Jovem paraense leva projeto de reaproveitamento do caroço de açaí a conferência mundial na Austrália
Iniciativa transforma resíduo em biopainéis e produtos sustentáveis
Um pesquisador de Abaetetuba, no Pará, foi selecionado para representar o Brasil em uma das principais conferências mundiais do cooperativismo. Washington Ferreira Nascimento Filho, de 25 anos, é um dos oito vencedores da bolsa World Council of Young Credit Union Professionals (WYCUP 2026), conquistada entre quase 100 projetos inscritos de diferentes países. Ele participará da World Credit Union Conference (WCUC), em Sydney, na Austrália, em julho deste ano.
A seleção reconhece o projeto UNAÍ, desenvolvido pelo próprio Washington ao longo de mais de uma década de pesquisas. A iniciativa transforma caroços de açaí, resíduo gerado em larga escala na cadeia produtiva da fruta, em biopainéis e outros produtos sustentáveis. O objetivo é converter um passivo ambiental em insumo produtivo, gerando renda local sem pressionar os ecossistemas amazônicos.
O problema que motivou o projeto tem escala considerável. Dados da Embrapa indicam que apenas 15% a 20% do fruto do açaí são aproveitados como alimento. Os cerca de 80% restantes, o caroço, tornam-se resíduo sólido, e mais da metade ainda não tem destinação adequada em municípios da região, causando impactos ambientais e urbanos. No Pará, maior produtor mundial da fruta, o volume de caroços descartados chega a cifras expressivas a cada safra, sobrecarregando aterros e margens de rios em cidades como Belém e Abaetetuba.
Foi diante desse cenário que Washington começou a investigar alternativas ainda na adolescência. O que começou como curiosidade científica tornou-se, ao longo dos anos, um projeto estruturado de pesquisa aplicada, com testes de materiais, parcerias institucionais e desenvolvimento de produtos com viabilidade comercial. Os biopainéis produzidos a partir do caroço de açaí são uma das soluções resultantes desse percurso, com potencial de aplicação na construção civil, no design e na indústria moveleira, mercados que buscam cada vez mais matérias-primas de origem sustentável.
Dois brasileiros estão entre os oito bolsistas desta edição do WYCUP, programa que reconhece jovens líderes com projetos de impacto social, ambiental e econômico. Ambos têm vínculos com o sistema cooperativo Sicredi. Washington integra o Comitê Jovem da Sicredi Sudoeste e vem recebendo suporte institucional da cooperativa desde a seleção, com acompanhamento na preparação para o evento internacional.
A presença de jovens do cooperativismo brasileiro em um fórum desse porte reflete um movimento mais amplo de internacionalização de iniciativas ligadas à bioeconomia e à sustentabilidade. O Brasil, detentor da maior biodiversidade do planeta, tem sido cada vez mais reconhecido em espaços globais pela capacidade de transformar recursos naturais em soluções inovadoras, especialmente quando essa transformação passa pelo conhecimento das comunidades locais.
"Essa conquista mostra que jovens brasileiros, mesmo vindos de contextos desafiadores, podem ocupar espaços globais e contribuir com soluções relevantes", afirmou Washington. "Quero levar a voz da minha comunidade e mostrar a força da Amazônia."
Em Sydney, o pesquisador pretende apresentar as experiências do UNAÍ ligadas à bioeconomia e ao cooperativismo, além de intercambiar referências com lideranças de diferentes países. O objetivo é trazer ao Brasil novos aprendizados capazes de ampliar o alcance e o impacto do projeto, e abrir caminhos para que outras iniciativas amazônicas alcancem visibilidade semelhante no cenário internacional.