PIX amplia acesso financeiro, mas exige educação para evitar consumo impulsivo, diz economista
Especialista avalia que novas funcionalidades do PIX ampliaram a inclusão financeira no Brasil, mas também podem incentivar gastos impulsivos sem educação financeira e planejamento
O PIX transformou a forma como os brasileiros lidam com o dinheiro. Criado inicialmente para facilitar transferências instantâneas e reduzir custos bancários, o sistema se consolidou como uma das principais ferramentas financeiras do país. No entanto, a ampliação das funcionalidades da plataforma, como parcelamentos e modalidades de crédito, também levantou debates sobre os impactos do recurso no comportamento de consumo da população.
Para a economista e criadora do movimento Desmistificando a Economia, Dirtene Silva, a relação entre o PIX e o aumento dos gastos não pode ser analisada de maneira simplista. Ela diz que é necessário considerar tanto os avanços promovidos pela ferramenta quanto os riscos associados ao uso descontrolado do crédito.
Em entrevista concedida ao jornal O Liberal, durante o Fórum de Bem-Estar Financeiro realizado em maio de 2026, em São Paulo, a especialista afirmou que o sistema trouxe mudanças importantes para a inclusão financeira no Brasil.
“Simplesmente dizer sim ou não é complicado. O PIX surgiu inicialmente como uma modalidade de transferência, substituindo TED e DOC, e facilitando muito a vida das pessoas”, afirmou.
Ela lembra que, antes do sistema de pagamentos instantâneos, muitas instituições financeiras cobravam taxas elevadas para transferências bancárias. “Existiam bancos que cobravam até mais de R$ 100 por uma transferência. Então o PIX surge como uma solução que democratiza esse acesso”, destacou.
Mudanças
A economista disse que a primeira versão do PIX tinha como principal característica a transferência imediata de valores disponíveis em conta. Nesse cenário, o usuário precisava ter saldo para concluir a operação, o que limitava o uso impulsivo do recurso. Com o passar do tempo, no entanto, novas funcionalidades passaram a integrar o sistema, como o PIX parcelado e modalidades vinculadas ao crédito. Para Dirlene Silva, essas mudanças alteraram a dinâmica da ferramenta e criaram novas possibilidades de consumo.
“Essas modalidades podem fomentar esse gasto maior. Porque o PIX tradicional, à vista, depende do dinheiro estar na conta. Mas quando surgem alternativas de parcelamento ou crédito, aí existe um estímulo diferente ao consumo”, explicou.
Apesar disso, ela evita classificar o crédito como algo necessariamente negativo. Para a especialista, o acesso a serviços financeiros representa um avanço social importante, principalmente para populações historicamente excluídas do sistema bancário. “Eu sou de uma geração em que as pessoas pobres praticamente não tinham acesso ao crédito. Isso significava não ter acesso a quase nada”, afirmou.
Ela avalia que a ampliação das ferramentas financeiras também está relacionada ao processo de inclusão econômica da população de baixa renda, permitindo acesso a consumo, serviços e oportunidades antes restritas. “Hoje existe uma evolução na inclusão financeira, e eu prefiro muito mais educar as pessoas para usar essas ferramentas do que simplesmente defender restrições”, disse.
Consumo
A economista também destacou que o crescimento das facilidades de pagamento ocorre em uma sociedade marcada pelo estímulo constante ao consumo. Para ela, a publicidade e os mecanismos de compra rápida incentivam gastos imediatos, muitas vezes sem planejamento. “A gente vive em uma sociedade capitalista e consumista, e isso não vai mudar de uma hora para outra”, afirmou.
Nesse contexto, Dirtene Silva defende que o debate sobre educação financeira precisa ganhar mais espaço. Ela diz que, além dos estímulos ao consumo, também deveria existir um incentivo maior à construção de hábitos de poupança e investimento. “Se existe um grande apelo ao consumo, também deveria existir um apelo à poupança e ao investimento”, declarou.
Na prática, consumidores relatam que o acompanhamento constante dos gastos tem sido uma das principais estratégias para evitar o endividamento diante da facilidade proporcionada pelo PIX e pelas compras digitais. O professor Israel Muñoz, de 29 anos, afirma que aprendeu a monitorar semanalmente as despesas após enfrentar dificuldades para controlar os gastos no cartão de crédito.
“O ideal para não se enrolar é estar sempre olhando a fatura. Quando eu era mais novo, sempre ficava com muito receio de abrir a fatura antes do fim do mês. Hoje em dia eu acompanho semana a semana para não deixar virar uma bola de neve”, contou.
Ele diz que o cuidado é necessário porque os juros rotativos podem comprometer rapidamente a renda mensal e afetar a qualidade de vida. Israel afirma que tenta manter os gastos limitados ao dinheiro disponível, utilizando o PIX apenas em situações emergenciais.
“Na medida do possível, eu só gasto o que eu tenho: passagens, transporte, comida e lazer são gastos dentro do dinheiro que a gente já tem. Agora, quando acaba antes do final do mês, é inevitável utilizar o PIX para emergências, remédio e outras despesas”, afirmou.
Para Dirtene, esse tipo de comportamento está diretamente ligado ao autoconhecimento financeiro. A especialista afirma que compreender os próprios hábitos de consumo é uma das principais ferramentas para evitar compras impulsivas e o endividamento.
Equilíbrio
Para Dirtene Silva, ferramentas como PIX, Open Finance e crédito não devem ser encaradas como vilãs, mas sim como instrumentos que precisam ser utilizados de forma consciente. Ela reforça que a tecnologia financeira, por si só, não determina o comportamento das pessoas, mas pode potencializar hábitos já existentes. “O dinheiro precisa ser visto como um meio e não como um fim”, afirmou.
De acordo com a economista, o desafio atual não está em impedir o acesso às novas ferramentas financeiras, mas em garantir que a população tenha conhecimento suficiente para utilizá-las de maneira equilibrada. “Ele serve para conquistar outras coisas. O valor não está no papel em si, mas no significado que a sociedade dá para ele”, concluiu.
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