Mercado vegano em Belém se estabiliza após crescimento e aposta na qualidade para atrair clientes
Mesmo em uma capital marcada pela forte cultura do peixe e da carne, empreendedores do setor apostam na experiência gastronômica, enquanto consumidores buscam saúde, sustentabilidade e sabor
O mercado de alimentação vegana e vegetariana em Belém passou por um período de expansão nos últimos anos, acompanhando mudanças nos hábitos alimentares e uma maior preocupação com saúde, bem-estar animal e sustentabilidade. Após esse crescimento, no entanto, o setor parece ter entrado em uma fase de estabilidade na capital paraense, mantendo um público fiel e atraindo novos consumidores de forma gradual.
Apesar dos desafios de atuar em uma cidade cuja identidade gastronômica está fortemente ligada ao consumo de carnes e pescados, empresários do ramo afirmam que ainda há espaço para negócios que consigam oferecer qualidade e diferenciação. A aposta em pratos saborosos e experiências gastronômicas completas tem sido um dos principais caminhos para garantir a permanência no mercado.
Crescimento mais lento e público diversificado
Há 17 anos à frente de um restaurante especializado em culinária vegana no centro de Belém, o empresário Francisco Sridhara avalia que o mercado local não registra mais o ritmo acelerado de crescimento observado anteriormente.
Segundo ele, o segmento está estabilizado, embora continue atraindo novos adeptos. “Certamente as pessoas estão aderindo, mas é muito lento”, afirma.
Um dado que chama atenção é o perfil dos clientes. De acordo com o empresário, a maior parte do público não é composta por vegetarianos ou veganos. Muitos consumidores procuram o restaurante em busca de refeições mais leves, saudáveis ou para experimentar novos sabores.
“Eles querem ter uma experiência gastronômica diferente. O nosso público é formado, em sua maioria, por pessoas que não são vegetarianas nem veganas”, destaca.
Saúde e sustentabilidade impulsionam escolhas
A busca por uma alimentação mais saudável está entre os principais fatores que levam consumidores aos restaurantes veganos. Para a engenheira florestal Cristiane Lisboa, que consome comida vegana há mais de uma década, a escolha envolve diferentes aspectos.
“Eu não sou vegana todos os dias, mas quando dá para ser eu prefiro. O que me faz escolher a comida vegana é o componente sustentabilidade, sofrimento animal, saúde, a leveza de almoçar, de digerir rápido e a nutrição”, explica.
Cristiane conta que teve o primeiro contato com esse tipo de alimentação por influência da avó e passou a frequentar restaurantes veganos com mais frequência quando morou em uma cidade que oferecia mais opções do segmento. Hoje, em Belém, mantém o hábito de consumir refeições veganas em estabelecimentos especializados.
Sabor continua sendo exigência principal
Embora o apelo saudável seja importante, empresários do setor afirmam que os consumidores não estão dispostos a abrir mão do sabor. Para Francisco Sridhara, esse é um dos principais fatores para fidelizar clientes e ampliar o alcance do negócio.
“Eles buscam uma comida mais saudável e leve, mas não abrem mão de que ela seja saborosa. Procuramos oferecer uma experiência gastronômica que faça a pessoa não sentir falta da carne na refeição”, afirma.
Segundo ele, a constante renovação do cardápio também é um diferencial importante para manter o interesse do público ao longo dos anos.
“Desde que abrimos, não ficamos com o mesmo cardápio. Estamos sempre inovando, trazendo novidades e atualizações para os clientes”, ressalta.
Desafios para quem deseja investir
Para empreendedores que pretendem ingressar no segmento, Francisco acredita que o conhecimento sobre a culinária vegana e vegetariana é fundamental. Mais do que defender conceitos ligados à saúde ou à ética, é necessário oferecer produtos de qualidade e com identidade gastronômica.
“Quem quiser investir precisa dominar essa culinária e buscar qualidade nos pratos. Não basta focar apenas no saudável ou no ético. É preciso entregar sabor e uma experiência completa”, aconselha.
Outro desafio está relacionado à oscilação dos preços dos insumos alimentícios. Segundo o empresário, o aumento dos custos impacta diretamente a operação dos restaurantes, exigindo planejamento constante para evitar repasses excessivos aos consumidores.
“É uma gangorra. Alguns insumos sobem, outros descem. Muitas vezes precisamos trabalhar com margens menores para não aumentar os preços e perder clientes”, explica.
Resistência ainda existe, mas qualidade conquista novos consumidores
A proprietária de uma padaria vegana em Belém, Petra Marron, avalia que o mercado vem ampliando seu alcance, mas ainda enfrenta barreiras relacionadas à percepção do público sobre a alimentação baseada em plantas.
“Cada vez mais pessoas estão abertas a conhecer e consumir produtos de origem vegetal, mas ainda existe uma parcela significativa da população que mantém certa resistência a esse tipo de alimentação”, afirma.
Segundo ela, além dos desafios comuns a qualquer empreendimento, os negócios voltados ao público vegano também precisam lidar com preconceitos e ideias equivocadas.
“Muitas pessoas ainda acreditam que se trata de uma alimentação sem sabor ou a associam a questões ideológicas ou religiosas, quando, na realidade, essa escolha pode ser motivada por diversos fatores, como saúde, sustentabilidade, ética ou bem-estar”, explica.
Petra destaca que a culinária vegetal oferece inúmeras possibilidades quando há cuidado na elaboração dos pratos.
“A culinária vegetal é extremamente rica, versátil e saborosa quando elaborada com ingredientes de qualidade e técnicas adequadas, assim como qualquer outra gastronomia”, diz.
Ela ressalta, porém, que um dos obstáculos enfrentados pelos empreendedores da região é a dificuldade de encontrar determinados ingredientes.
“Nem sempre encontramos insumos específicos com a qualidade desejada para a produção gastronômica. Muitas vezes precisamos buscar fornecedores de outras localidades, o que aumenta os custos e dificulta a logística do negócio”, afirma.
Diversificação ajuda a manter competitividade
À frente da padaria desde 2018, Petra afirma que a principal estratégia do empreendimento é investir em ingredientes de qualidade e proporcionar uma boa experiência gastronômica, independentemente do perfil do cliente.
“Nosso lema é que, independentemente de a pessoa ser vegana ou não, ela deve ter uma experiência gastronômica extremamente agradável e de alta qualidade”, destaca.
Segundo ela, essa proposta tem ajudado a fidelizar consumidores e conquistar pessoas que nunca haviam experimentado produtos veganos.
“Muitas vezes, ao provarem nossos produtos, essas pessoas percebem que a culinária vegetal pode ser tão saborosa e satisfatória quanto qualquer outra, tornando-se clientes frequentes, mesmo sem adotar uma alimentação vegana de forma definitiva”, afirma.
Para ampliar o público, a empresa também diversificou sua atuação. Além dos produtos de panificação, oferece diariamente opções de almoço, realiza coffee breaks, buffets para casamentos e aniversários e organiza eventos de brunch.
“Essa diversificação nos permite ampliar nosso público, atender diferentes necessidades do mercado e manter a competitividade, sempre preservando nosso compromisso com a qualidade e a experiência dos clientes”, diz.
Petra também destaca que a alta dos preços de matérias-primas como café, cacau, chocolate, gorduras vegetais e castanhas tem pressionado os custos de produção. Ainda assim, a prioridade da empresa é manter o padrão dos produtos.
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