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Queda do dólar pode aliviar preços de alimentos importados, mas efeito é limitado e gradual

Mesmo com a moeda americana abaixo de R$ 5, especialistas apontam que impacto no bolso do consumidor depende de uma série de fatores

Fabyo Cruz

A recente queda do dólar para abaixo de R$ 5,00 tem potencial para reduzir custos de alimentos importados no Brasil, mas o efeito sobre os preços ao consumidor deve ocorrer de forma parcial, desigual e com atraso. A avaliação é do economista e supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese/PA), Everson Costa, em entrevista concedida ao jornal O LIBERAL.

Segundo o economista, a cotação da moeda norte-americana girava em torno de R$ 4,99 na data da entrevista, dia 15 de abril, frente a cerca de R$ 5,87 no mesmo período de 2025 — uma queda próxima de 15% em 12 meses. Apesar disso, ele destaca que a inflação de alimentos ainda segue pressionada. Em março deste ano, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,88%, com o grupo alimentação e bebidas subindo 1,56% no mês.

“Um dólar mais barato tende a reduzir o custo de importação de mercadorias cotadas na moeda norte-americana. Isso pode baratear alimentos importados prontos, matérias-primas e insumos que entram na formação de preços no mercado interno. Entretanto, o impacto não é automático nem integral”, afirma.

De acordo com o especialista, o chamado “repasse cambial” — quando a variação do dólar chega ao consumidor — costuma ser apenas parcial e depende de fatores como estoques, contratos em vigor, concorrência e margens de lucro das empresas.

Defasagem no varejo

Outro ponto destacado pelo economista é o tempo necessário para que a queda do dólar seja percebida nas prateleiras. “Há um delay, porque o varejo e a indústria trabalham com estoques adquiridos a cotações anteriores. Além disso, existem contratos já fechados. Por isso, os preços podem demorar semanas ou até meses para refletir esse movimento”, explica.

Essa defasagem impede um repasse imediato e linear, o que contribui para a percepção de que a redução do câmbio nem sempre chega rapidamente ao consumidor final.

Quais produtos sentem primeiro

Entre os itens que tendem a reagir mais rapidamente à queda do dólar estão os alimentos diretamente importados. “Produtos como vinhos, azeites, bacalhau, salmão e queijos importados podem apresentar maior oscilação de preços”, diz Everson Costa.

Insumos industriais também podem ser impactados, já que fazem parte da cadeia produtiva de diversos alimentos. Por outro lado, itens básicos consumidos no dia a dia do brasileiro tendem a sofrer menos influência do câmbio.

“No caso dos alimentos básicos, o impacto é menor, porque grande parte é produzida internamente e depende muito mais de fatores como safra, clima, transporte e custos domésticos”, pontua.

Alívio limitado no bolso

Apesar da queda do dólar, a expectativa é de que o consumidor não veja uma redução significativa no custo da alimentação no curto prazo. “A tendência é de um impacto mais limitado do que muita gente imagina. O câmbio ajuda, mas não neutraliza sozinho a inflação dos alimentos”, afirma o economista.

Ele lembra que, mesmo com a valorização do real, produtos como tomate, cebola, batata, leite e carnes registraram alta recente, pressionando o orçamento das famílias.

Outros fatores pesam nos preços

Além do câmbio, diversos elementos influenciam a formação dos preços. Entre eles estão custos logísticos, combustíveis, energia, embalagens, carga tributária e despesas financeiras.

“Se a concorrência for menor em determinado segmento, parte do ganho com a queda do dólar pode ser absorvida pelas empresas, sem ser necessariamente repassada ao consumidor”, observa.

Importações e incertezas

A valorização do real também pode estimular o aumento das importações, ampliando a concorrência em alguns segmentos. Ainda assim, Costa ressalta que esse movimento não substitui a produção nacional.

Há ainda o risco de instabilidade cambial. “A flutuação do dólar é muito sensível ao cenário internacional, aos juros e às incertezas geopolíticas. Isso faz com que importadores e supermercados atuem com cautela, muitas vezes aguardando maior estabilidade antes de reduzir preços”, diz.

No cenário atual, a queda do dólar é vista como um fator positivo, mas insuficiente para provocar mudanças amplas no custo de vida. “O mais provável é algum alívio pontual em produtos mais diretamente ligados às importações, e não uma queda generalizada no preço dos alimentos no curto prazo”, conclui.