Pará tem 7 municípios com os piores índices de qualidade de vida do Brasil
Modelo de desenvolvimento pouco inclusivo, informalidade e êxodo de jovens explicam mau desempenho no IPS 2025.
Os dados mais recentes do IPS Brasil 2025 (Índice de Progresso Social) revelam um quadro alarmante para o Pará. O estado aparece com a maior concentração de municípios entre os piores índices de qualidade de vida do país, em um ranking dominado por cidades paraenses. Jacareacanga (40,04), Bannach (40,99), Trairão (42,08), Pacajá (42,86), Portel (43,25), São Félix do Xingu (43,33) e Anapu (43,39) figuram entre as dez piores pontuações nacionais, evidenciando desigualdades profundas dentro do próprio estado. Entrevistados pelo Grupo Liberal apontam que o resultado é consequência de um modelo de desenvolvimento pouco inclusivo, baseado em atividades econômicas de baixo impacto social, forte informalidade, precariedade de serviços públicos e incapacidade de transformar riqueza em bem-estar.
O IPS mede o bem-estar da população a partir de três grandes dimensões: Necessidades Humanas Básicas (como saneamento, água potável, moradia e segurança), Fundamentos do Bem-Estar (educação básica, saúde, acesso à informação e qualidade ambiental) e Oportunidades (direitos individuais, inclusão social e acesso ao ensino superior). Diferentemente do PIB, o índice não mede produção econômica, mas sim a capacidade de um território transformar crescimento em qualidade de vida, dialogando diretamente com o conceito de desenvolvimento humano.
Apesar da relevância econômica, territorial e estratégica para o Brasil — com forte presença do agronegócio, mineração, energia e logística — o Pará segue apresentando resultados sociais muito abaixo da média nacional. Enquanto Belém registra pontuação acima da média brasileira (62,33 contra 53,6) no IPS, grande parte do interior permanece marcada por déficits históricos de infraestrutura, serviços públicos precários e baixa capacidade de gestão municipal.
Baixa qualidade de vida afasta investimentos e trava o desenvolvimento
Para o economista paraense Genardo Oliveira, os baixos índices do IPS funcionam como um sinal de alerta para o mercado. “Empresas e investidores avaliam diversos fatores antes de instalar operações em uma região — e qualidade de vida é um dos principais”, afirma.
Segundo ele, municípios como Jacareacanga, Bannach, Trairão, Pacajá e Portel enfrentam custos operacionais mais elevados justamente pela precariedade social.
“A falta de mão de obra qualificada, a logística precária e a ausência de serviços básicos elevam o custo de produção”, explica.
Além disso, há o risco reputacional. “Operar em áreas com indicadores sociais críticos pode gerar pressão de órgãos ambientais, trabalhistas e da sociedade civil.”
Outro obstáculo é a dificuldade de atrair profissionais especializados. “Talentos evitam se mudar para regiões com infraestrutura deficiente e baixa oferta de serviços públicos”, diz Oliveira. O efeito direto é a concentração de investimentos em polos urbanos mais estruturados, ampliando ainda mais as desigualdades regionais dentro do estado.
Emprego formal, êxodo jovem e o custo econômico da exclusão social
A relação entre indicadores sociais e mercado de trabalho também é direta.
“Municípios com baixos indicadores sociais enfrentam déficit educacional, o que limita a formação de mão de obra qualificada, essencial para setores como indústria, tecnologia e serviços especializados”, destaca o economista.
Com isso, a informalidade se torna predominante. “A ausência de oportunidades formais leva à proliferação de atividades informais, com baixa produtividade e pouca proteção trabalhista”, afirma. Os setores mais impactados são comércio e serviços — dependentes da renda local — além da agropecuária e do extrativismo, que predominam, mas com baixa agregação de valor e pouca formalização. A construção civil também sofre, limitada pela escassez de investimentos públicos e privados.
A precariedade dos serviços básicos aprofunda o problema. “Educação precária reduz inovação e produtividade; saúde deficiente aumenta o absenteísmo; e saneamento ruim eleva riscos sanitários e dificulta a logística de produção e escoamento”, resume Oliveira. O resultado é um ambiente de baixa competitividade e pouca diversificação econômica.
Modelos de desenvolvimento e limites da política pública no Pará
Para a pesquisadora Auristela Correa Castro, bacharel em Gestão Pública e Educação pela UFOPA, os baixos resultados do Pará no IPS não são casuais, mas refletem escolhas estruturais de política pública ao longo do tempo.
“Os modelos de desenvolvimento propostos para a região primam por uma lógica voltada à produção de commodities direcionadas à exportação, o que perpetua velhos problemas, como a evolução do nível de pobreza da população”, afirma.
Segundo dados citados pela pesquisadora, a situação social permanece crítica. “De acordo com a Fapespa, em 2022 o nível de pobreza no Pará atingiu 60,89% da população”, destaca Auristela. Em termos de renda, o cenário também é desfavorável.
“O IBGE mostra que a renda domiciliar per capita do Pará chegou a apenas R$ 423 até 2024, uma das mais baixas do país, além de um índice de Gini de 0,492, que revela forte desigualdade”, apontou.
A dimensão ambiental se soma ao quadro socioeconômico. “O Pará ainda figura como o segundo estado em área desmatada em 2024, com 430,11 hectares por dia, ficando atrás apenas do Maranhão”, observa. Além disso, eventos extremos agravaram a vulnerabilidade social. “A seca extrema de 2023 deixou populações isoladas, sem acesso à água e em alto nível de vulnerabilidade social”, completa.
Para Auristela, a própria dimensão territorial do estado se transforma em obstáculo quando não há políticas públicas descentralizadas e adequadas à realidade amazônica.
“A grande extensão do Pará não é necessariamente um fator positivo para o desenvolvimento. Pelo contrário, ela impõe desafios logísticos e dificulta a implementação de infraestrutura e ações estatais, especialmente nos municípios distantes da capital”, explica.
Ausência de prioridade política explica resultados
Para o cientista político Armin Mathis, diretor do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA, os resultados do IPS revelam um equívoco recorrente na formulação de políticas públicas.
“A relação entre atividades econômicas e bem-estar social não é direta. Não significa que quanto maior a atividade econômica, maior será o bem-estar da população”, afirma.
Segundo ele, a chave está na estrutura econômica e social dos territórios. “É preciso observar fatores como a intensidade de capital das atividades. A mineração, por exemplo, exige investimentos altíssimos por posto de trabalho, enquanto a pecuária extensiva gera poucos empregos e ainda impede o uso da terra para atividades mais intensivas em trabalho, como a agricultura familiar”, explica.
Esse modelo ajuda a entender por que municípios economicamente ativos continuam com baixos indicadores sociais. A geração de riqueza não se converte em emprego, renda local ou melhoria dos serviços públicos, afetando diretamente os resultados do IPS.
Outro efeito visível é o movimento migratório desigual dentro do estado. “Os fluxos migratórios no Pará não são homogêneos. Há municípios que funcionam como polos de atração de mão de obra, como Belém e cidades mineradoras, enquanto outros perdem jovens, sobretudo da área rural, para áreas urbanas ou para outros estados”, destaca Mathis.
Dieese aponta economia frágil e informalidade estrutural nos municípios
Para Everson Costa, supervisor técnico do Dieese/PA (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o baixo desempenho no IPS não significa ausência de atividade econômica, mas sim um modelo pouco inclusivo e altamente informal.
“São municípios importantes do ponto de vista cultural, logístico, com corredor agropecuário e até possibilidades ligadas ao turismo. Eles têm uma importância significativa para a economia, mas muito informal”, afirma.
Segundo ele, a presença do emprego formal é reduzida em praticamente todos esses municípios.
“Eles geram emprego, mas não estão entre os grandes geradores de postos formais. A formalização é baixa”, explica.
A maior parte da empregabilidade está concentrada na administração pública, em comércios de pequeno porte e em serviços básicos, além de atividades de subsistência.
“Estamos falando de uma população ligada a atividades de subsistência, o que traz rendimentos baixos. O emprego informal é precarizado, desprotegido e remunera mal”, diz Costa.
O supervisor do Dieese também chama atenção para a forte dependência de programas sociais.
“O Pará é o segundo estado com maior dependência de programas sociais do Brasil, só perde para o Maranhão. Muito do que movimenta a economia local vem desses programas”, destacou.
Segundo ele, a ausência de corredores econômicos estruturados — como investimentos contínuos em mineração, agroindústria ou logística — limita o desenvolvimento de setores como comércio, construção civil e serviços.
“Esses fatores ajudam a explicar as pontuações extremamente baixas do IPS nesses municípios”, resume.
Jovens sem perspectiva e fuga de talentos
As consequências desse cenário são especialmente graves para a população jovem. “Se você tem escassez de empregos formais e muita informalidade, também tem baixa qualificação”, afirma Everson Costa.
Isso reduz drasticamente as alternativas de inserção produtiva local.
“Muitos jovens saem dessas áreas e vão para os grandes centros urbanos do Pará ou para outros estados, geralmente em busca de trabalho, muitas vezes se submetendo a ocupações precárias”, relata.
Mesmo aqueles que conseguem ingressar no mercado local enfrentam dificuldades para permanecer.
“É um mercado pouco robusto, com oportunidades que não remuneram bem. Todo profissional quer crescer, ascender. Sem perspectiva econômica, a juventude não vê uma permanência duradoura nesses municípios”, conclui.
O Grupo Liberal entrou em contato com o governo do Pará e aguarda as respostas para entender que políticas estão em curso ou planejadas para reverter esse quadro, quais recursos estão disponíveis e quais resultados concretos já foram alcançados.
Top 10 municípios com a pior qualidade de vida – IPS Brasil 2025
1º Uiramutã (RR): 37,59
2º Jacareacanga (PA): 40,04
3º Amajari (RR): 40,95
4º Bannach (PA): 40,99
5º Alto Alegre (RR): 41,07
6º Trairão (PA): 42,08
7º Pacajá (PA): 42,86
8º Portel (PA): 43,25
9º São Félix do Xingu (PA): 43,33
10º Anapu (PA): 43,39
IPS 2025 – referências gerais
- Brasil: 53,6 / 100
- Belém (PA): 62,33
Indicadores do IPS por município (pontuações)
Jacareacanga (PA):
- Necessidades Humanas Básicas: 45,19
- Fundamentos do Bem-estar: 40,42
- Oportunidades: 34,51
Bannach (PA):
- Necessidades Humanas Básicas: 55,62
- Fundamentos do Bem-estar: 36,63
- Oportunidades: 30,71
Trairão (PA):
- Necessidades Humanas Básicas: 55,93
- Fundamentos do Bem-estar: 36,41
- Oportunidades: 33,89
Pacajá (PA):
- Necessidades Humanas Básicas: 48,66
- Fundamentos do Bem-estar: 43,96
- Oportunidades: 35,95
Portel (PA):
- Necessidades Humanas Básicas: 46,48
- Fundamentos do Bem-estar: 45,97
- Oportunidades: 37,29
São Félix do Xingu (PA):
- Necessidades Humanas Básicas: 48,48
- Fundamentos do Bem-estar: 42,57
- Oportunidades: 38,93
Anapu (PA):
- Necessidades Humanas Básicas: 50,00
- Fundamentos do Bem-estar: 45,72
- Oportunidades: 34,45
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