Remédios sobem até 3,64% em Belém e pesam no orçamento de pacientes com tratamento contínuo
Alta nos medicamentos atinge principalmente remédios neurológicos, psicotrópicos e antibióticos; aposentados relatam dificuldade para manter tratamentos contínuos sem comprometer outras despesas
O aumento no preço dos medicamentos em Belém voltou a pressionar o orçamento de quem depende de tratamento contínuo. Dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de abril de 2026 mostram que os produtos farmacêuticos ficaram 1,06% mais caros na capital paraense, contribuindo para que o grupo saúde e cuidados pessoais fosse o segundo que mais impactou a inflação local. Entre os maiores reajustes estão medicamentos neurológicos (3,64%), psicotrópicos e anorexígenos (3,29%) e anti-infecciosos e antibióticos (2,83%). Para aposentados como Raimunda Almeida, que usa oito remédios e gasta mais de R$ 300 por mês com medicamentos pagos, a alta tem exigido cortes e pesquisa por opções mais baratas, sem possibilidade de interromper o tratamento.
Medicamentos essenciais pressionam renda familiar
O impacto do aumento dos preços tem sido mais sentido por pacientes que dependem de remédios contínuos e não têm margem para reduzir o consumo. Em Belém, o IPCA de abril mostra alta expressiva em categorias essenciais, especialmente medicamentos neurológicos, hormonais (2,68%), antigripais e antitussígenos (2,53%) e anti-inflamatórios e antirreumáticos (1,94%).
A aposentada Raimunda Almeida afirma que percebeu claramente o aumento nas farmácias e diz que os gastos passaram a comprometer ainda mais o orçamento doméstico.
“O preço dos remédios aumentou em abril aqui em Belém. Eu percebi. Isso afetou bastante meu orçamento”, relata.
Segundo Raimunda, os medicamentos para neuropatia e diabetes estão entre os que exigem compra frequente e não podem faltar. Dos oito remédios que utiliza atualmente, apenas dois são disponibilizados pela Farmácia Popular. O restante precisa ser comprado mensalmente.
“Uso oito remédios no total. Só dois são da Farmácia Popular. Os demais são pagos. Pelos remédios pagos, todo mês gasto uma faixa de mais de R$ 300. Sinto uma inflação nesses remédios. Pesou no orçamento”, afirma.
Pesquisa de preços vira alternativa
Diante da alta, consumidores têm recorrido à pesquisa de preços para tentar reduzir os impactos financeiros. No entanto, segundo Raimunda, nem sempre é possível encontrar alternativas mais baratas, especialmente no caso de medicamentos mais específicos.
“Eu pesquiso alternativas mais baratas. Tem alguns que não dá pra pesquisar o preço, porque eles só têm em uma farmácia. Se a gente demorar, eles podem não ter em outra farmácia”, explica.
Apesar de alguns itens terem apresentado queda, como oftalmológicos (-0,54%), antidiabéticos (-0,16%) e analgésicos e antitérmicos (-0,01%), a redução ainda não é suficiente para aliviar o peso no bolso de quem depende de diferentes medicamentos ao mesmo tempo.
Alimentação e saúde entram na conta
Para famílias com renda limitada, o aumento nos remédios acaba competindo diretamente com outras despesas essenciais, como alimentação. A situação é ainda mais delicada para pacientes crônicos, que não podem interromper o tratamento sem risco à saúde.
“Gastos com alimentação e medicamentos andam juntos. Tem remédios que não podem aumentar tanto. Os remédios contínuos eu não posso deixar de tomar”, destaca Raimunda.
Ela ressalta que suspender o uso, mesmo por pouco tempo, pode trazer consequências imediatas para o controle das doenças.
“Se eu deixar de tomar um remédio em um dia, a diabetes aumenta demais. Igual a alimentação da dieta. Não pode faltar”, conclui.
Genéricos entram como estratégia para economizar
Embora nem todos os consumidores tenham percebido imediatamente a alta nos preços, o custo dos medicamentos já leva muitos pacientes a buscar alternativas para manter o tratamento sem comprometer excessivamente o orçamento. O empresário Eberth Wanghon, que faz uso contínuo de remédios para controle da pressão arterial e colesterol, afirma que costuma recorrer aos genéricos quando os preços pesam no bolso.
Segundo ele, os medicamentos adquiridos com mais frequência são a losartana e a rosuvastatina. Mesmo sem notar um aumento expressivo recente nas farmácias, ele admite já ter precisado buscar opções mais acessíveis.
“Sinceramente eu ainda não percebi [o aumento]. Mas, quando é assim, eu sempre opto pelos medicamentos genéricos”, relata.
Ao comparar os gastos domésticos, Eberth avalia que a alimentação ainda pesa mais no orçamento mensal do que os remédios, embora reconheça a importância de ampliar o apoio para pessoas mais vulneráveis financeiramente.
“Fortalecer programas públicos de medicamentos, ampliar descontos para idosos, controlar reajustes abusivos e garantir acesso gratuito a remédios contínuos pelo SUS são medidas essenciais para dar mais dignidade e segurança a quem depende deles diariamente”, defende.
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