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Pará tem 65 mil devedores do Fies com R$ 3,2 bilhões em dívidas

Em média, cada contrato no estado representa um débito de R$ 50.315,81, e 77,1% dos financiamentos estão com atraso superior a 90 dias

Jéssica Nascimento

Com 65.387 contratos devedores ativos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), o Pará acumula R$ 3,29 bilhões em dívidas junto ao programa federal, segundo dados de dezembro de 2025 do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), repassados ao Grupo Liberal. Em média, cada contrato no estado representa um débito de R$ 50.315,81.

Entre os relatos ouvidos, estudantes e jornalistas descrevem o Fies como porta de entrada para o ensino superior, mas também como fonte de preocupação e endividamento. A estudante Flávia Coutinho afirma que recorreu ao financiamento após perder o emprego. Já o jornalista Matheus Freire relata que enfrentou atraso nos pagamentos, viu o débito virar uma “bola de neve” e precisou renegociar a dívida. Em contrapartida, a jornalista Laís Souza avaliou que o financiamento valeu a pena e defende o programa como instrumento que viabilizou sua formação e ascensão profissional.

Na avaliação dos economistas Nélio Bordalo e André Cutrim, o alto volume de contratos e a inadimplência acima da média nacional refletem fatores estruturais da economia paraense, como renda média mais baixa, forte informalidade e dificuldade de inserção dos recém-formados no mercado de trabalho. 

Inadimplência supera média nacional

Do total de contratos ativos no Pará, 35.149 estavam com atraso igual ou superior a 90 dias na fase de pagamento até dezembro de 2025. O número corresponde a 77,1% dos contratos no estado — percentual superior à média nacional, que ficou em aproximadamente 65% no mesmo período. Os dados são do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Ao considerar apenas os municípios paraenses com 60 ou mais contratos ativos — critério adotado para evitar distorções estatísticas —, diversas cidades apresentam índices de inadimplência acima da média do país. Entre elas estão Santa Bárbara do Pará, Tomé-Açu, Mocajuba, Santo Antônio do Tauá, Breves, Floresta do Araguaia, Bujaru, Tucuruí, Marituba, Ananindeua, Breu Branco e Vigia, todas com taxas superiores a 65%.

Renegociações concentram casos mais antigos

Os dados do FNDE indicam que a maior parte das renegociações ocorre em contratos com mais de 360 dias de atraso, faixa que concentra o maior volume de casos e de valores envolvidos. Nesses casos, predominam cenários com descontos de 77% e 92%, o que demonstra que o público majoritário é formado por beneficiários em situação prolongada de inadimplência.

No Pará, foram registradas 7.906 adesões à renegociação. Ao todo, cerca de R$ 11,85 milhões foram arrecadados em pagamentos de entrada, valor que corresponde a aproximadamente 3,1% da dívida total anterior desses contratos.

Com as renegociações, o saldo devedor agregado caiu de cerca de R$ 382 milhões para R$ 81,3 milhões, resultado da combinação entre os descontos concedidos e os valores pagos à vista no momento da adesão.

“Só contrate se realmente não tiver como pagar”, alerta estudante

A estudante de jornalismo Flávia Coutinho, do 6º semestre, é uma das beneficiárias do programa. Ela acumula um saldo devedor de R$ 12.109,09, sem encargos e juros por atraso.

Flávia conta que conheceu o Fies pelas redes sociais e decidiu buscar o financiamento após enfrentar dificuldades financeiras.

“Paguei um ano de faculdade normalmente (Estácio), depois começou a apertar financeiramente, porque saí do meu emprego. Aí fiz o Enem e consegui o financiamento para o curso de jornalismo”, relata.

O financiamento dela não cobre 100% da mensalidade, o que exige pagamentos mensais durante o curso.

“Enfrentei algumas dificuldades para fazer o pagamento mensal, porque meu Fies não é 100%. Ainda tenho que pagar um valor por mês”, explica.

Sobre as regras do contrato, afirma que só compreendeu melhor no momento da assinatura: “Entendi quando fui assinar o contrato na Caixa. Não tinha conta na Caixa, aí tive que fazer uma”, disse.

Ainda cursando a graduação, Flávia não iniciou a fase de amortização da dívida, mas já se preocupa com o futuro. “Preocupações de como vou conseguir dinheiro pra pagar depois de formada. Pois o mercado de trabalho em Belém está bastante saturado”, diz.

Para quem pensa em aderir ao programa, ela faz um alerta: “Só contrate se realmente não tiver como pagar uma faculdade. Porque é uma dívida enorme pra vida toda.”

Expansão do ensino privado e renda mais baixa

Segundo Nélio Bordalo, economista e membro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA/AP), o cenário atual está diretamente ligado ao processo de ampliação do acesso ao ensino superior privado na última década, aliado às condições socioeconômicas do estado.

“O elevado número de contratos ativos e o volume expressivo do saldo devedor no Pará refletem, sobretudo, a combinação entre expansão do ensino superior privado na última década e a limitada capacidade de pagamento de uma parcela significativa das famílias paraenses”, afirma.

O economista destaca que o Pará possui renda média inferior à média nacional e grande presença de estudantes oriundos de famílias de baixa renda, que dependem do financiamento para ingressar na graduação.

Ele também lembra que houve um período de ampla concessão do Fies, especialmente entre 2010 e 2014. “As condições eram mais acessíveis e a adesão de estudantes foi massiva. Muitos desses contratos ainda permanecem em fase de amortização”, explica.

Outro fator apontado é o crescimento insuficiente da oferta de vagas públicas em comparação à demanda.

“No Pará, a oferta de vagas públicas não cresceu no mesmo ritmo da demanda, o que direcionou milhares de estudantes para instituições privadas com apoio do financiamento estudantil”, observa.

Para Bordalo, o alto estoque de contratos é resultado de três fatores principais: a expansão anterior do programa, a renda média mais baixa da população e a forte dependência das instituições privadas para absorver a demanda por ensino superior.

Bola de neve e renegociação

O jornalista Matheus Freire também recorreu ao Fies para concluir o curso superior em uma instituição particular. Na época, recebeu 80% de financiamento. “Era a melhor alternativa, pois não tinha dinheiro pra bancar a mensalidade integralmente. O que pesou mesmo foram os juros”, afirma.

Ele conta que enfrentou dificuldades ao deixar de depositar, por um período, o valor que seria debitado automaticamente.

“Teve uma época que eu parei de depositar, e aí o valor foi só aumentando. Quando eu vi, já estava uma bola de neve”, lembra.

A situação se agravou quando entrou de férias do trabalho.

“Quando depositaram as minhas férias na conta que era vinculada ao financiamento, perdi todo o meu salário mais as férias. Por outro lado, fiquei aliviado, pois aquela dívida enorme havia sido quitada”, revelou.

Após procurar a agência bancária, conseguiu renegociar o saldo restante. “Tive a opção de parcelar em 15 vezes. Todo mês eu tinha aquela obrigação de enviar o valor pra conta, uma responsabilidade que adotei e consegui me livrar em janeiro deste ano. Agora estou aliviado”, disse.

Ao todo, a dívida chegou a R$ 17 mil, já com encargos e juros.

“Eu pagava R$ 380 por mês, em 15 vezes; mas tive a opção também de pagar à vista, que dava R$ 5 mil”, detalhou. 

Apesar do impacto, ele afirma que conseguiu se organizar. “Não comprometeu, pois era uma parcela acessível para o meu caso. A gente começa a trabalhar e já sabe que tem uma obrigação. Pra não ficar sujo, é melhor se organizar pra poder ficar limpo na praça”, contou.

Mercado de trabalho e dificuldade de pagamento

Na avaliação de Nélio Bordalo, a inadimplência não pode ser vista apenas como uma questão individual, mas como reflexo das condições do mercado de trabalho local.

“O problema da inadimplência não deve ser analisado apenas como uma questão individual, ele está fortemente ligado à dinâmica do mercado de trabalho paraense, à renda média da população e ao ritmo de absorção de profissionais qualificados pela economia local”, afirma. 

De acordo com ele, a principal dificuldade ocorre na transição entre a formatura e a entrada efetiva no mercado de trabalho.

“Muitos estudantes concluem o curso com expectativa de melhoria rápida de renda, mas encontram um cenário diferente, como demora para conseguir emprego na área de formação ou ingresso em vagas com salários iniciais baixos”, diz.

Bordalo ressalta que a estrutura econômica do Pará é concentrada em setores como comércio, serviços e atividades primárias, que nem sempre absorvem profissionais de nível superior com remuneração compatível. Além disso, a forte presença de informalidade reduz a estabilidade da renda.

“Quando o recém-formado consegue emprego formal, o salário inicial muitas vezes é insuficiente para arcar, ao mesmo tempo, com despesas básicas, como moradia, transporte e alimentação, além do compromisso financeiro com as parcelas do Fies. O ex-estudante certamente prioriza pagar outras contas para sua própria sobrevivência ou de seus familiares e deixa de pagar o Fies”, pontua.

“Financiei meus estudos”: paraense defende programa 

A jornalista Laís Souza também concluiu a graduação com o apoio do Fies, na modalidade antiga do programa. Ainda no ensino médio, decidiu cursar jornalismo e foi aprovada com bolsa parcial. “Rapidamente fiz minha matrícula e logo comecei a cursar. Meu contrato é do antigo Fies, na época eu pagava os juros do financiamento a cada três meses”, explica.

Segundo ela, as regras ficaram claras desde o início.

“Quando assinei o contrato, ainda no banco foi explicado como seria todo o pagamento, quanto eu pagaria em cada parcela e até quando pagaria. Antes mesmo de iniciar as aulas eu já tinha noção do que me esperaria depois da formatura”, contou.

Durante o estágio, já se preparava financeiramente para o início da cobrança integral. “O Fies é uma das minhas prioridades financeiras. Atualmente trabalho na área em que me formei e me organizo todo mês pra não atrasar e sempre pagar em dia”, disse.

Embora tenha enfrentado dificuldades pontuais, Laís avalia que o financiamento valeu a pena.

“Algumas pessoas financiam veículos e imóveis, eu financiei meus estudos. Sou extremamente grata por ter meu diploma atualmente”, analisou.

Ela destaca ainda o impacto social da formação. “Venho de uma família em que é possível contar nos dedos quem chegou ao curso superior e com um histórico extremamente misógino, em que as mulheres não tiveram muitas oportunidades de crescer profissional e academicamente. Fazer uma faculdade e receber um diploma é extremamente gratificante”, concluiu. 

Renegociação alivia, mas não resolve estoque da dívida

Para o economista paraense André Cutrim, também membro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA/AP), o Fies deve ser analisado como uma política pública estruturante.

“O Fies precisa ser compreendido como um instrumento estruturante de política pública voltado à democratização do acesso ao ensino superior, ao mitigar restrições de liquidez enfrentadas por famílias de renda baixa e média ao converter expectativa de renda futura em investimento no presente em capital humano”, afirma.

Segundo ele, no Pará — onde há 65.387 contratos ativos e saldo aproximado de R$ 3,29 bilhões — o programa tem dimensão estratégica não apenas na inclusão educacional, mas também na formação de mão de obra qualificada em um estado marcado por heterogeneidade estrutural e elevada informalidade.

Sobre o programa de renegociação, como o Desenrola Fies, Cutrim avalia que há efeitos positivos, mas com limites. “A renegociação produz efeitos relevantes sobre o serviço da dívida ao reduzir encargos acumulados por atraso e, principalmente, ao reorganizar o cronograma de pagamento, o que tende a recompor o fluxo financeiro do fundo no curto prazo”, explica.

Efeitos no consumo e no acesso ao crédito

Além do impacto individual, a inadimplência do Fies também gera reflexos mais amplos na economia local, segundo Cutrim.

“A inadimplência do Fies produz efeitos que ultrapassam a esfera individual do contrato educacional e alcançam a economia local, sobretudo ao comprometer a renda disponível dos egressos e reduzir a capacidade de dinamização do consumo”, afirma.

No plano regional, a manutenção de elevado estoque de contratos em atraso compromete a previsibilidade do fluxo financeiro do fundo público e pode exigir ajustes fiscais. Ao mesmo tempo, limita o potencial de expansão da demanda agregada, já que parte da renda dos ex-estudantes é direcionada à regularização de passivos.

No âmbito individual, o impacto é direto sobre o histórico de crédito.

“A inadimplência impacta diretamente o histórico cadastral desses ex-estudantes, elevando o status de risco e reduzindo a probabilidade de aprovação em outros financiamentos, como habitacionais, veiculares ou crédito produtivo”, explica.

Ele destaca ainda que, quando o crédito é concedido, tende a ter custo mais elevado. “Esse efeito pode provocar um encadeamento negativo sobre o consumo de bens duráveis e semiduráveis, pois famílias com restrições cadastrais acabam enfrentando barreiras para parcelamentos e crédito rotativo”, diz.

Como funciona o Fies e quem pode participar

O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) é um programa do governo federal que oferece financiamento a estudantes matriculados em instituições privadas de ensino superior.

Por meio do programa, o estudante contemplado obtém uma espécie de empréstimo, que deverá ser pago após a conclusão do curso. O valor não é repassado diretamente ao aluno; ele é utilizado para abater as mensalidades da graduação.

O percentual financiado pode variar, chegando a até 100% no caso dos beneficiários do Fies Social.

Após finalizar o curso, o estudante deve começar a quitar a dívida, com parcelas calculadas de acordo com sua renda.

Podem solicitar o financiamento os candidatos que:

  • tenham participado de alguma edição do Enem a partir de 2010;
  • tenham obtido média mínima de 450 pontos nas quatro áreas do exame (Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Linguagens e Matemática) e nota acima de zero na redação;
  • tenham renda familiar mensal bruta per capita de até três salários mínimos.

Criado em 2024, o Fies Social é uma modalidade do programa voltada a estudantes de baixa renda, com condições mais vantajosas de financiamento em faculdades particulares.

Nessa versão, o financiamento pode chegar a 100% para os alunos mais vulneráveis. A principal diferença é que, para participar, o candidato precisa ter renda familiar por pessoa de até meio salário mínimo e estar inscrito no CadÚnico, sistema do governo federal que reúne informações sobre famílias de baixa renda em todo o país.

Dívida total e contratos

  • Total de contratos ativos no Pará: 65.387
  • Dívida total junto ao Fies: R$ 3,29 bilhões
  • Débito médio por contrato: R$ 50.315,81

Inadimplência

  • Contratos com atraso ≥ 90 dias: 35.149
  • Percentual de contratos inadimplentes no Pará: 77,1%
  • Média nacional de inadimplência: ≈ 65%
  • Municípios com ≥ 60 contratos ativos e inadimplência acima da média nacional: Santa Bárbara do Pará, Tomé-Açu, Mocajuba, Santo Antônio do Tauá, Breves, Floresta do Araguaia, Bujaru, Tucuruí, Marituba, Ananindeua, Breu Branco e Vigia

Renegociações

  • Contratos renegociados: 7.906
  • Valor arrecadado em pagamento de entrada: R$ 11,85 milhões (≈ 3,1% da dívida desses contratos)
  • Saldo devedor antes das renegociações: R$ 382 milhões
  • Saldo devedor após renegociações: R$ 81,3 milhões
  • Descontos aplicados em renegociações: 77% a 92%
  • Maioria das renegociações: contratos com mais de 360 dias de atraso

Fonte: Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE)