Pais e filhos: o que é preciso saber sobre conta bancária para menores de idade
Em Belém, o economista Nélio Bordalo Filho diz que a experiência vai além da forma de pagamento e funciona como aprendizado
A abertura de contas bancárias para menores de idade, prática cada vez mais comum, também envolve riscos e cuidados. Em Belém, o economista Nélio Bordalo Filho, conselheiro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA/AP), destaca que a principal orientação a ser dada é tratar a conta como uma ferramenta de aprendizado, e não apenas como meio de pagamento.
"É importante que o jovem entenda de onde vem o dinheiro que entra em sua conta, para onde ele vai e o impacto das escolhas de consumo no saldo”, observa Nélio, para quem, “boas práticas incluem estabelecer um valor fixo de mesada, incentivar o registro mental ou digital dos gastos, definir pequenos limites e estimular a separação entre gastar e poupar”.
O economista paraense ressalta que “é essencial que o jovem participe das decisões, aprendendo a planejar antes de gastar, mesmo em valores baixos. A orientação para poupar, mesmo pequenos valores, cria o hábito de poupança e geração de uma reserva financeira, o que vai ajudar bastante no relacionamento com o dinheiro quando for adulto. O brasileiro adulto não tem o hábito de poupar, e essa orientação quando jovem é importantíssima”.
Experiência ensina na prática, diz economista
Sobre se a iniciativa é uma boa maneira de iniciar os filhos na vida financeira e educá-los nesse sentido, Bordalo defende a ideia. “Sim, é uma forma bastante eficaz, porque transforma conceitos teóricos em experiências reais. Ele explica, por exemplo, que ao lidar com uma conta própria, os jovens aprendem noções como controle financeiro, planejamento e responsabilidade.
Nélio assinala que “diferente do dinheiro físico, a conta permite visualizar saldo, histórico de gastos e metas, o que reforça a educação financeira de forma contínua. Este aprendizado precoce tende a formar adultos mais conscientes e responsáveis com o dinheiro, portanto, com menor propensão ao endividamento e ao consumo impulsivo”, opina.
“Pela experiência que tenho como consultor financeiro, os pais precisam encarar esse processo como parte da formação do jovem. Mais do que autorizar a abertura da conta, é fundamental acompanhar, orientar e conversar sobre o uso do dinheiro. Definir regras claras, limites de gastos e objetivos ajuda a evitar uso desordenado. Também é muito importante respeitar a idade e a maturidade da criança ou adolescente, ajustando valores e autonomia gradualmente. A conta deve ser um espaço de aprendizado, inclusive para erros controlados, sempre com diálogo e supervisão”.
Jovens podem aprender com as próprias escolhas
Quanto aos possíveis excessos por parte dos filhos no gerenciamento dos recursos financeiros, Bordalo, acredita que “permitir que os filhos cometam pequenos erros financeiros, dentro de limites seguros, faz parte do processo educativo, e o diálogo é o que transforma o erro em aprendizado. Quando a criança ou o adolescente gasta tudo rapidamente, faz uma compra impulsiva ou deixa de guardar para um objetivo, ele vivencia na prática as consequências das próprias escolhas. Isso ensina muito mais do que apenas proibir ou controlar excessivamente”.
Nélio inclusive recordou de um episódio vivido por ele enquanto palestrante sobre educação financeira para um grupo de várias famílias em uma comunidade. Em determinado momento, ele disse que as crianças deveriam ter um cofre para guardar as moedas como forma de ter o hábito de poupar.
"No final da palestra, um menino se aproximou e me disse: ‘antigamente eu guardava as moedas que me davam, e eu comprava figurinha, merenda e bombons com o dinheiro, mas a minha mãe começou a tirar as moedas do meu cofrinho, quando precisava para comprar pão ou alguma outra coisa. Teve um dia que fiquei chateado e comecei a gastar tudo o que tinha no cofre, não deixava mais nada de moedas lá’. Eu ouvi o menino e pensei, esse menino quando se tornar adulto vai ser um gastador incontrolável pelo trauma de infância. Chamei a mãe e deu uma bronca/orientação e fiz ela prometer na frente do filho que nunca mais iria tirar uma moeda sem a autorização dele. Ele ficou feliz com o acordo com a mãe. A mãe entendeu o recado. Espero ter ajudado os dois”, contou o economista.
“Abro contas bancárias para filhos com 13 anos’, diz belenense
Moradora do bairro do Reduto, em Belém, Renata Ribeiro é mãe de quatro filhos, de 22 anos, gêmeos de 15 e o caçula, de 14 anos. Ela conta que sempre que os meninos, todos homens, completam 13 anos de idade, ela abre uma conta bancária para eles e não se arrepende da experiência. “A ideia era evitar ficar dando dinheiro em espécie para compra de lanches na escola, nos lanches externos com os amigos e até compra de alguma necessidade emergencial. De tempos em tempos realizo depósitos e eles vão administrando conforme a necessidade”, diz Renata, formada em administração.
"Ressalto que a conta criada é uma conta solidária, a minha conta corrente onde toda e qualquer operação feita por eles, o banco me notifica e através do meu acesso, consigo visualizar o saldo e as transações realizadas nas contas de cada filho. Observei que eles passaram a gastar menos e até fizeram aplicações”, afirma a mãe orgulhosa.
Conforme Renata, os filhos têm tido bom aproveitamento da experiência de ser o gestor do próprio dinheiro. “Todo e qualquer valor que eles ganham, gastam o mínimo possível e aplicam em caixinhas, fundos de liquidez diária ou com bloqueios de 6 a 12 meses. De forma sútil, vão ganhando gosto na gestão financeira e interesse nas formas de fazer o dinheiro render mais”.
“Semana passada, Davi, de 15 anos, me procurou e disse que queria comprar dólar para aproveitar a baixa. A conta dele tem limitação em razão da idade e nem todo tipo de investimento pode ser realizado. Mas isso provoca e faz com que eles corram atrás de informações financeiras e de mercado. Orientamos sempre a fazer economias e ver o dinheiro rendendo, estimula ", disse a administradora.
Davi é estudante do 1º ano do ensino médio, e gosta de ter o controle das próprias finanças. “Ter conta própria me ajudou a entender melhor o valor do dinheiro. Eu recebo um valor, gasto menos do que recebo e deixo uma parte guardada. Hoje até tenho dinheiro aplicado, coisa que eu não teria se fosse só dinheiro em espécie. Tudo começou para que eu não precisasse andar com dinheiro em espécie. Uma coisa que minha mãe fez, foi desabilitar o pagamento por aproximação no meu cartão, isso evita problema, caso o cartão seja perdido”, contou o adolescente.
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