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ENTREVISTA

BNDES investiu R$ 18,5 bilhões no Pará em três anos e meio, afirma diretora

Em entrevista ao Grupo Liberal, Tereza Campello destaca recursos destinados à infraestrutura, à restauração florestal, à energia e à bioeconomia e aponta o estado como protagonista na agenda de desenvolvimento sustentável

Jéssica Nascimento

7 de novembro de 2026 às 16:00

Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES.

Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES. ( Foto: Maurício Braz/Ascom BNDES )

O Pará recebeu R$ 18,5 bilhões em investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos últimos três anos e meio, o dobro do volume aplicado no período anterior. Em entrevista ao Grupo Liberal, a diretora socioambiental do banco, Tereza Campello, detalhou a destinação dos recursos para projetos de infraestrutura, saneamento, energia, mobilidade urbana e restauração florestal. Segundo ela, o estado também lidera no Brasil em número de empreendimentos de recuperação de áreas degradadas, com quase R$ 1 bilhão em crédito para o setor. Para os próximos anos, Campello aponta a bioeconomia, a produção sustentável, a geração de empregos verdes e o beneficiamento de minerais críticos como áreas estratégicas para impulsionar o desenvolvimento econômico paraense.

Como o BNDES tem ampliado a atuação na região Norte e, especialmente, no Pará? 

O Fundo Amazônia existe desde 2008. O Pará sempre recebeu projetos. Dos 144 municípios do Pará, 121 municípios já receberam projetos do Fundo Amazônia. São projetos muito conhecidos, como “Saúde e Alegria”, no sul do Pará. Cerca de 30 terras indígenas no Pará já foram beneficiadas, com unidade de conservação e regularização fundiária. O último é um problema grave no Pará e que talvez seja um dos maiores obstáculos para que a gente avance do ponto de vista ambiental. Parte das terras não são regularizadas. Por isso, fizemos um investimento enorme em regularização fundiária com recursos do Fundo Amazônia, com investimento nos corpos de bombeiros na região Norte, em especial no estado do Pará, para prevenção de incêndios. 

Há ações de infraestrutura que são importantes, mas são pouco conhecidas. Destinamos R$ 4,6 bilhões para ampliação, modernização e manutenção de aeroportos no Pará. Santarém, Marabá, Carajás e Altamira integram 11 terminais que receberam recursos no Brasil. Quando a gente fala de turismo, não é só chegar em Belém. É como que você chega também num estado tão extenso, que é maior que muitos países na Europa, para você poder ter essa aviação regional. 

Na questão do saneamento, 320 escolas na região do Marajó passaram a ter investimento em saneamento e água potável em parceria com o BNDES. Se a gente olhar a energia, foram R$ 3,8 bilhões, quase R$ 4 bilhões na Usinagem Termelétrica Portocem (UTE Portocem I) para geração de energia. Foi um investimento muito importante. 

Esse pacote todo que aconteceu nesse período envolve R$ 18,5 bilhões de reais em 3 anos e meio. Isso mostra a potência e a dedicação do BNDES, que tradicionalmente era um banco que investia em indústria, em energia, mas muito mais no Centro-Sul do país e nessa parte de energia, no Nordeste, e deu essa guinada para investimentos no Norte do Brasil e em especial no Pará. 

O banco é um banco de desenvolvimento. A missão dele é investir em projetos de desenvolvimento. A gente inaugurou uma fase nova - investindo em urbanização de favelas, nos terminais hidroviários de passageiros, na parte de cultura, que foi um investimento enorme. 

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Quais fatores fizeram do Pará o estado que mais recebeu investimentos do BNDES em projetos de restauração florestal no Brasil? 

Criamos uma agenda aqui no BNDES, que se chama BNDES Florestas. O BNDES Florestas está pegando as áreas que são áreas degradadas, áreas que foram desmatadas, e reconstruindo a floresta, restaurando a floresta. Isso não é só uma restauração. É restauração ecológica, mas também é restauração produtiva. Isso não tem sido feito somente com recursos do Fundo Amazônia. Estamos com ações com empresas privadas, financiando empreendimentos. Estamos fazendo isso na Amazônia toda. Com o Fundo Clima e com o BNDES Floresta, estamos fazendo no Brasil todo - no Cerrado, no Pantanal, na Caatinga. 

O estado que mais empreendimentos teve em todo o Brasil foi o estado do Pará. Investimos quase R$ 1 bilhão em crédito. Não estou falando aqui em recursos não reembolsáveis, que o povo chama de recurso a fundo perdido. É investimento do setor privado nessa área de restauro florestal. 

O Brasil está se tornando uma referência mundial em restauro florestal e nessa agenda o maior destaque é o estado do Pará. 

Então, a gente tem grandes empresas e médias empresas, startups, que estão fazendo restauro, como o “Re.green”, “Mombak”, com dois projetos, restaurando floresta junto com o cacau, restaurando floresta junto com o sistema agroflorestal e com crédito de carbono. 

Se a gente olhar por que o Pará se destacou tanto, exatamente porque ele tem um potencial enorme. Não só porque tem terras disponíveis para serem restauradas, mas porque tem esse potencial de clima, de solo, de viveiros disponíveis. 

Quanto o BNDES já destinou em 2026 para financiar projetos no Pará?  

Nos últimos 3 anos e meio foram R$ 18,5 bilhões. O que investimos nesse período, foi o dobro do período anterior, e muito mais do que toda a história que recorrentemente o banco vinha investindo. 

Portanto, mostra aí um esforço grande para que a gente passe a atuar tanto diretamente quanto em parceria com o Banco da Amazônia, que a gente teve parceria com o próprio Banco do Estado do Pará, com o Governo do Estado, investimentos no setor público e no setor privado. 

Quais são hoje os principais setores que concentram os financiamentos do BNDES no Pará? 

Primeiro, eu diria que essa urbanização de favelas nesse período se destaca, até porque foi a maior do Brasil - R$ 1,5 bilhão que a gente investiu nos 12 canais que restauramos junto com o Governo do Estado.

Teve essa parte que envolveu tanto a parte de urbanização de favelas quanto a parte de mobilidade, com o Canal de Tamandaré, com o Terminal Hidroviário da Tamandaré, com o terminal internacional. Essa parte de mobilidade e investimento em Belém soma R$ 1,5 bilhão.  

Mas se a gente for olhar ao longo desse período, eu destacaria também esse investimento que fizemos nos aeroportos de Santarém, Marabá, Carajás e Altamira, que tiveram recursos para ampliação, modernização e manutenção. Isso vai impactar muito a possibilidade de que a gente tenha uma malha aeroviária articulada com Belém e, portanto, garantindo não só turismo, mas desenvolvimento econômico.  

Destacaria esse investimento de R$ 3,8 bilhões em energia na UTE Portocém, em Barcarena - com uma potência total de R$ 1 bilhão e quase R$ 600 milhões de megawatts. Estamos falando de um projeto muito estratégico, que envolve transição energética. 

Temos investimentos na Wave Aluminium (subsidiária do Grupo New Wave focada no beneficiamento sustentável e inovador de rejeitos do refino de bauxita), que é R$ 221 milhões. Temos investimentos de R$ 160 milhões no transporte hidroviário de grãos e investimentos de R$ 960 milhões em florestas e restauro florestal, fora tudo que investimos no Fundo Amazônia, que dá mais de R$ 700 milhões. 

Se você pegar o pacote desse investimento, envolve R$ 18,5 bilhões. Pela primeira vez, ocorreu um investimento tão grande no setor público que nunca tinha feito - investimento em energia, em transporte de grãos, em indústria, em energia especial. É um pacote enorme. Quando digo que o Pará é uma potência ambiental, essa potência necessita de infraestrutura para que ela possa se desenvolver. 

Para 2027 e para os próximos anos, o que a senhora destacaria de mais importante que deve ser o foco direcionado para o Pará?  

O Pará hoje consegue ser um dos maiores produtores de bioeconomia. Não só a castanha-do-pará, o açaí, mas quando a gente fala de bioeconomia, estamos falando de toda uma riqueza. Hoje o mundo tem uma demanda enorme por produtos de bioeconomia, que vão desde nossos frutos até cacau, que hoje tem um potencial enorme, porque o Brasil já foi o maior produtor de cacau do mundo e hoje produz muito menos, mas está retomando esse caminho - cacau, café, frutos da Amazônia, produtos que são farmacêuticos. 

Existe uma demanda enorme no mundo por produtos de bioeconomia, e parte dessa riqueza está no Pará. Hoje já existe. Ela pode ser restaurada. O café que estamos vendendo não é só um café gostoso. É um café que foi produzido para ajudar a restaurar a floresta. É um café produzido junto com a agricultura familiar, junto com os indígenas, junto com os ribeirinhos. Portanto, ele tem um valor  de produção justa e sustentável. 

O valor desse café, o valor desse cacau, o valor desses produtos são muito maiores. O Brasil tem um espaço de multiplicar por mais de 10 o que hoje ele produz. O mundo demanda esses produtos e a gente não vinha conseguindo ofertar esses produtos com o potencial que tem. 

Quando a gente constrói esses terminais de escoamento, de produção, quando a gente constrói possibilidade de ter energia, quando a gente constrói recuperar essas áreas degradadas, a gente está dando vazão a essa grande novidade que o mundo demanda e que o Brasil tem o maior potencial de oferta e que hoje não aproveita. Diria que temos um diamante na nossa mão para botar em curso que é a bioeconomia.      

Junto com o próprio restauro florestal, com a produção de créditos de carbono, o Pará hoje se destaca com o maior potencial para essa agenda. Agora, temos produção da agricultura que tem que ser valorizada, que tem que continuar avançando sem avançar sobre a floresta. Temos todo um conjunto de ações que o Pará tem feito um esforço, inclusive em relação à pecuária sustentável, pecuária generativa, agricultura generativa. É uma produção saudável e sustentável. A gente pode apontar o Pará como um estado que vai se destacar no próximo período, porque ele criou essa base. 

Nesses 3 anos e meio, criamos essa base sobre a qual podemos construir uma agenda de desenvolvimento econômico que gere ainda mais empregos, empregos verdes, empregos de qualidade, para além daquilo que a gente já vinha fazendo no estado. O Pará é um dos maiores produtores de minerais do Brasil. É rico também em terras raras, minerais críticos. Portanto, a gente está conseguindo construir um ambiente onde a gente não só extraia esses minerais, mas possa avançar na qualificação dessa produção, fazer isso de forma sustentável e poder beneficiar esses minerais no Brasil. 

Tudo isso para a gente não ser mais um refém, repetindo um processo de colonização que o Brasil era exportador de bens primários, mas que a gente possa se aproveitar e crescer numa agenda também de valorização da nossa transformação desse potencial que temos no subsolo em desenvolvimento econômico. Temos um caminho muito rico e promissor para o Norte do Brasil e, em especial, para o Pará. É uma alegria e um orgulho enorme o BNDES ser parte desse projeto. 

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