No Pará, mais de 70% das famílias estão com dívidas no início do ano
Levantamento da Fecomércio mostra aumento do endividamento em fevereiro de 2026 e revela que cartão de crédito continua sendo o principal tipo de dívida entre os paraenses
Mais de sete em cada dez famílias paraenses começaram em 2026 com algum tipo de dívida. Em fevereiro, o percentual de endividamento chegou a 71,9%, acima dos 70,4% registrados em janeiro e também maior que os 69,3% observados em fevereiro de 2025. Os dados da Fecomércio (Federação do Comércio de Bens, de Serviços e de Turismo do Pará) indicam crescimento tanto no curto quanto no longo prazo.
No intervalo de um ano, entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, o aumento foi de 3,75%. Já na comparação mensal, de janeiro para fevereiro deste ano, a alta foi de 2,13%, evidenciando uma tendência de ampliação do comprometimento da renda das famílias.
Dívidas em atraso têm leve queda
Apesar do aumento do número de famílias endividadas, a parcela de consumidores com contas em atraso apresentou leve recuo.
Em janeiro de 2026, o percentual era de 16%, caindo para 15,9% em fevereiro. O indicador também ficou bem abaixo do registrado no mesmo período do ano passado, quando 20,6% das famílias tinham dívidas atrasadas.
Famílias de menor renda são as mais endividadas
O endividamento é mais elevado entre as famílias com renda menor. Em fevereiro de 2026, 74,5% das famílias que recebem até 10 salários mínimos estavam endividadas.
Entre aquelas com renda acima de 10 salários mínimos, o percentual foi significativamente menor, 47,7%.
Cartão de crédito lidera ranking de dívidas
O cartão de crédito segue como o principal tipo de dívida entre os paraenses, presente em 89,6% dos casos registrados em fevereiro de 2026.
Outras modalidades também aparecem com frequência, embora em proporções bem menores:
- Carnês: 24,3%
- Crédito consignado: 11,5%
- Financiamento de carro: 9,2%
- Financiamento de casa: 4%
- Crédito pessoal: 2,9%
- Cheque especial: 1,6%
- Outras dívidas: 1,4%
Pressão no orçamento e maior acesso ao crédito explicam alta
Para o economista paraense Nélio Bordalo, membro do Corecon PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), o crescimento do endividamento no início do ano está ligado a uma combinação de fatores econômicos e sazonais.
Segundo ele, a ampliação do crédito nos últimos anos contribuiu para aumentar o volume de empréstimos às famílias. “Houve ampliação do acesso ao crédito no país nos últimos anos, o que elevou o volume de empréstimos às famílias. Em 2025, por exemplo, o crédito às famílias no Brasil cresceu mais de 11%, impulsionando o consumo, mas também ampliando o comprometimento da renda, e isso também refletiu nas famílias paraenses”, explica.
Outro fator apontado pelo economista é o peso do custo de vida no orçamento doméstico. Despesas essenciais continuam pressionando as finanças das famílias.
“Despesas essenciais, como alimentação, transporte e energia, continuam elevadas, levando muitas famílias a recorrer ao crédito para equilibrar o orçamento mensal”, afirma.
Bordalo também destaca que o início do ano costuma concentrar gastos extras, o que aumenta a necessidade de financiamento.
“O início do ano costuma concentrar despesas sazonais, como IPTU, uniforme e material escolar, além de reajustes de tarifas. Esse conjunto de gastos tende a aumentar o uso de crédito e, consequentemente, o nível de endividamento das famílias”, analisou.
Dependência do cartão de crédito aumenta risco de inadimplência
O fato de o cartão de crédito liderar com folga entre os tipos de dívida também acende um alerta para os próximos meses.
De acordo com o economista, essa modalidade costuma ter as taxas de juros mais altas do mercado, principalmente quando o consumidor não consegue pagar o valor total da fatura.
“O fato de o cartão de crédito ser a principal modalidade de dívida representa um risco significativo para as famílias paraenses. Isso ocorre porque o cartão possui taxas de juros mais elevadas do mercado, especialmente quando o consumidor não consegue pagar o valor total da fatura e entra no chamado crédito rotativo”, explica.
Ele ressalta ainda que muitas pessoas utilizam o cartão como complemento de renda, prática que pode se tornar perigosa quando não há controle das despesas.
“Muitas pessoas utilizam o cartão de crédito como complemento de renda, e isso pode ser prejudicial quando não conseguem pagar a fatura no valor total. Nesse cenário, a dívida pode crescer rapidamente, comprometendo uma parcela cada vez maior da renda familiar”, afirma.
Segundo Bordalo, no Brasil o pagamento de dívidas já consome perto de 30% da renda mensal das famílias. Caso a tendência continue, o principal risco é o aumento da inadimplência.
“Se essa tendência continuar, o principal risco é o aumento da inadimplência nos próximos meses, com mais famílias atrasando pagamentos e tendo dificuldade para reorganizar suas finanças. Por isso, o uso consciente do crédito, especialmente do cartão de crédito, torna-se fundamental para evitar um ciclo de endividamento cada vez mais difícil de reverter”, conclui.
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