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Pará acumula R$ 12 bilhões em prejuízos com desastres naturais e soma mais de 8 milhões de afetados

Estado lidera na Região Norte em perdas econômicas e decretos por excesso de chuva; no Brasil, danos ultrapassam R$ 785 bilhões entre 2013 e 2025

Jéssica Nascimento

O Pará acumulou R$ 12 bilhões em prejuízos provocados por desastres naturais entre 2013 e 2025, segundo levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). O estado também registrou mais de 8 milhões de pessoas afetadas no período e liderou o número de decretos de emergência por excesso de chuva na Região Norte, com 1.396 ocorrências. Em todo o Brasil, os danos chegaram a R$ 785 bilhões, enquanto mais de 493 milhões de pessoas foram afetadas por eventos climáticos extremos no mesmo intervalo.

Na comparação regional, o Pará concentrou os maiores prejuízos econômicos da Região Norte, superando Amazonas (R$ 4,5 bilhões), Acre (R$ 3,7 bilhões), Rondônia (R$ 1,7 bilhão), Tocantins (R$ 939 milhões), Roraima (R$ 378 milhões) e Amapá (R$ 191 milhões). O estado também lidera o ranking nortista de decretos por excesso de chuva e aparece entre os mais atingidos do país por enchentes e alagamentos.

O avanço dos eventos climáticos extremos tem deixado um rastro de perdas humanas, econômicas e estruturais no Pará. Entre 2013 e 2025, o estado contabilizou R$ 5,3 bilhões em prejuízos privados, R$ 4,1 bilhões em danos públicos e R$ 2,4 bilhões em perdas habitacionais.

Além dos prejuízos financeiros, os desastres afetaram diretamente 8.005.288 pessoas no estado. Os dados apontam ainda 90 mortes, 74.788 desabrigados e 488.887 desalojados no período analisado.

Os impactos estão diretamente ligados ao aumento de eventos extremos, principalmente chuvas intensas e estiagens prolongadas. Somente por excesso de chuva, o Pará registrou 1.396 decretos de emergência entre 2013 e 2025 — o maior número da Região Norte e o quarto maior do Brasil proporcionalmente. Já os decretos por seca e estiagem chegaram a 201 no mesmo período.

Pará lidera prejuízos e decretos na Região Norte

Entre os estados nortistas, o Pará aparece isolado no topo dos prejuízos causados por desastres naturais. O estado registrou R$ 12 bilhões em perdas totais, quase três vezes mais que o Amazonas, segundo colocado da região, com R$ 4,5 bilhões.

Veja o panorama dos prejuízos acumulados na Região Norte:

  • Pará — R$ 12 bilhões
  • Amazonas — R$ 4,5 bilhões
  • Acre — R$ 3,7 bilhões
  • Rondônia — R$ 1,7 bilhão
  • Tocantins — R$ 939 milhões
  • Roraima — R$ 378 milhões
  • Amapá — R$ 191 milhões

O estado também lidera em número de decretos por excesso de chuva:

  1. Pará — 1.396 decretos
  2. Amazonas — 562
  3. Tocantins — 185
  4. Acre — 148
  5. Rondônia — 111
  6. Amapá — 102
  7. Roraima — 48

Nos decretos relacionados à seca e estiagem, o Pará aparece atrás apenas de Tocantins e Amazonas na região:

  1. Tocantins — 230
  2. Amazonas — 208
  3. Pará — 201
  4. Rondônia — 146
  5. Acre — 89
  6. Amapá — 59
  7. Roraima — 44

Para a Federação das Associações de Municípios do Pará (Famep), os números evidenciam a necessidade urgente de investimentos estruturais e de adaptação climática.

“Ós municípios paraenses necessitam, prioritariamente, de um plano integrado de adaptação climática com recursos garantidos para ações preventivas e de resposta rápida”, afirma Gianluca Alves, assessor jurídico da Famep.

Segundo ele, as cidades precisam ampliar sistemas de alerta antecipado, investir em drenagem, limpeza de rios e canais, além de reforçar a infraestrutura hídrica para enfrentar períodos de estiagem.

Recursos federais são considerados insuficientes

Apesar da escalada dos danos, os recursos federais destinados à prevenção e resposta a desastres seguem abaixo do necessário, segundo a CNM.

Entre 2013 e 2025, a União transferiu R$ 9,5 bilhões para ações de proteção e defesa civil nos municípios brasileiros — valor equivalente a apenas 1,2% dos R$ 785,4 bilhões em prejuízos registrados no país no período.

No caso do Pará, o governo federal transferiu R$ 454.202.970,91 para ações de proteção e defesa civil entre 2013 e 2025, considerando apenas os repasses realizados pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). A informação foi repassada à reportagem por Juliana Moretti, diretora do Departamento de Planejamento, Orçamento e Gestão Interna (Dpog/Sedec), em resposta a um pedido de dados sobre os investimentos federais destinados aos municípios paraenses em ações de prevenção, resposta e reconstrução.

O montante representa cerca de 3,8% dos R$ 12 bilhões em prejuízos acumulados pelo estado no período, segundo os dados da CNM.

Na execução orçamentária federal para gestão de riscos e desastres, apenas 32,2% dos recursos autorizados foram efetivamente pagos em valores reais.

Para Gianluca Alves, a maior parte dos repasses chega de forma burocrática e voltada apenas à resposta emergencial.

“Os recursos federais atuais são insuficientes e, muitas vezes, chegam de forma fragmentada e burocrática, focando mais na resposta a desastres do que na prevenção”, afirma.

A Famep defende a criação de um fundo nacional permanente para adaptação climática, com repasses automáticos para estados amazônicos e municípios mais vulneráveis.

“É urgente um novo pacto federativo com transferências automáticas e regras flexíveis para situações de emergência e calamidade”, acrescenta.

Urbanização desordenada agrava alagamentos em Belém

Para o urbanista Paulo Pinho, a impermeabilização do solo e a ocupação desordenada alteraram o comportamento natural das águas.

“As águas da chuva que eram antes lentamente absorvidas pelo solo agora chegam rapidamente aos canais e aí causam alagamento”, explica.

Ele defende mudanças profundas na gestão urbana da cidade, com mais áreas verdes, parques lineares e soluções de drenagem sustentável. “Nós precisamos reinventar a forma como nosso território é gerido”, afirma.

Segundo Pinho, Belém ainda aposta em modelos considerados ultrapassados para enfrentar as mudanças climáticas.

“Não está preparada porque insistimos em opções de macrodrenagem. Precisamos de mais inovação e mais participação da população”, diz.

Agricultura lidera prejuízos econômicos no Brasil

No cenário nacional, a agricultura foi o setor mais afetado pelos desastres naturais entre 2013 e 2025, acumulando R$ 356,6 bilhões em prejuízos — o equivalente a 45,4% das perdas totais no país.

Na sequência aparecem:

  • Pecuária — R$ 107,5 bilhões
  • Instalações públicas de saúde — R$ 86,1 bilhões
  • Abastecimento de água potável — R$ 64,2 bilhões
  • Habitação — R$ 45,4 bilhões
  • Obras de infraestrutura — R$ 44,3 bilhões

Regionalmente, o Sul lidera os prejuízos totais com R$ 298 bilhões, seguido do Nordeste (R$ 270 bilhões), Sudeste (R$ 134 bilhões), Centro-Oeste (R$ 58 bilhões) e Norte (R$ 23 bilhões).

A CNM alerta que os impactos tendem a aumentar nos próximos anos caso não haja ampliação dos investimentos em prevenção, adaptação climática e infraestrutura urbana.