Jovens empresários do Pará enfrentam impacto do consumo e do crédito, diz presidente do Conjove
Alírio Gonçalves afirma que retração no consumo e dificuldade de acesso ao crédito estão entre os principais desafios do empreendedorismo jovem; entidade reúne cerca de 305 empresários no estado
O consumo mais cauteloso da população e as dificuldades relacionadas ao crédito são hoje os principais fatores de preocupação entre os jovens empresários do Pará, segundo avaliação de Alírio Gonçalves, presidente do Conselho de Jovens Empresários da Associação Comercial do Pará (Conjove/ACP). Em entrevista ao Grupo Liberal, ele afirmou que o cenário econômico entre os associados do conselho é de estabilidade em 2026, mas ressaltou que a inflação e as mudanças nos hábitos de compra têm pressionado especialmente os setores de comércio e serviços.
Qual o papel do Conjove da ACP no fortalecimento do empreendedorismo jovem no Pará?
Alírio Gonçalves: Fomos fundados em 1988. Temos 38 anos de ação e existência e o nosso principal objetivo é fomentar os jovens líderes para o mercado de trabalho, para o mercado empreendedor e também para o mercado de entidades e associativismo. Formamos líderes onde esses líderes na verdade são as empresas deles, que são associadas ao Conjove, que nomeia um representante de até 40 anos de idade.
A gente segue muito os três pilares que o conselho possui que é da capacitação desses jovens, da representatividade desse jovem em todos os âmbitos e do relacionamento, que é uma grande rede de relacionamento que esse jovem vai ter a oportunidade de formar e melhorar profissionalmente.
Como o senhor avalia o momento atual da economia brasileira e quais reflexos diretos isso tem no Pará?
Posso dizer principalmente do nosso estado, já que viemos de um ano que recebemos a COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) que esse foi um grande evento, um grande potencial que a nossa cidade recebeu.
O Conjove soube aproveitar isso de uma maneira muito oportuna e eu acredito que muitos postos de trabalho foram criados. Digo isso principalmente pela nossa rede interna de associados, em que tivemos muitas oportunidades de novos postos de trabalho aquecendo muito a economia.
Neste ano de 2026, como é um ano de eleição, é um ano em que todo o mercado de trabalho fica um pouco apreensivo aguardando como é que vai ser o decorrer destas eleições. O objetivo é ter uma melhor leitura de como é que vai ser a economia deste ano. A economia que eu enxergo, pelo menos dentro do nosso quadro de associados, é uma economia estabilizada.
O que mais preocupa o empresariado jovem neste momento - a inflação, crédito, consumo ou insegurança jurídica?
Acho que desses três pontos, o que hoje mais está impactando o jovem empreendedor é a questão do consumo e do crédito. Há um bom tempo o consumo vem pesando muito no bolso do consumidor brasileiro junto com a inflação. Isso acaba acarretando numa consequência, no hábito de consumo dele perante ao mercado, principalmente no setor de comércios e serviços.
Esse tipo de de consumo é algo que tá sempre sendo muito analisado dentro do Conjove pra gente enxergar o que que leva de prioridades pro consumidor, pro cliente daquele empresário que tá lá dentro, o que que ele elenca como prioridades na hora de consumir - se é dentro de itens de base essencial ou se são itens de base secundária dentro do comércio e serviços.
Como você avalia o peso da carga tributária brasileira sobre os pequenos e médios empreendedores?
O peso da carga tributária brasileira é altíssima. O Conjove tem um papel muito importante, nesse sentido, sobre a conscientização da carga tributária. Por isso a gente realiza um dos maiores eventos, se não o maior evento nacional de conscientização tributária que é o Feirão do Imposto. Ele é um evento que é da nossa Confederação Nacional, a Conaje (Confederação Nacional de Jovens Empresários) e o Conjove representa a marca aqui no nosso estado.
Como que a gente conscientiza? Levando para a população através de empresários parceiros, empresários associados e não associados também nossos, “absorção” do imposto em que ali está embutido para mostrar ao cliente dele quanto seria aquele produto ou aquele serviço que ele venderia se ali não tivesse imposto.
Aí que a gente enxerga uma diferença muito grande. Digo pelo menos no meu ramo, que é de ramo de posto de gasolina, no combustível que incide uma alta carga tributária de quase até 60% na gasolina comum. Quando a gente faz essa ação da gasolina sem imposto, é algo que gera um impacto gigante para o consumidor.
Quantos jovens empresários há no Pará e quanto na economia esses jovens empresários movimentaram em 2025?
Os últimos dados do Sebrae apontam que 99% das empresas que hoje estão aqui no Brasil estão muito dentro do segmento de micro e pequenas empresas. O que que isso significa? Significa que a economia no setor empresarial roda e gira muito dentro do pequeno e do microempreendedor.
Então esses pequenos e microempreendedores são aqueles que a gente denomina como MEI (Microempreendedor Individual), como ME (Microempresa) e como EPP (Empresa de Pequeno Porte). Esses três tipos de empresários são empresários que fazem a roda girar, que a gente costuma dizer na economia, seja no comércio, seja no serviço.
Quando a gente enxerga este número, a gente enxerga que a maioria dessas empresas são hoje dominadas e governadas por empresários de até 40 anos. Ou seja: o jovem empresário que tá no mercado de trabalho hoje é esse jovem que tá tomando frente, que tá tomando iniciativa e que tá assumindo os cargos de direção nas empresas.
Então, quando a gente tem esse número gigante de empreendedores que estão começando, digamos assim, a sua vida profissional, a gente enxerga que o jovem tá batalhando, que o jovem tem vontade de empreender neste país e que se enfrenta uma série de dificuldades. Uma delas é a carga tributária.
Nós, enquanto conselho dentro da Associação Comercial, temos um número de aproximadamente 305 empresários que estão sendo representados dentro do Conjove através de suas empresas em que jovens até 40 anos estão ali na linha de frente, fora o número, claro, de associados que toda a nossa casa da Associação Comercial possui.
A reforma tributária, aprovada pelo atual governo, atendeu às demandas dos jovens empresários?
A gente tá num ano teste. O que é nos passado, principalmente pelos profissionais de contabilidade e pelos tributaristas, é que estamos iniciando um ano teste da reforma tributária, que ano que vem já começa a entrar em vigor algumas especificidades da reforma e que é um ano de muito desafio.
É um ano que nós do conselho estamos levando diversas capacitações. Inclusive temos um evento em que a gente leva essa capacitação e estamos levando muito em consideração a reforma tributária, porque é um assunto que está sendo muito falado, muito tratado e a gente precisa falar na linguagem do empresário. É importante que o tributarista, o contador saiba falar na linguagem do empresário.
Esse é o papel que o Conjove vem ajudando muito - a gente levar para os nossos associados e também para nossos associados, o que essa reforma tributária vai estar impactando no dia a dia, o que que ela vai estar impactando na empresa dele e, principalmente, para este pequeno microempreendedor, esse MEI que está batalhando.
As pessoas vão sentir sobre a reforma tributária porque tem muitas mudanças internas. Sobre essa parte técnica, essa parte de número, essa parte tributária mesmo em si, a gente costuma levar sempre alguém do segmento capacitado para estar explanando.
Quais mudanças seriam prioritárias para melhorar o ambiente de negócios no Pará para os jovens empresários?
Eu acho que a desburocratização dos órgãos públicos perante o empresário é um ponto fundamental da gente conseguir facilitar esse ambiente de negócios pro empresário, falando do setor público.
Você consegue desburocratizar órgãos em que o empresário hoje tem uma gigante dificuldade para abrir a sua empresa. Isso vai facilitar muito para aquele que está querendo empreender. E, claro, quem puder se atrelar ao conselho, se atrelar aos eventos de capacitação, de representatividade que o Conjove faz, já vai ter também uma grande vantagem no mercado de trabalho para estar abrindo sua empresa.
Qual é a posição do Conjove sobre a proposta de revisão da escala 6/1?
Desde o ano de 2025, o nosso posicionamento é de muita cautela. A gente tá pedindo muita cautela. Estamos pedindo uma questão de tempo para estar avaliando como vão ser as mudanças dessa escala 6x1. Gosto de deixar bem claro que nenhum empresário está querendo que o trabalhador trabalhe mais e tenha uma qualidade de vida menor. Jamais é isso.
A gente se preocupa muito, até porque o trabalhador, quando tem uma qualidade de vida melhor, quando tem mais tempo de descanso, pode vir a ter uma produtividade maior. Porém, um grande porém nisso tudo é que estamos em ano eleitoral e há consequências para qualquer mudança que seja feita. Eu gosto de falar que é a redução da jornada de trabalho, então vamos ver a proposta de reduzir a jornada de trabalho por semana.
Ora, se eu vou reduzir a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais ou 36 horas, dependendo do que passar, o mais provável é que vá para 40 horas semanais. Qual é o impacto que esta decisão gera? Toda decisão vai gerar um impacto.
Se eu estou reduzindo o horário de trabalho, eu consequentemente estou necessitando ter mais contratações nos finais de semana, mais contratações nos períodos noturno. Aí vai depender muito do que é o segmento de cada empresário.
Essas contratações aumentam a oneração da folha de pagamento, que hoje é um grande peso na mão do empresário, principalmente daquele número do jovem empresário e do pequeno empresário no nosso país.
Se eu aumento um ou dois funcionários, que para muitos pode parecer poucos, mas para quem tem uma folha de dois funcionários e eu aumento mais dois para cobrir esses horários do final de semana, eu tô dobrando o valor da minha folha de pagamento. Até aí, tudo bem. Vamos fazer isso, porque a lei tá dizendo isso. Mas o que que isso pode gerar de consequência?
Onde que esse empresário vai precisar cortar custos? Ou ele vai conseguir sobreviver aumentando essa folha salarial? Será que isso não pode impactar inclusive nos outros funcionários que já estavam lá dentro da empresa e pode vir alguma demissão?
Só estamos trazendo um âmbito de consequências que podem gerar e a cautela que temos que ter e se é viável e necessário fazer esta mudança num período de correria, num período de ano eleitoral muito próximo das eleições. Então, a gente pede essa cautela e essa visão para que a população enxergue.
Como equilibrar direitos trabalhistas e sustentabilidade nas empresas?
Acho que direito trabalhista, o próprio nome já diz, é algo já de direito por si só do trabalhador. Qualquer empresário tem que obedecer e seguir os direitos que o trabalhador necessita. O empresário paraense sabe fazer muito bem isso.
O jovem empreendedor tem uma visão muito mais ampla nesse sentido - de ter esta cautela de enxergar que os direitos trabalhistas são primeiro direitos de extrema necessidade e deixar isso de forma sustentável dentro da empresa dele para que a empresa continue sendo tocada.
O que falta na prática em termos de políticas públicas para incentivar o empreendedorismo jovem?
Falta a desburocratização de alguns órgãos. Falta o aumento da pauta do sublimite do Simples Nacional. Porque hoje muitos desses jovens empresários que a gente está citando aqui trabalham no regime do Simples Nacional, da contabilidade.
Então, o aumento da pauta do sublimite do Simples Nacional é algo fundamental, porque estamos falando de uma pauta que foi estabelecida, se não me falha a memória, em 2000. A última revisão que ela teve foi em 2016. Depois seguiu em 2018. Estamos falando há mais de 8 anos sem uma revisão.
Devido à inflação, o faturamento desse jovem empresário que está no Simples Nacional aumentou e seria necessário a gente rever esse limite do Simples Nacional, que é algo que a gente já vem falando há muito tempo dentro do Conjove.
Qual a avaliação do Conjove sobre os grandes investimentos com impacto no Pará, como exploração de petróleo na Margem Equatorial, a Ferrogrão e a questão do Pedral do Lourenço?
São três atividades que dentro da nossa associação comercial a gente também também leva muito desse assunto. Algo que a gente já vem há anos falando, há anos levando em evidência é o quão importante é a questão da Ferrogrão e do Pedral do Lourenço, que é uma discussão que já dura há décadas.
Agora, mais ainda, a gente fala da Margem Equatorial, que enxergo como uma grande oportunidade para o nosso estado. É uma oportunidade gigante para os municípios que vão ser agraciados por por instalações e estruturas das petrolíferas para fazer o estudo da bacia da Margem Equatorial, sem falar nos royalties que isso vai gerar.
É importante a gente ter, claro, sempre a cautela ambiental que compete aos órgãos regulamentadores para estarem viabilizando isso, mas enxergar também que vai ter aí um crescimento econômico e um crescimento absurdo para a população do nosso estado. Quem mais vai ganhar é o povo.
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