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Exportadores paraenses analisam impacto de possível tarifa de 25% dos EUA

Setor produtivo do Pará avalia riscos e possíveis prejuízos caso barreira comercial americana seja confirmada pelo governo dos EUA

Gabriel da Mota
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O agronegócio paraense entrou em alerta após o Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propor, na segunda-feira (1º), a aplicação de uma tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras. A medida, que ainda aguarda conclusão de investigação e audiências públicas, gera preocupações imediatas no Pará, onde produtores já enfrentam desafios logísticos e buscam diversificar mercados para mitigar riscos de novos entraves comerciais. 

Setor agropecuário avalia riscos de novas barreiras comerciais

Para o setor produtivo, a possível tarifa adiciona incerteza a um cenário já complexo. O zootecnista e diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), Guilherme Minssen, avalia que o estado vem buscando novos compradores, mas esbarra em problemas internos.

"O agronegócio paraense tem diversidade de produtos e clientes, mas padece de uma logística interna que penaliza os produtores com péssimas rodovias, ausência de ferrovias e portos deficientes. Perdemos muitos mercados por estas críticas mazelas seculares", afirmou Minssen.

Segundo o diretor da Faepa, os produtos que devem ser os principais atingidos, caso a barreira comercial se consolide, são: cacau, açaí, citros e a pecuária de corte.

Setor da carne alerta para desequilíbrio no mercado interno

Embora o Pará não possua habilitação para exportar carne bovina diretamente aos Estados Unidos, a possibilidade de redução das exportações nacionais preocupa o segmento local. O presidente do Sindicato da Indústria da Carne do Pará (Sindicarne), Daniel Freire, ressalta que o impacto da retração do comércio externo respinga no equilíbrio do abastecimento interno brasileiro.

"Quanto mais exportamos carne, mais sobram os cortes que o mercado local consome. Se não há exportação, as indústrias reduzem a produção, pois não há demanda interna para produtos perecíveis como músculo, lagarto, patinho e vísceras. Sem esse mercado externo, as indústrias diminuem o abate, o que resulta na falta de cortes mais valorizados pelo brasileiro, como picanha, filé e alcatra. Se o abate diminui, a oferta desses cortes no mercado interno cai", explicou Freire.

Ainda segundo o dirigente, a indústria formal de carne no Pará gera mais de 20 mil empregos diretos, além de movimentar cadeias como a do couro, farinhas para alimentação animal e biodiesel.

Em resposta ao Grupo Liberal, a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) informou que, com base nas informações e orientações da CNI, ainda é prematuro estimar com precisão o impacto econômico para o Pará, uma vez que a tarifa adicional de 25% proposta pelo governo norte-americano ainda não entrou em vigor e passará por consulta pública e audiência antes de uma decisão final. "Além disso, o próprio relatório prevê exceções para 1.690 linhas tarifárias, incluindo matérias-primas críticas e produtos sem oferta doméstica nos Estados Unidos. De modo que, alguns fatores podem mitigar esse impacto", avalia.

Segundo a entidade, o documento destaca que os Estados Unidos dependem de diversas cadeias produtivas integradas ao Brasil e que determinadas matérias-primas estratégicas podem ser mantidas fora da tarifa adicional. A Fiepa ressalta ainda que muitos importadores norte-americanos continuam adquirindo produtos brasileiros mesmo diante de barreiras tarifárias, especialmente quando se trata de itens com pouca substituição ou forte demanda no mercado americano.

"Contudo, se considerarmos o período correspondente ao primeiro quadrimestre deste ano, a imposição da taxa adicional de 25% atingiria a maior parcela dos montantes monetários entre Pará e EUA. Deduzidos os itens identificados com potencial de isenção, constata-se que cerca de 54% do valor total em dólar FOB das exportações paraenses aos Estados Unidos permanece sujeito à alteração tributária proposta", avalia.

"O acréscimo linear de um quarto sobre o custo de entrada das mercadorias atua como um fator de compressão sobre as margens operacionais das empresas e pode alterar a competitividade dos bens paraenses frente a concorrentes internacionais. Por fim, é válido sempre ressaltar que os reflexos dessa medida sobre o volume de exportações tendem a ser assimétricos, variando conforme a capacidade de absorção do aumento de preços pela demanda específica de cada produto", acrescentou.

Por esses motivos, o setor industrial paraense avalia que a tendência é que os setores paraenses mais dependentes do mercado norte-americano, que não estejam na lista de isentos, enfrentem aumento de custos e pressão competitiva, enquanto segmentos ligados a commodities estratégicas e produtos diferenciados possam sofrer impactos mais limitados. "O cenário reforça a importância da diversificação de mercados, estratégia que muitas empresas paraenses já vêm adotando ao ampliar negócios com países da Europa, Ásia e Oriente Médio, reduzindo a dependência exclusiva dos Estados Unidos".

Investigação dos EUA aponta práticas comerciais desleais do Brasil

A investigação comercial, conduzida pelo Escritório de Comércio dos EUA (USTR) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, concluiu que o governo brasileiro adota práticas que oneram ou restringem o comércio norte-americano. Entre as justificativas listadas estão o favorecimento ao sistema de pagamentos PIX em detrimento de empresas dos EUA, ordens judiciais sigilosas para remoção de conteúdo em redes sociais e a manutenção de acordos tarifários preferenciais com México e Índia. O relatório também aponta falhas na aplicação eficaz da legislação contra o desmatamento, a ausência de tratamento recíproco nas tarifas de etanol desde 2017, deficiências na proteção da propriedade intelectual e críticas ao combate à corrupção no país, citando processos como a anulação de casos da Lava Jato.

Antes de qualquer sanção definitiva, o governo americano estabeleceu um calendário de consultas. O prazo para solicitar participação na audiência pública vai até 22 de junho de 2026, com o envio de comentários por escrito permitido até 1º de julho de 2026. A audiência oficial está marcada para 6 de julho de 2026, enquanto a definição e a eventual aplicação das medidas corretivas têm como prazo limite o dia 15 de julho de 2026.

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