MENU

BUSCA

Medidas políticas aumentam oferta de pescado em Belém, mas preços preocupam antes da Semana Santa

Feirantes apontam queda recente nos valores e boa oferta, enquanto especialistas e supermercados alertam para possível alta com aumento da demanda

Jéssica Nascimento

A poucos dias da Semana Santa, período de maior consumo de pescado no Pará, medidas adotadas pelos governos municipal e estadual já impactam o abastecimento em Belém. Feirantes relataram melhora na oferta e até redução de preços nas últimas semanas, mas há expectativa de alta conforme a procura aumenta. Consumidores antecipam compras para evitar reajustes, enquanto especialistas avaliam que os decretos ajudam a garantir oferta, mas não impedem aumento nos preços.

Duas medidas voltadas a garantir o abastecimento de pescado e frear a alta dos preços passaram a vigorar nos últimos dias, na véspera da Semana Santa. Em Belém, o Decreto Municipal nº 114.283/2026, que restringe a saída de peixe da capital para outras localidades, entrou em vigor na última sexta-feira (19/03). Já no domingo (22/03), começou a valer o Decreto estadual nº 5.262, que permite a suspensão da emissão de documentos necessários para a saída do produto do estado.

Oferta elevada ajuda a conter preços nas feiras

Na Feira da Pedreira, em Belém, feirantes relataram que o aumento da oferta nas últimas semanas contribuiu para a redução dos preços do pescado, após um período de alta no início do ano.

O vendedor Alessandro Vieira afirma que o cenário atual é mais favorável tanto para comerciantes quanto para consumidores.

“Até agora, deu uma baixada no preço dos pescados aqui, mas vai depender muito se ainda der bastante peixe. Então, pode ser um preço muito bom tanto pros vendedores quanto pros clientes”, diz.

Entre as espécies mais vendidas, ele destaca a dourada a R$ 25 o quilo, filhote e pescada amarela a R$ 35, pescada branca a R$ 20 e tamuatá a R$ 25. Segundo ele, a queda recente é resultado direto da maior disponibilidade. “Dois meses atrás, tava muito mais caro, faltava peixe. Como tem muito peixe agora, baixou o preço. A oferta tá ótima”, completa.

Medidas ajudam no abastecimento

Para os feirantes, as restrições à saída do pescado têm impacto direto na oferta local. Vieira avalia que as medidas adotadas pelos governos municipal e estadual contribuem para manter o produto acessível.

“Quanto mais peixe sai, mais fica caro pra gente. Se fica, fica mais peixe pra gente e pro povo, então fica muito mais barato tanto pra gente que vende quanto pro povo que consome”, afirma.

A expectativa, segundo ele, é de que os preços permaneçam estáveis, ao menos no curto prazo. “Não vai ser um preço absurdo. Vai ser um preço bem acessível pro bolso do consumidor”, projeta, embora reconheça que reajustes podem ocorrer mais perto da data.

Procura ainda tímida, mas com expectativa de alta

Apesar da proximidade da Semana Santa, o movimento nas feiras ainda é considerado abaixo do esperado. “As vendas agora ainda não estão do jeito que a gente queria, mas vão melhorar. Daqui pra sexta-feira, as vendas vão melhorar”, diz Vieira.

A previsão é de crescimento significativo nos próximos dias, com consumidores comprando inclusive para estocar.

“Muita gente compra peixe pra guardar. A expectativa de vendas é ótima”, afirma o feirante, que estima comercializar até uma tonelada de pescado no período.

Gleidson Alves também observa que o fluxo de clientes ainda é baixo, mas deve aumentar. “As vendas atuais nesta semana ainda estão fracas, mas a expectativa é de boas vendas na Semana Santa”, afirma.

Preços variam e tendência ainda é de alta

Mesmo com a oferta considerada boa, há variação nos preços entre espécies e vendedores. A dourada, por exemplo, pode ser encontrada entre R$ 30 e R$ 35, segundo Aves, enquanto a pescada sai a R$ 20 e a gó a R$ 25.

Ele ressalta que, ao longo dos primeiros meses do ano, houve aumento nos preços. “De janeiro até março, houve um aumento no preço dos pescados”, diz.

A tendência, segundo os feirantes, ainda é de elevação conforme a demanda cresce. “Na Semana Santa, a tendência do preço é aumentar”, afirma Aves.

Espécies mais e menos procuradas

Entre os peixes com maior oferta, o tambaqui se destaca como opção mais acessível e popular. “É um peixe gostoso, mais barato e sai muito”, explica Vieira, citando o preço médio de R$ 25 o quilo.

Por outro lado, espécies como a piramutaba têm menor procura, mesmo com preços mais baixos, entre R$ 15 e R$ 18 o quilo. “É um peixe que não é muito conhecido”, observa.

Expectativa de alta procura na reta final

Outro vendedor, Alessandro Rodrigues, confirma que o abastecimento segue normal, mas já há sinais de aumento na procura. “Já tem gente na procura dos peixes pra adiantar”, relata.

Ele cita preços como R$ 30 para a gurijuba e dourada, R$ 35 para pescada amarela e R$ 40 para o filhote. Segundo Rodrigues, o mercado deve aquecer rapidamente. “A expectativa é que vai dar muita gente, que a procura vai ser grande”, afirma.

Cenário depende da oferta nos próximos dias

Para os trabalhadores do setor, o comportamento dos preços até a Semana Santa dependerá principalmente da manutenção da oferta. Caso haja escassez, os valores podem subir rapidamente.

“Se tiver bastante peixe, o preço vai decair. Se tiver falha, o preço vai aumentar”, resume Alessandro Vieira, lembrando que o filhote já chegou a custar até R$ 50 em momentos de menor oferta.

Consumidores antecipam compras para evitar aumento

Entre os consumidores, a percepção é de que, por enquanto, não há dificuldade para encontrar pescado nem aumentos expressivos nos preços. Ainda assim, muitos já começam a se antecipar para evitar reajustes nos próximos dias.

A cabeleireira Rosângela Oliveira afirma que encontrou cenário estável na Feira da Pedreira.

“Eu não tô tendo dificuldade de encontrar pescados nesta semana. Tá normal. O preço também tá normal, tá bom. Até agora, o preço não aumentou”, diz. Ela comprou dourada a R$ 30 o quilo e considera o valor razoável.

Mesmo assim, pretende se organizar com antecedência. “Pra Semana Santa, vou comprar mais peixe. Eu prefiro comprar antes, porque a tendência é aumentar o preço”, afirma.

A professora Núcia Azevedo também relata facilidade na compra.

“Tô encontrando normalmente os pescados. O preço ainda não aumentou. Pra mim, os preços estão razoáveis”, afirma. Ela procurava gurijuba, encontrada a R$ 35 o quilo. “Pra Semana Santa, vou procurar mais peixe”, completa.

Supermercados apontam pressão da demanda sobre preços

No setor supermercadista, a avaliação é de que as medidas ajudam a evitar desabastecimento, mas não impedem a elevação dos preços típica do período.

O presidente da Associação Paraense de Supermercados (Aspas), Jorge Portugal, destaca que as restrições à saída de pescado são adotadas todos os anos. “Sempre tem dado certo. Não tem faltado peixe no período da Semana Santa”, afirma.

No entanto, ele ressalta que o comportamento dos preços segue a lógica da procura. 

“Isso não influencia na questão do preço. Quando a demanda é grande, eles puxam um pouquinho no preço. Já é tradição: quando se aproxima a Semana Santa, baixar o preço não baixa. Pode manter ou aumentar”, explica.

Já o diretor de uma rede de hipermercados de Belém, Paulo Oliveira, faz críticas à intervenção estatal. 

“A oferta atualmente é melhor que a demanda. Deve ser liberado as relações de mercado. O governo não deve interferir de nenhuma forma”, defende.

Economista avalia impacto das medidas

Para o economista Everson Costa, supervisor técnico do Dieese Pará (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), os decretos têm papel importante principalmente na garantia do abastecimento interno, diante da pressão externa e da dinâmica de mercado.

“As medidas do governo estadual e municipal são fundamentais para que a gente possa, num primeiro momento, garantir a oferta”, afirma.

Segundo ele, sem esse tipo de controle, há risco de desabastecimento e alta ainda maior nos preços. “Se o mercado priorizar tudo o que nós produzimos para fora, o pescado vai ficar extremamente caro aqui”, alerta.

Everson destaca que esse tipo de ação já é tradicional no estado.

“Essas medidas já têm mais de duas décadas de funcionamento e ajudam a regular a oferta”, diz.

Por outro lado, ele pondera que o impacto sobre os preços é limitado. “Na formação do preço, isso não entra como fator impeditivo. O mercado é livre, e ainda temos custos de produção elevados, como o diesel, que pressionam os valores”, explica.