Fim da jornada 6x1 pode colocar mais de 115 mil empregos em risco no Pará, diz Fiepa
Entidade alerta para impactos econômicos e sociais da proposta em debate no Congresso e no governo federal, com efeitos mais severos sobre micro e pequenas empresas industriais do estado
A possível extinção da jornada de trabalho 6x1 pode colocar em risco cerca de 115 mil empregos no Pará, especialmente em micro e pequenas empresas da indústria. O alerta é da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), diante do avanço das discussões no Congresso Nacional e no governo federal sobre mudanças na escala de trabalho, tratadas como prioridade para 2026.
Segundo a entidade, propostas de Emenda à Constituição (PECs) já tramitam no Legislativo e um Projeto de Lei do Executivo pode ser apresentado após o Carnaval, o que, na avaliação do setor produtivo, exige cautela e amplo debate sobre os impactos econômicos e sociais da medida.
De acordo com análise do Observatório da Indústria da FIEPA, com base em dados da RAIS 2024, 92,7% dos estabelecimentos industriais do Pará são micro e pequenas empresas, responsáveis por aproximadamente 115,2 mil postos de trabalho. Para o presidente da FIEPA, Alex Carvalho, uma alteração abrupta na jornada pode gerar um efeito negativo em cadeia, com aumento de custos e risco de demissões.
“Essas empresas já operam com capital de giro reduzido e margens apertadas. Sem uma redução proporcional de custos, o valor da hora trabalhada aumenta e pressiona diretamente a folha de pagamento”, afirma.
O presidente destaca ainda que estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que os pequenos negócios tendem a ser os mais impactados por mudanças na legislação trabalhista, justamente por terem menor capacidade de absorver custos adicionais.
Produtividade e competitividade
O gerente do Observatório da Indústria da FIEPA, Felipe Freitas, responsável pela análise técnica, ressalta que o debate sobre a redução da escala de trabalho precisa considerar o cenário de competitividade internacional. Segundo ele, o Brasil enfrenta um déficit histórico de produtividade em relação a outras economias, quadro que se agravou nas últimas décadas.
“Na década de 1990, a produtividade média por hora de um trabalhador chinês era semelhante à de um trabalhador brasileiro. Em 2019, um trabalhador chinês já produzia o equivalente a 1,6 brasileiros por hora. Quando a comparação é feita com os Estados Unidos, essa diferença pode chegar a uma proporção de um para seis”, explica.
Para Freitas, qualquer mudança na jornada deve ser conduzida com responsabilidade, considerando seus reflexos na competitividade do país em um ambiente de forte concorrência global.
Baixa competitividade no estado
A FIEPA também chama atenção para a realidade econômica do Pará. Dados do Ranking de Competitividade dos Estados 2025, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP) e analisados pelo Observatório da Indústria, colocam o estado na 25ª posição nacional. Em relação a 2024, houve queda em quase todos os indicadores avaliados, com exceção da infraestrutura, influenciada por investimentos recentes relacionados à COP30.
Na dimensão “Capital Humano – Produtividade do Trabalho”, o Pará aparece como o pior estado da região Norte. “Em um cenário já marcado por baixa produtividade, não podemos adotar medidas sem análise realista das consequências. Não se trata de uma luta de classes, mas de responsabilidade com empregos e com a economia do estado”, afirma Alex Carvalho.
Setores mais afetados
Entre os segmentos que podem sentir impactos diretos está o de óleo de palma, que responde por cerca de 15 mil empregos diretos no Pará, em municípios como Tomé-Açu, Tailândia, Moju e Acará. Considerando os postos indiretos, esse número pode chegar a aproximadamente 75 mil vagas, segundo o Sindicato da Indústria de Azeite e Óleos Alimentícios do Estado do Pará (Sinolpa).
A presidente do sindicato, Marcella Novaes, explica que a cadeia produtiva da palma tem características agroindustriais que exigem diferentes formatos de jornada. Enquanto a área agrícola demanda maior flexibilidade conforme o período, a indústria opera de forma contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana.
“É um setor com baixo nível de mecanização, alta dependência de mão de obra e custos operacionais elevados. Além disso, o óleo vegetal é uma commodity com preços definidos no mercado internacional, o que limita o repasse de custos”, afirma.
Ela destaca ainda que, desde a reforma trabalhista, o setor mantém negociações anuais entre sindicatos laborais e patronais, e que, na prática, a maioria dos trabalhadores já atua com jornadas inferiores ao limite legal de 44 horas semanais.
Impactos indiretos e Sistema S
Outro ponto de preocupação da FIEPA são as possíveis contrapartidas fiscais associadas à mudança na jornada, como a redução de encargos por meio de cortes nas contribuições ao Sistema S. Segundo Alex Carvalho, isso pode enfraquecer a atuação do Serviço Social da Indústria (SESI) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).
“No Pará, a atuação dessas instituições em parceria com redes municipais contribui para elevar em até 20% o Ideb em diversos municípios, ampliando o acesso das prefeituras a recursos do Fundeb”, explica.
Para a FIEPA, uma eventual redução de recursos pode resultar em menos vagas escolares, retração de programas educacionais e impacto direto em municípios com baixos indicadores sociais. “Os primeiros atingidos serão os trabalhadores, as famílias mais vulneráveis e os municípios. Não é sensato cortar recursos de instituições que prestam serviços de interesse social com excelência”, conclui o presidente da entidade.
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