MENU

BUSCA

Passagens aéreas sobem 41% em Belém e podem continuar pressionadas pela alta do querosene de aviação

Alta na capital paraense ficou três vezes acima da média nacional entre janeiro e julho, enquanto aumento do QAV eleva custos das companhias e preocupa viajantes

O Liberal

O preço das passagens aéreas subiu 41,04% em Belém no acumulado de janeiro a julho deste ano, mais que o triplo da alta de 13,69% registrada no Brasil no mesmo período, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado o índice oficial de inflação do país, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O avanço, que supera em 27,35 pontos percentuais a variação nacional, ocorre em meio à pressão de custos do setor e ao reajuste de 13,9% no preço do querosene de aviação (QAV), cenário que pode manter as tarifas elevadas nos próximos meses, de acordo com o economista Nélio Bordalo.

Em relação a junho, o preço das passagens aéreas registrou alta de 31,95% em julho na capital paraense, sendo 11,97% em todo o país. Já de julho de 2025 a julho de 2026 a alta foi de 56%, e 41,89% a nível nacional.

Ainda no início deste mês, a Petrobras reajustou o preço do querosene de aviação (QAV) em 13,9%, em média. A empresa atribuiu o aumento a reflexos da guerra no Oriente Médio, que causa problemas na logística da indústria do petróleo. De acordo com a estatal, o combustível passa a custar, na média, R$ 0,68 a mais por litro. Nas refinarias da companhia espalhadas pelo país, o novo preço do QAV varia de R$ 5,44 a R$ 5,70 por litro.

No dia a dia, há um consenso entre os viajantes: tem ficado cada vez mais difícil viajar de avião. Para a professora Rosângela Wiederkehr, de 42 anos, os preços das passagens não têm sido nada atrativos e, mesmo em deslocamentos dentro do estado, os valores têm pesado no bolso. Na semana passada, ela viajou de Altamira, onde ela mora, a Belém e relatou que encontrou pouca diferença nos preços, com relação a outras épocas do ano. A baixa nos preços não é uma realidade, na percepção dela. 

Para fora do estado, os voos ficam ainda mais caros. “A gente, quando vai pesquisar, infelizmente, se depara com um valor muito alto. Se você conseguir comprar antecipado tudo bem, mas em cima da hora é bem difícil. Tem que ir garimpando. Eu viajei em julho e agora novamente. Se for viajar, tem que ser no mínimo dois meses para você conseguir bons preços”, pontua.

Preços preocupam viajante

A professora Marenilza Loureiro, de 52 anos, também afirma que os valores pesam no orçamento, já que costuma viajar com frequência a Belém. Moradora do município de Chaves, no interior do Pará, ela precisa se deslocar de barco até Macapá para, de lá, utilizar o transporte aéreo com destino à capital, já que é mais rápido do que o deslocamento pelo rio.

“Para quem é professor, para os assalariados que precisam, às vezes, vir em função da saúde, buscar consultas, por exemplo, é caro. Eu achei caro. E não sei como vai ficar para o Círio, se vai encarecer, mas acredito que a tendência é que as passagens fiquem mais caras ainda do que estão. Para o Círio, estou pesquisando, ainda não consegui um pacote de passagem que eu pudesse comprar para vir e passar o Círio de Nazaré juntamente com a minha filha”, afirma Marenilza.

Para ela, sair de Chaves representa um desafio logístico e também financeiro. Com o aumento no preço das passagens, viajar de avião pode se tornar inviável, obrigando-a a optar pelo navio, apesar do tempo maior de deslocamento. “Ultimamente, eu não tenho viajado, só esse trecho mesmo. Os preços também acabam afastando as pessoas, porque, apesar de ser o transporte mais rápido, é caro para um professor”, diz. 

A escalada dos preços observada ao longo dos meses pode sofrer ainda mais pressão com a alta do querosene de aviação, segundo o economista Nélio Bordalo. O reajuste aumenta a pressão sobre os preços das passagens, mas não significa que o consumidor terá um aumento de 13,9% nas tarifas. O querosene de aviação é um dos principais componentes dos custos das companhias aéreas e responde por aproximadamente um terço das despesas do setor.

“O impacto sobre o passageiro deverá depender da capacidade das empresas de absorver parte desse aumento sem repassá-lo integralmente às tarifas. Em um mercado competitivo, a companhia precisa equilibrar o aumento de custos com a capacidade de pagamento do consumidor. Se aumentar muito a passagem, pode reduzir a demanda e a ocupação dos voos. Para os próximos meses, portanto, a tendência é de pressão sobre as tarifas, principalmente em períodos de maior procura, como feriados, férias e fim de ano”, comenta. 

A tendência é que o consumidor de Belém pode sentir esse efeito de maneira mais intensa se a oferta de voos permanecer limitada. E Nélio recomenda que os viajantes antecipem a compra de passagens para evitar surpresas. “Há ainda dois fatores que podem ampliar essa pressão: o preço internacional do petróleo e o câmbio. O setor aéreo possui parcela relevante de seus custos vinculada ao dólar, enquanto o preço do combustível acompanha as condições do mercado internacional. 

Alta de preços tem diversos fatores

O aumento significativo em Belém não deve ser atribuído a um único fator. A principal explicação está na combinação entre custos elevados, características específicas do mercado regional e oferta de voos. “Belém possui uma característica importante: é uma capital distante dos principais centros consumidores e empresariais do país e depende fortemente do transporte aéreo para conexões nacionais. Quando a oferta de assentos não acompanha a demanda, as tarifas tendem a subir com maior intensidade”, comenta Nélio.

“Além disso, as companhias utilizam sistemas de precificação dinâmica. Isso significa que o preço não é definido apenas pelo custo da viagem, mas também pela procura, antecedência da compra, ocupação dos voos, concorrência entre empresas e disponibilidade de assentos em cada faixa tarifária. Portanto, a diferença entre os 41,04% de Belém e os 13,69% nacionais revela também uma questão regional, uma vez que o mercado aéreo de Belém é mais sensível a desequilíbrios entre oferta e demanda”, acrescenta.

O cenário indica que as passagens aéreas deverão continuar pressionadas até o final de 2026, especialmente porque o custo do querosene de aviação já acumula aumento expressivo no ano. “Por outro lado, o aumento da oferta de voos e da concorrência entre companhias aéreas seria o principal mecanismo para conter os preços. Promoções, maior antecedência de compra e eventual redução dos custos de combustível também poderiam contribuir. Portanto, o consumidor não deve esperar necessariamente uma nova explosão das tarifas, mas também não há, neste momento, elementos suficientes para apostar em uma queda significativa nos preços das passagens”, diz Bordalo.