Self-service enfrenta pressão da inflação e empresários reinventam estratégias para manter clientes
Alta de alimentos básicos impacta custos e leva restaurantes a reduzir margem de lucro, adaptar cardápio e apostar em modelos mais flexíveis
A disparada no preço dos alimentos tem colocado os restaurantes self-service de Belém diante de um desafio crescente: como manter o negócio sustentável sem afastar clientes. Com a inflação local atingindo 1,31% em março de 2026 — acima da média nacional — empresários têm recorrido a diferentes estratégias para equilibrar custos e competitividade.
De mudanças no cardápio à absorção parcial dos aumentos, setor busca alternativas para enfrentar a alta de insumos, enquanto consumidores adaptam hábitos diante da perda de poder de compra.
Alta de insumos pressiona custos
A inflação de alimentos tem sido o principal fator de pressão para o setor. Itens básicos como feijão, tomate, cenoura e batata registraram aumentos expressivos, afetando diretamente o custo das refeições servidas diariamente.
A empresária Camila Cavalcante, que administra três unidades de self-service na capital, afirma que o impacto é inevitável.
“Sim, o aumento dos insumos tem impactado bastante no custo. Os itens que mais subiram foram hortaliças, verduras, tomate, cebola e alguns legumes, além de produtos básicos usados diariamente”, explica.
Para enfrentar o cenário, ela adotou medidas como diversificação de fornecedores e ajustes pontuais. “A gente conseguiu segurar os preços buscando fornecedores diferentes, correndo atrás de qualidade e preço”, diz.
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Redução de margem e ajustes graduais
Mesmo com esforços para conter os custos, muitos empresários precisaram abrir mão de parte do lucro para manter a clientela.
“Em alguns casos foi necessário reduzir um pouco a margem de lucro para manter os clientes e continuar oferecendo um preço acessível”, afirma Camila.
Ainda assim, ela reconhece que há limites: “Sempre tentamos segurar ao máximo o repasse para o cliente, mas quando o aumento é contínuo acaba sendo inevitável fazer ajustes graduais”.
A estratégia também inclui mudanças no cardápio.
“Às vezes é preciso adaptar, substituindo alguns itens mais caros por opções equivalentes, sem perder a qualidade”, acrescenta.
Estruturas enxutas ajudam a segurar preços
Outros empreendedores conseguem manter valores mais estáveis ao contar com custos operacionais reduzidos. É o caso de Nival Castro, dono de um self-service no bairro da Pedreira.
“Eu ainda não mexi muito nos meus preços devido ser ponto fixo. Eu não pago aluguel. Eu tenho energia solar. Então dá pra suprir uma coisa pela outra”, afirma.
No estabelecimento dele, o modelo é simples e focado no básico. “A gente trabalha com arroz, macarrão, feijão, baião e dois tipos de salada e farofa”, explica. Os preços começam em R$ 18, com variações conforme as opções.
Diferença de preços reflete modelo e localização
Enquanto alguns restaurantes apostam em preços populares, outros operam com valores mais elevados, dependendo da estrutura e do público-alvo.
No bairro de Nazaré, por exemplo, o empresário Beto Salomão cobra R$ 115 durante a semana e R$ 162 nos fins de semana e feriados. Segundo ele, a produção segue normal, inclusive de legumes, apesar das oscilações de preços.
Consumidor muda comportamento
Do lado dos clientes, a inflação já altera hábitos. A enfermeira Keila Vale afirma que tem ajustado suas escolhas no prato.
“Pago R$ 145 pelo self service atualmente. Coloco mais proteínas e evito itens mais pesados”, conta.
Apesar disso, ela diz não migrar para opções mais baratas, como o prato feito.
Segundo o economista Nélio Bordalo, membro do Corecon PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), essa mudança é generalizada.
“Há uma mudança perceptível de comportamento. Isso leva o consumidor a montar pratos mais leves, reduzir proteínas mais caras e, em muitos casos, migrar para o prato feito”, explica.
Self-service x prato feito: disputa por espaço
A percepção de que o self-service está mais caro também cresce entre os consumidores.
“Como o self-service expõe o preço diretamente ao consumidor no momento da pesagem, essa sensação de encarecimento se torna mais evidente”, afirma Bordalo.
Ele destaca que, em tempos de inflação, modelos com preço fixo ganham vantagem. “O prato feito oferece maior previsibilidade de gasto, o que é importante em um cenário de perda de poder de compra”, diz.
Ainda assim, o self-service mantém relevância. “O modelo por peso continua competitivo para quem consegue controlar bem a composição do prato”, completa.
Estratégias para economizar no self-service
Diante da alta dos preços dos alimentos, consumidores têm adotado medidas mais estratégicas na hora de montar o prato. Segundo o economista Nélio Bordalo, essas escolhas são uma resposta direta ao cenário inflacionário.
“Algumas práticas se tornam ainda mais relevantes em um cenário de inflação de alimentos. Essas decisões do consumidor refletem uma adaptação racional ao aumento do custo da alimentação”, afirma.
Entre as principais estratégias adotadas, ele destaca:
- Priorizar itens menos pressionados por preço, como saladas e legumes;
- Reduzir o consumo de proteínas mais caras, especialmente carnes;
- Evitar alimentos com maior densidade de custo, como frituras e massas pesadas;
- Comparar o preço do quilo entre diferentes estabelecimentos;
- Avaliar o prato feito quando a previsibilidade de gasto for prioridade.
Para Bordalo, o consumidor está cada vez mais atento ao custo-benefício das refeições fora de casa, ajustando hábitos sem necessariamente abrir mão do self-service.
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