Preço de peixe dispara até 50% em Belém; veja espécies de pescado com maior alta
Segundo o DIEESE/PA, combinação entre defeso e chuvas intensas limita a pesca, reduz a disponibilidade de pescado e provoca reajustes acima da inflação em Belém
Os preços dos pescados nos mercados municipais de Belém registraram alta significativa em dezembro de 2025. O levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (Sedcon/PMB), comparou os valores com dezembro de 2024.
A elevação reflete uma combinação de fatores sazonais e estruturais, como o período de defeso e os efeitos do inverno amazônico. Estes elementos reduzem a oferta de pescado no Pará e pressionam toda a cadeia produtiva, incluindo os pequenos vendedores.
Vendedores das feiras de Belém afirmam que a alta não representa lucro. Pelo contrário, com o pescado mais caro na origem, o volume de vendas cai e a margem de ganho diminui, afetando a sobrevivência desses empreendedores.
Pescados: veja as espécies com maior alta de preços
De acordo com o Dieese, na comparação entre novembro e dezembro de 2025, a maioria das espécies pesquisadas apresentou aumento de preços. Os reajustes mais expressivos foram no bagre (17,60%), corvina (12,37%), piramutaba (11,59%), curimatã (10,11%) e filhote (9,74%).
Também subiram os preços da dourada (8,37%), do mapará (6,60%) e da tainha (4,90%). No acumulado de janeiro a dezembro de 2025, os aumentos superaram, em muitos casos, a inflação oficial do período, estimada em 4,26% pelo IPCA/IBGE.
A piramutaba liderou as altas no acumulado, com reajuste de 50,04%. Em seguida vieram a traíra (40,45%), pratiqueira (25,45%), sarda (23,11%) e cação (22,87%).
Pescadores param e vendedores lucram menos
Segundo o Dieese, a forte tradição de consumo de pescado na região faz com que qualquer redução na oferta impacte rapidamente os preços, especialmente nos períodos de maior procura. “A gente vende menos e lucra menos”, diz um peixeiro.
Na feira do bairro da Pedreira, Daniel Leitão, com quase 60 anos na venda de pescado, explica que o aumento de preços coincide com uma “pausa” natural dos pescadores. “No Natal e Ano Novo, os pescadores param, as empresas param. Só depois do dia 25 ou 30 eles voltam pro mar. Aí, só em fevereiro, o preço começa a normalizar”, relata.
Daniel Leitão afirma que a escassez eleva o custo de compra para os vendedores, que são obrigados a repassar parte do valor ao consumidor. Ele relata: “A dourada a gente encontra por 35 ou 40 reais o quilo. Aí tem que vender a 45 ou 50. Só que isso abaixa o lucro e a venda. Vende menos e ganha menos. O prejuízo é pra gente, que é pequeno empreendedor”.
Defeso e inverno amazônico dificultam a pesca
O cenário é reforçado por José Ribamar, também vendedor de pescado no mercado da Pedreira. Ele destaca que o problema não é apenas o preço, mas a dificuldade de acesso ao produto. “Chega o inverno, a maré fica mais alta, o peixe fica escasso. Muitos entram na piracema, entram no defeso, e fica difícil buscar”, explica.
De acordo com Ribamar, a redução da oferta afeta todas as espécies. “Um monte de peixe desaparece. Não é que o peixe ficou caro porque alguém quis. O custo aumenta pra todo mundo”, diz. Ele acrescenta que o custo operacional das embarcações também pesa. “Tem barco com 15, até 40 tripulantes. Esse lucro precisa ser dividido.”
Movimento cai e consumidor substitui proteína
Com os preços mais elevados, o reflexo é imediato no consumo. “A maioria se afasta um pouco”, afirma Ribamar. Segundo ele, atualmente o quilo do pescado mais barato custa cerca de R$ 17. Espécies como filhote e pescada amarela estão entre as mais caras.
Há mercados que enfrentam dificuldade para manter as bancas abertas. “Tem lugar que não consegue nem abrir porque não tem produto suficiente”, relata o vendedor.
Alta de preços é sazonal e tende a normalizar
Para Alessandro Rodrigues, que também atua no comércio de pescado, a situação é recorrente no início do ano. “Todo ano acontece isso. Os pescadores passam o ano todo fora e, no Natal e Ano Novo, vão ficar com a família. Aí não tem ninguém pescando e o peixe fica escasso”, explica.
Segundo ele, espécies como pescada e filhote subiram de R$ 35 para cerca de R$ 45 o quilo. “A gente compra caro e tem que aumentar. Se não aumentar, não compra nada”, diz. A expectativa, no entanto, é de queda nos próximos meses, com o aumento da oferta. “Na Semana Santa tem muito peixe. Aí fica mais barato do que agora.”
O que é o defeso
O defeso é uma medida legal de gestão pesqueira. É coordenada por órgãos ambientais, como o Ibama, e restringe ou proíbe a pesca de determinadas espécies durante o período reprodutivo. No Pará, ele ocorre geralmente entre novembro e março, coincidindo com a piracema de várias espécies consumidas pela população.
Além disso, o inverno amazônico é marcado por chuvas intensas, rios mais cheios e instabilidade climática. Isso dificulta o acesso às áreas de pesca, reduz os dias de captura e eleva os custos, especialmente para os pescadores artesanais.
Segundo o supervisor técnico do Dieese, Everson Costa, a combinação desses fatores reduz a oferta de pescado fresco. Isso pressiona os preços nos mercados municipais. Já o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, André Cunha, destaca que o cenário é estrutural e sazonal, sem relação com práticas abusivas por parte dos vendedores.
Mesmo diante das dificuldades, os peixeiros seguem trabalhando para manter as bancas abertas. A expectativa é que, com o retorno gradual dos pescadores ao mar e a redução dos efeitos do inverno amazônico, a oferta aumente e os preços se estabilizem. “Em fevereiro melhora”, resume Daniel Leitão.
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