O Pará reúne condições para se consolidar como um dos principais polos de bioeconomia do Brasil, ampliando a produção de alimentos e outros produtos da floresta, atraindo investimentos e gerando empregos verdes. A avaliação é de Tereza Campello, diretora socioambiental do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em entrevista ao Grupo Liberal. Para ela, a bioeconomia deve ocupar uma posição estratégica na agenda de desenvolvimento do estado a partir de 2027 e nos próximos anos.
Segundo Campello, a crescente demanda internacional por produtos sustentáveis abre oportunidades para o Pará, que possui uma diversidade de recursos naturais e capacidade de ampliar sua produção. Além de produtos já conhecidos, como castanha-do-pará e açaí, ela aponta o cacau, o café, outros frutos amazônicos e produtos farmacêuticos como segmentos com potencial de expansão.
“O Pará hoje consegue ser um dos maiores produtores de bioeconomia. Não só a castanha-do-pará, o açaí, mas quando a gente fala de bioeconomia, estamos falando de toda uma riqueza”, afirmou.
A diretora avalia que o Brasil tem condições de multiplicar por mais de dez vezes sua produção atual de produtos da bioeconomia, mas ainda não consegue atender à demanda mundial na dimensão de seu potencial. Nesse cenário, o Pará teria papel relevante na ampliação da oferta, especialmente por reunir condições para associar atividade econômica, conservação ambiental e inclusão social.
Campello cita como exemplo o café produzido em sistemas que contribuem para a recuperação de áreas florestais e envolvem agricultores familiares, indígenas e ribeirinhos. Segundo ela, o valor desses produtos vai além da qualidade do alimento, incorporando critérios de produção justa e sustentável.
“Não é só um café gostoso. É um café que foi produzido para ajudar a restaurar a floresta”, destacou.
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Infraestrutura e recuperação ambiental
Para transformar esse potencial em desenvolvimento econômico, a diretora considera necessário ampliar investimentos em infraestrutura, energia e logística. A construção de terminais de escoamento da produção e a recuperação de áreas degradadas estão entre as medidas apontadas como fundamentais para fortalecer as cadeias produtivas sustentáveis.
Na avaliação de Campello, esses investimentos permitem conectar a produção local aos mercados consumidores e criar condições para que os produtos amazônicos alcancem maior valor comercial.
A restauração florestal e a geração de créditos de carbono também aparecem entre as oportunidades estratégicas. Para ela, o Pará reúne condições para se destacar nacionalmente nessa agenda, conciliando recuperação ambiental e novas fontes de renda.
A diretora ressalta, ainda, que o avanço da agricultura e da pecuária precisa ocorrer sem pressionar a floresta. Nesse sentido, menciona iniciativas relacionadas à pecuária sustentável e generativa e à agricultura generativa, modelos que buscam associar produtividade, conservação dos recursos naturais e produção saudável.
Minerais e agregação de valor
Outro eixo de desenvolvimento destacado por Campello é o setor mineral. O Pará já figura entre os principais estados produtores de minerais do país e também possui potencial relacionado às terras raras e aos minerais críticos, considerados estratégicos para diferentes cadeias industriais.
Para a diretora do BNDES, o desafio é avançar para além da extração e ampliar o beneficiamento e a transformação desses recursos em território nacional.
A proposta, segundo ela, é evitar que o país permaneça concentrado na exportação de matérias-primas, sem aproveitar plenamente as oportunidades de industrialização e geração de riqueza associadas aos recursos naturais.
“Temos um caminho muito rico e promissor para o Norte do Brasil e, em especial, para o Pará”, afirmou.
Empregos verdes e desenvolvimento regional
Campello também relaciona as oportunidades econômicas à geração de postos de trabalho e à melhoria da qualidade do emprego no estado. Segundo ela, os últimos três anos e meio foram importantes para a construção de bases que podem sustentar uma nova etapa de desenvolvimento econômico no Pará.
A expectativa é que a combinação de bioeconomia, restauração florestal, produção agropecuária sustentável e agregação de valor aos minerais amplie as possibilidades de investimentos e diversifique a economia estadual.
“Criamos essa base sobre a qual podemos construir uma agenda de desenvolvimento econômico que gere ainda mais empregos, empregos verdes, empregos de qualidade”, declarou.
Para ela, o Pará reúne recursos naturais, capacidade produtiva e oportunidades de mercado que podem contribuir para uma nova dinâmica de desenvolvimento econômico na Amazônia, com maior valorização da produção local e conservação ambiental.
