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Oferta de camarão rosa ainda é irregular em Belém no início da safra

Chuvas, custos elevados e disputa com outros mercados influenciam abastecimento e mantêm preços altos na capital paraense

Jéssica Nascimento

Com a retomada da pesca do camarão rosa a partir de fevereiro, o produto começa a reaparecer nas bancas e peixarias de Belém, mas ainda em volume abaixo do esperado neste mês de março. Empreendedores do ramo de pescados e mariscos relataram dificuldades no abastecimento, preços elevados e forte concorrência de mercados de outras regiões do país, embora parte do setor já observe normalização na oferta.

Início da safra ainda tímido

Após o período de defeso, encerrado em fevereiro, o camarão rosa voltou a chegar ao mercado de Belém, mas sem a intensidade esperada. A empreendedora do ramo de pescados e mariscos Cláudia Moraes afirma que a oferta ainda é limitada.

“O primeiro barco chegou semana passada e nós já temos camarão, mas o camarão não tá vindo com bastante força. Não veio o que era esperado”, explica.

Segundo ela, a escassez foi sentida ao longo dos últimos meses, quando o camarão rosa praticamente desapareceu das prateleiras.

“O que ficou sustentando o comércio foi o camarão cinza, o camarão de Santa Catarina, o camarão cozido, mas o camarão rosa mesmo acabou faltando no mercado”, relata.

Fatores naturais e custos pesam na produção

Entre os principais motivos para a baixa oferta estão as condições naturais e os altos custos da atividade pesqueira. Cláudia destaca que fatores como chuvas intensas e marés elevadas dificultam a captura.

“Com as fortes chuvas, com as marés grandes, vai afastando os camarões. Aí eles têm que buscar em outras costas o produto”, afirma.

Além disso, o custo operacional das embarcações impacta diretamente a produção. “Pra você colocar um barco é um custo muito alto. Você gasta muito — só de óleo, alimentação, mão de obra. Em um barco pesqueiro gasta-se uma grana”, diz.

Concorrência com outros mercados reduz oferta local

Outro fator apontado por comerciantes é a saída do produto para outros estados e até para exportação. Gabriel Oliveira, também empreendedor do ramo de pescados e mariscos, observa que parte significativa da produção não permanece em Belém.

“Veio uma quantidade boa de camarão, porém as empresas de fora, o mercado de São Paulo, Rio de Janeiro, até mesmo pra fora do país, o pessoal tá pegando caminhões de camarão rosa e acaba não ficando tanto pra população”, explica.

Preços seguem elevados no início da safra

Com a oferta ainda restrita, os preços permanecem altos, especialmente para os camarões de maior qualidade. Cláudia detalha a variação conforme o tamanho e a classificação do produto.

“O camarão bom estava chegando a R$ 80, R$ 90 logo na primeira safra. E o camarão quebrado tá chegando a R$ 80. Ainda tá alto”, afirma.

Ela acrescenta que o camarão rosa, por ser mais valorizado, costuma ter preço superior ao camarão cinza, mais comum no mercado local.

Setor relata dificuldades e impacto do diesel

O empreendedor do ramo de pescados e mariscos Ewerton Uchoa também aponta um cenário desafiador neste início de safra. Segundo ele, a oferta ainda é baixa e os preços subiram em relação ao ano passado.

“Neste ano, tá muito difícil o abastecimento de camarão rosa no mercado em Belém. O que acontece? Tem pouco produto disponível na praça e o preço tá muito alto. Hoje o preço médio do camarão rosa tá em torno de R$ 85. Ano passado, nesta mesma época, o preço tava em torno de R$ 70”, afirma.

Ewerton destaca que a alta nos valores preocupa o setor, já que o consumidor tende a buscar alternativas mais baratas. Ele também lembra que o período de defeso, entre dezembro e março, contribui para a redução da oferta.

“O período de menor oferta é o do defeso — de dezembro a março — a cidade fica sem abastecimento”, explica.

Para os próximos meses, a expectativa é de melhora na produção, mas com incertezas relacionadas aos custos. “A partir de abril a produção deve normalizar, porém agora com a alta do diesel, não sei como vai ficar a questão dos preços, visto que os barcos que pescam são movidos a diesel. Isso deve refletir diretamente no preço do camarão rosa”, avalia.

Divergência no cenário de abastecimento

Apesar das dificuldades relatadas por parte dos comerciantes, há quem veja um cenário mais equilibrado. O empreendedor do ramo de pescados e mariscos Cássio Silva afirma que, atualmente, a oferta atende à demanda.

“Temos recebido produtos com frequência, com boa qualidade, e conseguimos atender a demanda dos clientes”, diz.

Ele ressalta que o consumo aumenta neste período, mas o mercado tem conseguido responder. “A procura cresce, mas até o momento o mercado está bem abastecido”, completa.

Período crítico vai até maio

Tradicionalmente, os primeiros meses do ano concentram a menor oferta de camarão rosa. Segundo Cláudia, esse cenário deve se estender até o segundo trimestre.

“A menor oferta é agora no início do ano até abril, até maio”, explica.

Expectativa é de melhora na safra

Mesmo com as incertezas iniciais, a expectativa do setor é positiva para os próximos meses. A projeção é de aumento na produção, redução de preços e formação de estoques.

“A expectativa é que neste ano dê bastante camarão rosa, que o preço diminua e que nós possamos ter condições pra fazer um bom estoque”, afirma Cláudia.

Ela destaca ainda o crescimento do consumo e da valorização do produto. “Cada vez mais o ramo do camarão artesanal tá crescendo”, diz.