Escala 6x1: setores de Belém divergem sobre impactos da mudança
Proposta que tramita no Congresso divide opiniões entre representantes de trabalhadores e das indústrias no Pará sobre produtividade e custos operacionais
A discussão sobre o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6x1) mobiliza representantes de patrões e empregados no Pará. Enquanto sindicatos defendem a redução da jornada para 40 ou 36 horas semanais como ferramenta para garantir saúde e produtividade, a indústria paraense projeta desafios operacionais e riscos de automação. O tema está sob análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, onde parlamentares divergem sobre os reflexos na economia, especialmente em setores como saúde e turismo, que podem sofrer impactos de custos superiores a 26%.
Para o presidente da Federação dos Trabalhadores no Comércio e Serviço do Pará e Amapá (FETRACOM-PA/AP), Zé Francisco, a mudança na carga horária é essencial para o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Ele argumenta que o modelo atual sobrecarrega o trabalhador, impedindo o descanso e a qualificação. "A redução da jornada de trabalho e a consequente redução dos dias trabalhados vai dar a possibilidade desse trabalhador de cuidar da saúde, de cuidar da família dele e de descansar mais. Com certeza absoluta a redução pode aumentar ainda mais a produtividade, pois ele vai trabalhar muito satisfeito", afirmou o sindicalista.
Zé Francisco ressalta que setores de funcionamento ininterrupto, como hotelaria e gastronomia, podem se adaptar com escalas de revezamento de seis horas ou regimes de 12 por 36 horas. Segundo ele, o modelo ideal defendido pela categoria é a escala 5x2. "Não é possível mais o excesso de carga horária e de permanência desses trabalhadores dentro de uma empresa. Muitas vezes o trabalhador sai seis horas da manhã e só chega às 21h ou 22h em casa, o que implica em sérios problemas de saúde e no bom viver com a família", concluiu Zé Francisco.
Automação e custos preocupam o setor industrial paraense
Por outro lado, o setor industrial demonstra preocupação com a viabilidade técnica da proposta. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), Alex Carvalho, destaca que as indústrias que operam 24 horas teriam que reorganizar turnos de forma complexa, possivelmente adotando quatro turmas contínuas ou escalas rotativas. "Esse cenário representa um dos vários desafios imediatos. Novos modelos de planejamento e controle da produção e de gestão de pessoas serão necessários, e as empresas terão que investir nesse processo de qualificação", explicou o executivo.
Um dos pontos mais críticos levantados pela indústria é o risco de substituição de mão de obra humana por tecnologias. Carvalho alerta que, sem ganho de produtividade, o custo unitário do trabalho sobe, tornando investimentos em inteligência artificial e robótica mais atraentes no curto prazo. "Isso tende a ocorrer principalmente em processos repetitivos e em plantas maiores. Ou seja, uma medida pensada para proteger empregos pode, em alguns casos, acelerar a substituição de postos operacionais", avaliou Alex Carvalho.
Distritos industriais enfrentam dificuldades logísticas fora da capital
O impacto da medida tende a ser mais severo nos distritos industriais localizados fora de Belém. De acordo com a FIEPA, essas regiões já sofrem com gargalos logísticos e menor oferta de mão de obra qualificada, o que torna a reposição de quadros para novos turnos mais cara e lenta. Esse cenário poderia levar ao fechamento de micro e pequenas indústrias, concentrando a produção em grandes players que possuem estrutura para se adaptar rapidamente.
Sobre a proposta de jornadas diferenciadas por categoria, mencionada pelo presidente Lula, a FIEPA vê a ideia como mais flexível, mas teme a insegurança jurídica. "Acreditamos que imposições rígidas ignoram aspectos heterogêneos da indústria. Contudo, uma diferenciação jurídica por setor pode ampliar a insegurança jurídica e acarretar despesas maiores com conformidade legal", pontuou Carvalho.
No centro comercial de Belém, trabalhadores e lojistas consultados pela reportagem preferiram não se manifestar sobre o tema por receio de represálias ou indisposição com clientes.
Proposta de redução de jornada
- Jornada atual: 44 horas semanais
- Propostas em debate: redução para 40 ou 36 horas semanais
- Modelos sugeridos: escala 5x2 ou 4x4 (com revezamento)
- Impacto financeiro: previsão de aumento de até 26% nos custos em setores como turismo e saúde
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