Pará avança na bioeconomia, mas ainda enfrenta gargalos em infraestrutura e retenção de talentos
Segundo diretor de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da CNI, estado tem potencial para liderar inovação industrial na Amazônia, mas precisa fortalecer financiamento, logística e ecossistema de startups
O Pará reúne condições promissoras para se consolidar como polo de inovação industrial baseado na bioeconomia, impulsionado pela biodiversidade e crescimento logístico. No entanto, desafios como a falta de infraestrutura adequada, a evasão de talentos e a necessidade de modelos mais estruturados de financiamento ainda limitam o avanço do setor, segundo avaliou de Jefferson Gomes, diretor de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da CNI (Confederação Nacional da Indústria), em entrevista ao Grupo Liberal.
Quais são os principais dados sobre inovação na indústria do Pará que o senhor pode apresentar aqui pra gente hoje?
Jefferson Gomes: Quando a gente fala sobre inovação, a gente fala sobre alguns pilares. Então, quando eu vou falar a respeito, por exemplo, de infraestrutura, a característica de infraestrutura necessária para que uma empresa possa desenvolver novos negócios, o Pará ainda tem um longo percurso a caminhar, mas é o mundo todo que tem um percurso a caminhar, porque na área de biotecnologia são mais de 270 espécies que estão catalogadas.
Considerando a biodiversidade da Amazônia, você ainda tem muito chão para caminhar, e para isso se precisa de muitos equipamentos. Para essa indústria de bioeconomia funcionar, a gente também precisa que essa indústria esteja preparada para estar. A gente tem muita infraestrutura dentro das academias, não tanto quanto a gente imaginava ter, mas para essa indústria proliferar, crescer, ela vai precisar de infraestrutura.
Por exemplo, um caso prático - o pirarucu. O pirarucu tem um lugar mais comum para desenvolvimento social, para desenvolvimento da culinária, para desenvolver o que você imaginar. Mas vocês sabem que, por exemplo, no pirarucu tem uma glândula específica do peixe, em que você pode desenvolver medicamentos para o câncer?
A gente tem essa infraestrutura para continuar fazendo essas pesquisas, ou a gente manda essa glândula para fora do país para pesquisar lá fora do país, e assim vai. Portanto, se você quer conversar sobre bioeconomia, é fundamental que você tenha infraestrutura. A infraestrutura foi, inclusive, um dos pontos mais elencados pelas pessoas entrevistadas durante nossos eventos.
O segundo ponto mais elencado foi a evasão de talentos. Mesmo a gente sabendo que tem programas do Sebrae que são muito competentes, mesmo a gente sabendo que tem mais de 200 startups numa única cidade – e olha que eu não falei de Santarém, que está fazendo um trabalho magnífico –, a evasão de talentos é muito alta.
Como é que você garante que essas pessoas fiquem? Se elas puderem enxergar a infraestrutura e os modelos de negócios, se quiserem ser empreendedores, se quiserem ser funcionários, eles têm que garantir certas estabilidades para os negócios acontecerem. Para isso, planos devem ser desenvolvidos para sustentar e para financiar grandes programas de bioeconomia. Isso a gente ainda não tem muito maduro no estado do Pará. Está a caminho, está no percurso.
É importante dizer que, para você fazer pesquisa, você tem que ter acesso a todos os nossos meios digitais. Eu posso dizer com muito orgulho que são mais de 13 mil quilômetros de fibras ópticas que estão instaladas de maneira subfluvial pelo Norte do Brasil. Este, inclusive, é um dos problemas que o pessoal fala. Falam que tem poucas fibras ópticas.
Mas, poxa vida, vamos pensar num copo meio cheio? 13 mil km de fibra óptica. É um número importante. Significa que esse número tende a crescer ao longo do tempo. Se você quer desenvolver uma indústria, nem que seja dessa área, na área de bioeconomia, é fundamental que essa indústria tenha também a infraestrutura logística.
O Sistema Arco Norte está sendo desenvolvido e dizem os especialistas que pode mitigar em 95% a quantidade de emissões na logística. Isso é um número relevante. Tem um programa da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) que inclusive está promovendo o desenvolvimento de máquinas que andem nos rios com mais velocidade. Tem o aerobarco que está sendo projetado, mas tem outros projetos com geração de energia de outras formas para que essa logística aconteça.
Quando eu vejo isso, eu consigo enxergar também grandes chances de crescimento, porque o porto de Belém do Pará cresce 10% ao ano. Ou seja, são auspiciosos (promissores, favoráveis) os números relativos à possibilidade. Mas nunca vamos esquecer que os números de crescimento nossos relativos à infraestrutura, desenvolvimento de pessoas, modelos de negócios, regulações e legislações, apesar de todos eles melhorarem ao longo do tempo e crescerem, essas são as principais reclamações. Portanto, se a gente tem reclamação, é porque temos uma sociedade que está utilizando isso.
Se a sociedade está utilizando isso, significa dizer que a gente tem uma oportunidade, porque qualquer crescimento ali gera resultado de impacto.
Quais são os maiores desafios para ampliar a inovação na indústria, especialmente na região Norte?
Essa é uma pergunta que não é para a região Norte. É para a sociedade mundial. A gente tem um mundo geopoliticamente complexo. Você está vendo um monte de guerras acontecendo. A gente tem uma mudança do eixo de poder que nós, seres humanos que estamos vivos, estamos acompanhando. São poucas gerações que vão ter a chance de acompanhar essa mudança de poder.
É como na época da Portugal e Espanha indo para a Inglaterra, depois da Inglaterra indo para os Estados Unidos, agora a gente tem a China passando (a ser a potência econômica mundial). A gente vive um momento muito histórico. Isso muda a cadeia global, consequentemente muda todo o sistema de tecnologia e inovação de cada país.
Portanto, considerando esses desafios, e considerando que ainda o nosso país é um país com várias lacunas, lacunas no custo do Brasil, lacunas tributárias, lacunas de legalidade, a gente tem um problema muito sério com a ilegalidade.
Todos os nossos desafios que passam pelo aeroespaço, por exemplo, eles passarão para o aeroespaço para o agronegócio, para o aeroespaço para a defesa, para o aeroespaço para a segurança pública, com os mesmos tipos de tecnologias.
Quando você falar de bioeconomia, você vai falar de bioeconomia para combustíveis, mas para insumos químicos, mas para cosméticos, mas para medicamentos, mas para alimentos. É importante dizer que o mundo corre por uma busca alimentar muito alta. A gente tenta fornecer alimentos para as populações do mundo todo. Isso não é uma situação trivial. Promover alimentos significa muita energia, muita água e, consequentemente, muita logística.
Construir esses tipos de ambientes é difícil. Pegue a Amazônia como exemplo. Só um programa das Organizações das Nações Unidas (ONU) coloca US$ 22 bilhões na economia da Amazônia por ano para fazer projetos que mantenham a floresta em pé. Isso é importante. Trabalhar isso é uma mudança de ótica, de pensamento muito grande. Não dá para pensar na mesma lógica de uma cidade industrial.
Você não pode almejar a mesma lógica de uma cidade industrial para um modelo completamente novo de sociedade, que é o modelo da região Norte, basicamente, que é tirar o proveito de toda a biodiversidade sem prejudicar a biodiversidade. Esse exercício não é um exercício simplório. É um exercício que demanda muita construção coletiva.
Então eu acho ótimo que haja o pessoal desenvolvimentista que queira fazer a tecnologia. Eu sou desse povo que quer fazer rapidamente a tecnologia ser implantada, que quer fazer o negócio acontecer rapidamente, que quer ter a regulação e a lei garantindo para que os negócios ocorram, quer diminuir o custo do Brasil. Eu sou dessa turma.
Mas vamos pensar que eu sou da turma antiga. Esse é o modelo de mundo como o mundo foi plantado. Como é que a gente foi plantado no nosso mundo? O nosso mundo é plantado para que a gente consuma cada vez mais. Aí tem o PIB. O PIB cresce. Que bom que tem pessoas que pensam de forma divergente. Que bom que tem aqueles que não gostam do crescimento industrial do jeito que a gente pensa. Que bom que existem essas pessoas antagônicas para que a gente ache o meu termo.
Mas, de modo geral, a gente tem que ter projetos mais bem estruturados para financiamento, para desenvolvimento de negócios, para bioeconomia na Amazônia, considerando todos esses pontos que eu coloquei de infraestrutura, de gente, de modelos de negócios, de regulações, de legislações.
A gente tem que ter modelos mais bem estruturados. Tem que trabalhar isso com os governos de plantão. Não importa qual a matiz ideológica que esse governo tem. Você tem que trabalhar nessas características. Porque isso aqui é o crescimento da sociedade, que é a melhoria da qualidade de vida da sociedade, respeitando culturalmente o que significa qualidade de vida.
Também a gente precisa, além de financiamento para pesquisa, financiamento da infraestrutura necessária para que você possa escoar, para que você possa comunicar, para que você possa usufruir.
O que eu tenho a dizer é que vocês deram um caso simplório. Vocês organizaram a principal conferência do planeta, que foi a COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas). Vocês organizaram. Então vocês são referência. Todo mundo tem que tirar o chapéu para vocês.
Vocês conseguiram organizar em uma situação extremamente complexa um encontro mundial. Se vocês conseguiram organizar de maneira logística, de maneira de organização de pessoas, de relações organizacionais e estruturais para o processo da COP 30, se vocês conseguirem fazer isso, tudo que eu estou falando para você é possível fazer.
Tudo é possível. Porque se eu chego numa cidade, encontro mais de 200 startups querendo trabalhar somente com bioeconomia, qual é a conversa que eu vou estabelecer? Vamos fazer mais. Tudo que a gente fizer é pouco. Nada vai ser suficiente. Então o arcabouço da nossa história é muito simples. Tudo que a gente fizer é pouco.
A Amazônia pode se tornar um polo estratégico de inovação industrial no país? Se sim, o que falta pra isso acontecer?
Ela pode com certeza ser como qualquer região do mundo. No final das contas, são pessoas que fazem. Não são arcabouços. Não são marcas. São pessoas. Então, todo mundo que coloca um mínimo de planejamento relacionado ao desenvolvimento de pessoas, organizações e relações em quantidade, qualidade e sistemática, pode montar sistemas existentes. Tem vários casos no planeta.
Por que a inovação não surgiu em Detroit, que era a cidade da indústria dos Estados Unidos, e foi surgir na Califórnia? Surgiu na Califórnia por um simples fator - porque lá tinha a indústria do cinema. E a indústria do cinema, naquela época, tinha conglomerados que se uniam para fazer o quê? Uma obra, não uma empresa.
Então, eles faziam um filme, e para ter filme tinha que ter advogado, tinha que ter ator, tinha que ter uma pessoa que soubesse o som, que soubesse filmar. Você tinha um conjunto de pessoas responsáveis para fazer aquela missão acontecer.
Se a gente determinar que tem uma missão específica para acontecer, por exemplo, desenvolvimento de medicamentos a partir de sistemas dos animais, da fauna local, a gente vai ter que correr para desenvolver medicamentos nas agências regulatórias, como a Anvisa.
A gente tem que trazer as melhores pessoas de genética para entender os assuntos, tem que ter infraestrutura. Percebe? Você tem que construir o arcabouço em quantidade e qualidade sistemática. Então, a pergunta, quando você fala para o Norte, para mim é meio abstrata, porque o Norte, para mim, é um continente.
Agora, se você falasse para mim o que Belém do Pará tem que fazer, o que Santarém tem que fazer, o que eu aprendi é que ações globais aplicadas no local são sempre importantes. A gente chama isso de globalização. Se eu quiser pegar a estratégia de Belém do Pará e simplesmente copiar e enfiar em Santarém, não vai funcionar.
Eu tenho que entender como funciona, porque as variáveis são as mesmas. O que eu tenho que cuidar é daquele conjunto que está ali. Mas eu partiria bem claramente de projetos estratégicos com esse Parque Tecnológico de Belém do Pará, com essas 200 startups.
O que eu preciso fazer para que essas 200 startups sejam grandes em um espaço temporal de 10 anos? Eu quero que 10% dessas startups proliferem, consequentemente montem nos seus centros de desenvolvimento de produtos na região, possam empregar mais.
Consequentemente vão ter mais infraestrutura, vão vender mais, vão pagar mais impostos, o meu Estado vai ficar mais rico, eu invisto mais em desenvolvimento de outras startups e assim vai. Eu tenho que fazer o ecossistema funcionar. Isso parece trivial, mas não é não.
Isso é bem complexo, super, depende muito da capacidade de muitos atuarem e poucos aparecerem, poucos quererem aparecer. É um processo. Quem tem que aparecer são as empresas que vão ser grandes.
Como Belém pode se transformar em polo industrial sustentável e se desenvolver mais ao longo do tempo com uma indústria local forte?
Posso dar vários exemplos de lugares que nunca tiveram indústrias, são mecas tecnológicas do planeta ou do país. Eu posso pegar a Califórnia. A Finlândia não tinha nada, nenhuma indústria e hoje é um marco de inovação do planeta, porque ela tinha a habilidade de ter energia com baixo custo.
No Brasil, a gente pode pegar Florianópolis, que é uma cidade turística. Não tem uma fábrica. Aliás, é proibido ter fábrica em Florianópolis e ela é uma das principais capitais tecnológicas do país, assim como Recife, um porto digital que não tem uma fábrica lá e se transformou.
Qual a grande semelhança desses lugares todos? A semelhança é que basicamente você pode desenvolver a partir de um conjunto de pessoas, modelos organizacionais, infraestrutura local, você consegue estabelecer os pontos para o negócio principal.
Como começaria Belém do Pará? Quais são as temáticas dessas 200 startups de base tecnológica? São para cosméticos? São para bioinsumos? São para medicamentos? Ou seja: você tem que fazer para aquele negócio existir, você tem que criar as condições de contorno. Não é a mesma condição de contorno desenvolver um medicamento e desenvolver um cosmético.
Tem outras regulações, tem outro perfil de pessoas, tem outras tecnologias necessárias. Apesar dos dois serem na mesma rota, a genética é completa, o lance de desenvolvimento do data center para genética é completamente distinto. Você tem que fornecer as condições de contorno para que cresçam esses negócios. A gente confunde muitos negócios com TRL (Nível de Maturidade Tecnológica). TRL é a prontidão tecnológica existente para uma coisa existir.
Então pode ser que eu tenha um TRL muito elevado para desenvolvimento de bioinsumos, mas eu não tenho o mercado. O mercado vai depender da relação com a demanda, a conexão com o mercado dos compradores, a conexão com a logística, a conexão. Você tem que saber de onde a demanda tá pedindo.
Começaria por aquelas 200 startups e fazia as universidades, fazia os parques tecnológicos, fazia a logística. As empresas novas não surgiram porque um governo falou que teria que ter. Elas não surgiram porque abriu uma oportunidade fiscal para eles montarem lá.
As variáveis são sempre as mesmas - infraestrutura, gente, modelo de negócios, regulações, legislações, modelos científicos, modelos de desenvolvimento tecnológico, modelos de fluxo de capital. São sempre as mesmas variáveis.
A diferença é a intensidade de cada uma dessas variáveis para fazer aquele fim existir. Porque se você não determinar qual é o teu fim, também não vai servir para nada. Não adianta montar um parque tecnológico para a vida. Para a vida não diz nada. É para alguma coisa especificamente.
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