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Vendas físicas caem até 40% e lojas de Belém se reinventam para enfrentar avanço do comércio online

Com consumidores cada vez mais conectados, pequenos e médios lojistas apostam em WhatsApp, entregas e atendimento personalizado para manter competitividade diante do crescimento das vendas digitais

Jéssica Nascimento

O crescimento das lojas virtuais, marketplaces e vendas pelas redes sociais têm transformado a dinâmica do comércio em Belém, pressionando especialmente pequenos e médios lojistas a reverem estratégias para continuar competitivos. A mudança no comportamento do consumidor, impulsionada desde a pandemia, provocou queda no fluxo presencial em muitas lojas físicas, ao mesmo tempo em que acelerou a digitalização dos negócios tradicionais.

Em alguns estabelecimentos da capital paraense, a redução das vendas presenciais já chega a 40%. Para enfrentar a concorrência do e-commerce, comerciantes têm investido em atendimento híbrido, vendas pelo WhatsApp, entregas rápidas e experiências mais personalizadas, enquanto entidades do setor defendem inovação e integração entre os canais físico e digital.

Comércio físico sente impacto das mudanças no consumo

Na prática, o impacto do avanço do comércio online já é percebido diretamente pelos lojistas de Belém. A aposentada Elvira Barreto, que ajuda a administrar a loja física de roupas femininas da filha, relata que o movimento presencial caiu consideravelmente após a consolidação das vendas digitais, principalmente no período pós-pandemia.

“Depois do crescimento das lojas online, a nossa realidade mudou bastante. Antes a gente tinha mais pessoas na loja. Agora a gente tem muitas vendas por pedido mediante telefone. Da pandemia pra cá, uns 30% a 40% das vendas físicas caíram da loja”, afirma.

Segundo ela, enquanto consumidores mais jovens têm priorizado compras online pela praticidade, um público de faixa etária mais avançada ainda mantém o hábito de frequentar lojas físicas para experimentar produtos e interagir com vendedores.

“Principalmente o público mais jovem que não quer mais sair de casa compra tudo pela internet. Por outro lado, o público de uma idade média mais avançada gosta ainda de vir à loja, experimentar, conversar, pegar a mercadoria”, diz.

Mesmo sem possuir site próprio, a boutique passou a adotar vendas remotas e entregas como forma de sobreviver às mudanças do mercado. O modelo inclui pedidos feitos por telefone, entrega domiciliar e possibilidade de troca das peças.

“Quando a loja fechou, a gente continuava trabalhando através de vendas assim — por pedidos mesmo, entregas por telefone”, conta Elvira.

Presença digital deixou de ser diferencial e virou necessidade

Para o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Pará (Fecomércio-PA), Sebastião Campos, a expansão do comércio digital trouxe tanto oportunidades quanto desafios aos empreendedores locais. Ele estima que entre 25% e 35% dos empreendedores do segmento de moda em Belém atuem exclusivamente no ambiente digital.

Segundo Campos, lojistas que investem em tecnologia e redes sociais já observam aumento no faturamento, redução de custos operacionais e ampliação do alcance de mercado.

“O crescimento das vendas online e pelas redes sociais em Belém tem impulsionado o faturamento de pequenos e médios comerciantes, mas também trouxe novos desafios para as lojas físicas, que precisam se reinventar para manter a relevância”, afirma.

Por outro lado, ele alerta que negócios sem presença digital acabam perdendo competitividade. “Pesquisas indicam que cerca de 65% a 70% dos clientes demonstram maior confiança em empresas com presença digital, o que significa que negócios sem essa estratégia acabam restringindo seu alcance e comprometendo sua credibilidade”, diz.

Campos defende que a adaptação passa por investimento em capacitação, marketing digital e atendimento multicanal.

“Implementar inovação e tecnologias em todos os processos, treinar pessoas, investir em marketing, agilizar o atendimento e personalizar ofertas são os pilares para manter competitividade e crescer no ambiente digital”, ressalta.

Consumidor ainda valoriza experiência presencial

Apesar do crescimento das vendas virtuais, o atendimento físico ainda mantém um diferencial importante em Belém. Para Elvira Barreto, o contato humano e a possibilidade de experimentar os produtos seguem sendo atrativos valorizados por muitos clientes.

“O que os clientes procuram numa loja física que não encontram numa loja online é o toque na mercadoria. É o olhar. É a escolha. É também o convívio com os donos da loja”, afirma.

Ela observa ainda que muitos consumidores frequentam a boutique pela relação construída ao longo dos anos. “Tem clientes de anos que vêm aqui e muitas vezes nem compram, mas vêm para bater papo, vêm conversar”, acrescenta.

Na avaliação do gerente de Relacionamento e Marketing da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belém (CDL-Belém), Edson Nogueira, embora o consumidor da capital ainda valorize a compra presencial, a pressão competitiva do ambiente digital é inevitável.

“Há uma mudança no comportamento do consumidor, que pesquisa e compra cada vez mais online, inclusive em marketplaces internacionais. Isso representa um desafio, pois o dinheiro que poderia circular na economia local acaba sendo direcionado para fora da cidade”, avalia.

Integração entre físico e digital é aposta do setor

Diante da expansão do e-commerce, entidades ligadas ao varejo defendem que o caminho para a sobrevivência das lojas físicas está na integração dos canais de venda.

Segundo Edson Nogueira, estratégias como presença ativa nas redes sociais, vendas pelo WhatsApp e integração entre loja física e digital têm sido fundamentais.

“A integração omnichannel é fundamental, permitindo que o cliente tenha uma experiência fluida entre o online e o físico, como comprar online e retirar na loja”, destaca.

O diretor do Sindicato do Comércio Varejista e Lojista de Belém (Sindilojas), Muzaffar Said, também avalia que o comércio local já vem reagindo ao novo cenário.

“Em Belém, o comércio online pressiona as lojas físicas com busca por preços menores e maior variedade. No entanto, o comércio vem se adaptando. Muitos lojistas locais integram o físico e o digital”, afirma.

Ele argumenta que o diferencial do comércio tradicional está menos no preço e mais na experiência oferecida ao consumidor.

“A estratégia central exige focar em nichos específicos, oferecer um atendimento personalizado, agregar valor à experiência de compras e ter uma marca forte. O cliente compra valor e não apenas preço”, diz.

Muzaffar também destaca o uso do WhatsApp como ferramenta estratégica de aproximação com clientes. “Esse contato direto é o que as grandes plataformas não conseguem com a mesma proximidade”, conclui.