros da base no município de Oiapoque, que fica no norte do Estado e ocorrerá na divisa com a Guiana.

A ação será feita com supervisão do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais) e vai simular uma situação de emergência durante a operação de uma sonda de perfuração. Esta é a última etapa para a emissão de licença ambiental para a atividade na área. A exploração de petróleo na chamada Margem Equatorial está no planejamento estratégico da Petrobras, com investimentos previstos da ordem de R$ 10 bilhões.

A Margem Equatorial é vista pelo setor como uma área estratégica e uma fronteira promissora de águas profundas para a produção de petróleo e gás natural. Já foram descobertas bacias com alto potencial de exploração na Guiana e no Suriname e no Brasil, numa faixa marítima que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte, passando pelo Pará, Maranhão, Piauí e Ceará, estão previstos 14 poços exploratórios em 21 blocos e em duas áreas de avaliações de descobertas.

A simulação vai testar a capacidade da empresa no controle de eventual vazamento de óleo, em caso de acidentes. Caso seja avaliada positivamente pelo Ibama, que vai acompanhar os trabalhos, o órgão federal deve liberar a licença para perfuração do primeiro poço, que vai então dar uma dimensão do potencial da nova descoberta brasileira de reservatório de petróleo e gás.

A atividade de simulação de acidente vai envolver grande estrutura. De acordo com informações da Petrobras, além da sonda de perfuração, participarão também 5 embarcações de grande porte, mais 3 helicópteros para ações de monitoramento e transporte de equipes, que somam cerca de 450 pessoas.

A logística para transporte de suprimentos para a sonda utilizará o porto de Belém como base de apoio. “De lá, seguirão por embarcações todos os equipamentos e suprimentos para a operação exploratória na região de Amapá, em Águas Profundas. Já a logística aérea utilizará como base de operação offshore o aeroporto de Oiapoque e, como ponto de apoio, o aeroporto de Macapá”, informou a assessoria da Petrobras.

Licença é aguardada para este ano

A expectativa da Petrobras é de que com a realização do simulado e mesmo faltando poucos dias para 2023, a licença seja emitida ainda este ano.

“Tendo a licença, a gente faz na sequência a primeira perfuração. Isso está planejado e estamos só aguardando de fato o Ibama autorizar para que a gente possa começar os trabalhos. A expectativa é que a licença saia este ano e a primeira perfuração ano que vem”, afirma Rafael Chaves, diretor de relações institucionais e sustentabilidade da Petrobras.

Segundo ele, o Ibama tem acompanhado de perto os estudos e os trabalhos sobre o projeto. “Uma vez que é feito o simulado, o Ibama que autoriza. E a gente faz então a perfuração do que chamamos de primeiro poço exploratório, para avaliação do reservatório após a perfuração. O diálogo com o Ibama é excelente. O próprio Ministério do Meio Ambiente também, todo mundo entende a importância disso para a região em termos de geração de emprego, geração de renda, mais investimentos. Então acho que esse é um ponto comum entre Ibama, Ministério, então tem tudo para dar certo”, avalia Chaves.

Margem Equatorial é nova fronteira exploratória

Vinte áreas dependem de liberação (Fonte:ANP)

Segundo Rafael Chaves, a área é estratégica e o investimento está previsto no planejamento da empresa, com aporte da ordem de R$10 bilhões. Para ele, o questionamento ambiental por se tratar de exploração de petróleo em área próxima da foz do Amazonas deve ser visto sob o ponto de vista do cuidado que a empresa vem tendo. “O posicionamento da Petrobras é pelo desenvolvimento sustentável. É inaceitável ter um desenvolvimento que não seja sustentável, ou seja, que não garanta a sustentabilidade do planeta. Mas também lutamos pelo desenvolvimento. Também é inaceitável não desenvolver. A gente precisa investir no Norte e no Nordeste, beneficiando as pessoas hoje, transformando recursos brasileiros em riquezas”, afirma.

O diretor da Petrobras destaca que o investimento será de grande porte e irá beneficiar estados e municípios. “A Petrobras não escolhe região geográfica, escolhe boas oportunidades de reservatório. Sempre que a gente encontra reservatórios que são muito produtivos, que entrega uma quantidade grande, com baixa emissão, a gente encontra um petróleo que chamamos de duplamente resiliente. Ele tem um baixo custo de produção e uma baixa emissão de gás de efeito estufa. Então, sempre que a gente encontra esses reservatórios, a gente vai e investe”, afirmou.

O executivo destacou também a experiência da companhia nesse tipo de exploração e credencia a atividade como segura. “Então, esse é um reservatório que está no Brasil, no Norte e Nordeste, em águas muito profundas, que é justamente a especialidade da Petrobras. Ninguém sabe explorar e desenvolver petróleo e gás em águas profundas melhor do que Petrobras. Essa é a excelente notícia: a Petrobras está investindo no Norte e no Nordeste do país, no litoral, desenvolvendo a margem, gerando emprego, gerando renda para a Petrobras e para o país”, defendeu.

Sobre a questão da geração de royalties, só é possível estimar a partir da definição da capacidade e da qualidade do petróleo, para que então sejam feitos os cálculos do que deve ser pago aos Estados e municípios. “Todos os estados vão receber e serão beneficiados. Seja de forma indireta, através de geração de emprego e de renda, mas de royalties e de impostos que acabam revertendo em receita em todas as esferas. Lembrando que a Petrobras no ano passado contribuiu com mais de 230 bilhões de reais para todas as esferas de governo. Então, esse é um projeto que vai gerar um benefício muito grande para todos os Estados brasileiros” argumenta Chaves.

Transição energética deve ser gradual e responsável, diz diretor da Petrobras

A equipe do Grupo Liberal conversou com Rafael Chaves durante a realização da Conferência das Nações Unidas para o Clima, a COP 27, que ocorreu em Sharm El-Sheik, no Egito. Chamada de “COP da implementação, os debates da conferência bateram na tecla de que se deve passar da fase de o que fazer para como fazer ações que enfrentem as mudanças climáticas. Entre os diversos pontos abordados está o caminho de transição energética, deixando para trás os combustíveis fósseis por fontes de energia renovável.

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Sobre esse tema, durante painel que tratou de inovações tecnológicas e descarbonização no setor de óleo e gás no estande do Governo Federal na COP 27, Rafael comentou que a transição será gradual. “Estamos tendo debates aqui importantes, necessários e com gente do mundo todo aqui no Egito. Mas todos vieram de avião, que usa querosene. Então, não tem como se pensar numa transição energética, mas feita de maneira responsável”, disse.

Durante a entrevista, Rafael abordou o assunto, defendendo também novos investimentos e de forma alinhada com pesquisas por outras fontes de energia. “A transição energética é algo que tem que ser feito com responsabilidade. A gente sabe o que todo mundo quer lá no futuro. É uma energia barata, uma energia limpa e uma energia abundante. Isso a gente só consegue no médio e longo prazo. Uma transição energética tem que ser gradual, pois existe demanda por óleo e gás inadiável. E ela tem que ser feita com o maior número de investidores possível e competição, porque isso garante uma redução de preço e a energia fica mais competitiva. Tem que ter respeito ao investimento, ao investidor. Se não investir nada em óleo e gás, daqui dez anos, praticamente não terá mais óleo e gás no mundo”, aponta Chaves.

“Como o mundo consome hoje cem milhões de barris de petróleo por dia, é importante que exista investimento para que a gente tenha uma redução gradual na oferta de petróleo. Vai ser reduzido o consumo de petróleo e gás, mas essa redução tem que ser gradual e a gente tem que ter uma transição energética justa”, considerou.

IBP: Exploração será em ambiente marítimo, longe da floresta

O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Roberto Ardenghy, também esteve na COP 27 e mostrou otimismo com o avanço do projeto de exploração da Margem Equatorial e afirma que o início da perfuração, no Amapá e Pará, deve ser mais esclarecido. "A gente vê isso com muito otimismo e é necessário. Vai ser inclusive um grande fator de desenvolvimento dos estados do Norte do Brasil e inclusive do Pará. Importante deixar claro que apesar da bacia se chamar Foz do Amazonas, não fica no rio Amazonas, ela fica no mar territorial da Amazônia, já distante duzentos quilômetros da costa. Então, não tem nada a ver com a floresta, não é uma exploração de petróleo na floresta amazônica, é uma exploração de petróleo em ambiente marítimo. É um ambiente muito seguro”, afirma.

Segundo ele, a expertise do país em explorar em ambientes como esse, como ocorre com o pré-sal, na frente dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, credencia as autorizações ambientais necessárias.

“Hoje o Brasil produz três milhões de barris de petróleo e não tem acidente, não tem um vazamento. O Brasil transporta por dia quatrocentos milhões de litros de combustível pelo país inteiro de uma maneira segura. Esse é um setor muito seguro. As pessoas fazem as coisas de maneira muito responsável e tomam todas as cautelas”, afirma Ardenghy.

O executivo defende que a produção, além dos cuidados durante a exploração, deve produzir um petróleo com menor pegada ambiental. “O Brasil é ainda um país com enorme potencial de exploração de petróleo e gás natural. Nós ainda somos o que chamamos no mundo de uma fronteira exploratória. O mundo descarbonizado não é um mundo sem hidrocarboneto. É um mundo de uma transição energética e o petróleo ainda vai continuar por muitos anos como importante fonte energética. Mas será um petróleo mais descarbonizado, um petróleo com uma pegada de carbono menor, mas um petróleo que ainda vai fornecer energia para muitas coisas”, disse.

Para Roberto Ardenghy, somente após a perfuração do poço exploratório, com a licença ambiental, será possível ter ideia da capacidade de produção. No entanto, a experiência recente com a Guiana mostra que o volume deve ser alto. “Ainda não temos uma ideia do potencial da capacidade de produção. Como vai ser feita a primeira perfuração agora, vai ter que ser feito um levantamento do tipo de descoberta e o tamanho do reservatório. O que sabemos é que a Guiana, que é ali perto, já descobriu 11 bilhões de barris de petróleo e é a mesma bacia sedimentar - porque começa na foz do Amazonas e também sobe para a Guiana - então veja que o potencial é muito grande”, avalia.

Mudança de governo não deve alterar projeto, avalia IBP

Em janeiro, o Governo Federal e seus órgãos terão uma forte mudança de gestão, com a transição entre o atual governo de Jair Bolsonaro para o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva, que assumirá seu terceiro mandato.

Os estudos para a produção de petróleo na Margem Equatorial foram iniciados e autorizados ainda na gestão de Dilma Roussef, também do Partido dos Trabalhadores, que sucedeu Lula. Por isso, a expectativa do setor, segundo Ardenghy, é que os investimentos sejam mantidos.

“Achamos que independentemente de governo, essa é uma ação de Estado, uma ação desenvolvimentista. Vai explorar uma riqueza que hoje não gera nada, está lá enterrada, embaixo da terra. O petróleo embaixo da terra não tem valor nenhum. Essa fonte vai continuar ainda muito importante para a matriz energética brasileira por muitos anos. Por isso a gente acha importante que o Brasil explore essa alternativa, como muitos países fazem, de uma maneira segura, de uma maneira responsável, obedecendo todos os requisitos ambientais. Nós temos que incentivar essa atividade que gera muito emprego e renda para todos os Estados e também para os municípios”, afirma Ardenguy.

O diretor de relações institucionais e sustentabilidade, Rafael Chaves, evitou comentar se a transição de governo poderá impactar no andamento do projeto pela Petrobras.

"Eu não comento a mudança de governo federal. Sou executivo lá, assalariado da Petrobras. Tem toda uma governança. Nós da diretoria respondemos ao Conselho de Administração. O que posso garantir é que nós vamos respeitar toda a governança, com muita transparência, muito profissionalismo", disse.

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