MENU

BUSCA

Queda no preço do cacau pressiona renda de produtores no Pará

Após período de valorização histórica, correção nas cotações reduz margens de lucro e preocupa agricultores, enquanto setor busca alternativas para enfrentar a instabilidade do mercado

Fabyo Cruz

Após um período de cotações historicamente elevadas, o preço do cacau voltou a cair e já provoca impactos diretos na renda de produtores rurais no Pará, principal estado produtor do país. A redução nas cotações é resultado de ajustes no mercado internacional e pode comprometer investimentos e a sustentabilidade da cadeia produtiva caso se prolongue. No mercado local, o quilo do cacau chegou a registrar diferenças de até R$ 50 a R$ 60 entre um ano e outro. Atualmente, há registros de pagamento em torno de R$ 12 por quilo, valor considerado baixo por produtores.

Presidente da cooperativa Coopatrans, sediada em Medicilândia, no sudoeste paraense, Tarcísio Venturin afirma que a oscilação de preços tem sido um fator de desestímulo, principalmente para agricultores familiares. Ele diz que o custo de produção varia entre R$ 9 e R$ 11 por quilo, o que reduz significativamente as margens de lucro.

“É um desincentivo muito grande chegar a um ponto desse, de não pagar nem o serviço para você colher o teu produto”, afirmou.

A cooperativa trabalha com amêndoas finas destinadas à produção de chocolates especiais, um segmento que agrega valor, mas também exige investimentos maiores. Venturin afirma que a busca por qualidade elevou os custos de produção: “Para você produzir hoje uma amêndoa fina, entre as melhores amêndoas do mundo, é preciso investir mais. Agrega valor, mas também aumenta a despesa”.

Ele destaca que o Pará possui cerca de 140 marcas de chocolate artesanal, muitas produzindo com amêndoa própria, o que aumenta a concorrência para cooperativas que comercializam o produto.

Venturin também aponta a carga tributária e a falta de políticas públicas como entraves ao crescimento do setor. “A gente tem uns encargos de imposto muito altos. É difícil sobreviver numa crise econômica do produto”, afirmou.

Segundo o dirigente, iniciativas como a inclusão do chocolate na merenda escolar poderiam fortalecer o cooperativismo local, mas ainda enfrentam dificuldades de implementação. “Olham para o cooperativismo, mas não olham para os produtos das cooperativas. Falta incentivo”, disse.

Ajuste após pico internacional

De acordo com o economista Everson Costa, supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Pará, a queda recente ocorre após um ciclo de forte valorização internacional causado por quebras de safra nos principais países produtores africanos.

“Houve um ciclo de forte valorização internacional motivado por quebras de safra na África. Com a recomposição parcial da oferta global, houve uma correção de preços”, explicou.

No Brasil, o cenário é influenciado pela dependência de importações, já que o país ainda não é autossuficiente na produção de cacau. Para o economista, no curto prazo a oscilação tem caráter mais técnico, mas fatores estruturais como clima e sanidade das lavouras também influenciam o mercado. “O mercado do cacau é muito sensível às condições climáticas e fitossanitárias, e isso também interfere na formação de preços”, afirmou.

Apesar das incertezas, Everson Costa avalia que o Pará tem condições de enfrentar melhor as oscilações devido à expansão recente da produção. “Estados com expansão produtiva e organização da cadeia tendem a apresentar maior capacidade de passar por esses choques, e o Pará se destaca nesse cenário”, disse.

Impactos sociais e econômicos

A queda dos preços preocupa principalmente pequenos e médios produtores, que possuem menor capacidade de armazenar a produção ou acessar crédito rural. Segundo o Dieese, a redução nas margens pode afetar não apenas as propriedades rurais, mas também a economia dos municípios produtores.

“Esses momentos de oscilação negativa tendem a reduzir margens de ganho, especialmente para pequenos produtores, que muitas vezes não têm capacidade de estocagem ou acesso a crédito”, afirmou Everson Costa.

Caso o cenário de baixa se prolongue, existe o risco de redução nos investimentos em tecnologia e renovação das lavouras. “Isso pode desestimular investimentos em produtividade e comprometer a competitividade e a geração de empregos na região”, disse o economista.

Estratégias para enfrentar a instabilidade

Especialistas apontam que a diversificação produtiva, o fortalecimento de cooperativas e a agregação de valor são estratégias importantes para reduzir a vulnerabilidade dos produtores. “Não existe uma solução única. As estratégias passam pela diversificação produtiva, organização em cooperativas e agregação de valor”, afirmou Everson Costa.

A queda das cotações também pode ter efeitos positivos para a indústria local de chocolate. “Com a matéria-prima mais barata, há possibilidade de ampliar a competitividade e a agregação de valor na indústria local”, explicou.

Suspensão de importações pode influenciar preços

Uma medida recente pode influenciar o mercado no curto prazo: a suspensão da importação de amêndoas de cacau da Costa do Marfim pelo governo federal, por razões fitossanitárias. A decisão atende a reivindicações de produtores, que vinham alertando para os riscos sanitários e para os efeitos da concorrência externa sobre os preços pagos no mercado interno.

Segundo o economista Everson Costa, a medida pode ajudar a sustentar os preços internos, pelo menos temporariamente: “A suspensão das amêndoas da Costa do Marfim pode ajudar a pressionar positivamente os preços internos, ao menos no curto prazo”.

Entre produtores, a decisão é vista como uma forma de proteger a produção nacional. Para Tarcísio Venturin, a importação de cacau estrangeiro dificulta a valorização do produto local. “Se a gente tem um produto de qualidade, não tem explicação trazer produto de fora para competir com o nosso. Isso acaba desvalorizando a produção”, afirmou.