A Páscoa, uma das datas mais importantes do calendário cristão, é marcada por tradições que vão além do significado religioso e se estendem à culinária, com destaque para o consumo de peixes e chocolates. Em Belém, no entanto, esse costume tem ganhado novos contornos com a incorporação de elementos típicos da gastronomia amazônica, que transformam produtos tradicionais em experiências regionais. Um dos exemplos é a chamada “Cuia da Páscoa”, comercializado pelo empresário Rafael Barros, que substitui o formato tradicional do ovo de chocolate por uma releitura inspirada em um objeto simbólico da cultura amazônica.
“A Cuia da Páscoa foi idealizada no ano passado, a partir de uma estrutura de confeitaria já consolidada, com o apoio de uma chef confeiteira que sempre esteve muito dedicada à produção de sobremesas”, explica o empresário. Segundo ele, a proposta surgiu da necessidade de inovar sem perder a identidade regional. “A equipe já tinha o desejo de criar algo diferente, desenvolvendo produtos próprios, como bolos e biscoitos — a exemplo dos Monteiro Lopes —, em vez de terceirizar a produção”, afirma. A marca já trabalhava com bombons regionais feitos internamente, com sabores como cupuaçu, bacuri, açaí e castanha.
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A partir desse contexto, veio o questionamento sobre como se destacar durante a Páscoa. “Embora o ovo de Páscoa seja o produto tradicional da época, a proposta foi buscar algo que representasse, de fato, a essência da Amazônia”, diz. A solução encontrada foi transformar a cuia, fruto ancestral amplamente utilizado na região, em um produto de chocolate recheado com sabores regionais.
Outra iniciativa que segue a mesma linha é o uso do doce Monteiro Lopes em ovos de chocolate, distruibído na loja da empresária Tatiana Maíra Thomaz Araújo. “Somos uma empresa especializada em biscoitos Monteiro Lopes, um doce muito tradicional aqui na região. Pensamos: ‘Por que não trazer essa nostalgia para a Páscoa?’”, afirma.
Recepção no mercado de Belém
A resposta do público, segundo os empreendedores, tem sido positiva. No caso da Cuia da Páscoa, o desempenho superou as expectativas iniciais. “Inicialmente, a meta era vender 50 unidades para testar a aceitação do produto. No entanto, foram comercializadas 250 cuias em apenas dois dias”, relata Rafael Barros.
Para Tatiana, o diferencial está na conexão afetiva com o consumidor. “O ovo de Páscoa é um produto universal, mas, quando inserimos um elemento regional como o Monteiro Lopes, criamos identidade. Isso aproxima o cliente do produto”, destaca. A aceitação também se reflete nas reações do público. “Muitos clientes nos dizem que lembram dos avós ou de momentos especiais da vida ao provar o produto. Tem sido um sucesso, especialmente entre aqueles que buscam um presente diferenciado”, completa a empresária.
Vendas e impacto nos negócios
A Páscoa representa um período estratégico para os empreendedores do setor. “É, sem dúvida, o momento mais importante para o nosso negócio, com aumento significativo no faturamento. Para este ano, nossa expectativa é atingir 400 unidades vendidas”, afirma Tatiana. Os produtos têm valor médio de R$ 150 e já apresentam boa saída antes mesmo da data principal.
“As vendas começaram muito bem. Já estamos entregando ovos desde o dia 20 de março e cerca de 40% da produção já foi comercializada”, explica.Apesar do cenário positivo, os custos seguem como desafio. “O cacau e o chocolate tiveram uma alta considerável no mercado mundial, e os insumos regionais também sofreram reajustes. Tentamos absorver parte desse impacto para não prejudicar o consumidor, mas foi necessário ajustar os preços”, diz Tatiana.
No caso da Cuia da Páscoa, o sucesso inicial também consolidou o produto como uma aposta recorrente. “O resultado garantiu visibilidade e mostrou que há espaço para propostas inovadoras no mercado local”, avalia Rafael.
Valorização da cultura local
Além do apelo comercial, os produtos apostam na valorização da identidade amazônica. No caso da Cuia da Páscoa, os recheios incluem combinações como creme e doce de bacuri; queijo do Marajó com caramelo e doce de cumaru; castanha-do-Pará com geleia de cupuaçu; e Monteiro Lopes com biscoito de cupuaçu. “A variedade de sabores regionais é um dos principais diferenciais do produto, que busca destacar a riqueza dos insumos locais”, afirma Rafael Barros. Segundo ele, a proposta é reforçar a identidade paraense por meio da gastronomia. “A gente brinca que, no Pará, o consumidor não pede ovo de Páscoa, mas sim cuia de Páscoa".
Já Tatiana destaca que a estratégia também contribui para fortalecer a cultura local. “Valoriza os pequenos produtores e os ingredientes da nossa terra. Em um mercado competitivo, essa autenticidade é o que nos diferencia”, afirma. Em meio às tradições da Páscoa, iniciativas como essas mostram como a criatividade e o uso de elementos regionais podem transformar produtos clássicos, ampliando as possibilidades de consumo e reforçando a identidade cultural da região.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia