Economia criativa transforma saberes amazônicos em renda e emprego no Pará
Com força da gastronomia e dos pequenos negócios, setor cresce acima do período pré-pandemia e projeta Belém no Brasil e no exterior
A economia criativa vem se consolidando como uma das principais alternativas de geração de renda, emprego e desenvolvimento sustentável no Pará. Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) mostram que, mesmo após a redução dos investimentos públicos em 2023, o setor permanece em um patamar muito superior ao observado antes da pandemia, impulsionado sobretudo pela gastronomia, pelos microempreendedores individuais e pela valorização de saberes tradicionais.
Entre 2015 e 2023, o investimento público estadual na economia criativa teve trajetória irregular, mas alcançou seu ápice nos anos de 2021 e 2022, quando o aporte médio ficou em torno de R$ 182 milhões. Em 2022, o volume chegou a R$ 185 milhões. No ano seguinte, houve queda para R$ 89 milhões, valor ainda bem acima da média do período pré-pandemia, estimada em R$ 69 milhões. Os números, corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), indicam que o setor ganhou centralidade nas políticas públicas e passou a ocupar espaço estratégico na economia paraense.
A distribuição desses recursos também revela prioridades. Em 2023, a Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Pará (Prodepa) foi o órgão com maior nível de investimento, concentrando R$ 31,9 milhões, o equivalente a 36% do total aplicado no setor. Na sequência aparece a Secretaria de Estado de Cultura (Secult), com R$ 23 milhões, ou 26% do montante. Apesar da relevância, a Secult apresentou redução acumulada de 13% nos investimentos entre 2015 e 2023, o que reacende o debate sobre a continuidade e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à cultura e à economia criativa.
Pequenos negócios puxam o crescimento
O dinamismo da economia criativa no Pará é sustentado principalmente pelos pequenos negócios. De acordo com dados da Secretaria da Receita Federal, sistematizados pela Fapespa, em 2024, 17,6% dos microempreendedores individuais (MEIs) do estado atuaram em atividades criativas, percentual muito próximo da média nacional, de 17,8%. Ao todo, foram 59.470 MEIs criativos em um universo de 337.706 microempreendedores no estado.
Dentro desse conjunto, a gastronomia se destaca de forma expressiva. Em 2024, o segmento reúne 42.499 MEIs, o equivalente a 71,5% de todos os microempreendedores criativos do estado. Na sequência aparecem moda, com 7,6%, atividades artesanais, com 6,5%, e edição e impressão, com 3%. Restaurantes, lanchonetes, casas de chá, de sucos e o fornecimento de alimentos preparados lideram entre as atividades que mais concentram pequenos negócios.
A concentração geográfica também chama atenção. Belém e Ananindeua respondem juntas por 48,3% de todos os MEIs criativos do Pará no ano de 2024. A capital reuniu 21.556 microempreendedores, o que representou 36,2% do total estadual, enquanto Ananindeua somou 7.075, com participação de 11,9%. O dado reforça o peso da Região Metropolitana de Belém como polo da economia criativa, especialmente no setor gastronômico.
Tradição e inovação no prato
Na capital paraense, a evolução do número de estabelecimentos ligados à economia criativa confirma a força da gastronomia. Entre 2012 e 2022, o total de empreendimentos criativos em Belém cresceu 38,1%, passando de 1.432 para 1.977. O segmento gastronômico teve alta ainda mais expressiva: aumento de 65,4% no período, concentrando 65,5% dos estabelecimentos criativos da cidade em 2022.
É nesse contexto que surgem iniciativas como a Amazonia Space, negócio criado em 2017 e liderado pela empreendedora Elaine Lima. A empresa nasceu como uma loja virtual de produtos amazônicos e, a partir de 2022, passou a investir na produção própria de alimentos artesanais, tendo como carro-chefe a farofa de tapioca. A proposta combina inovação, sustentabilidade e valorização dos sabores tradicionais da Amazônia.
Segundo Elaine, a economia criativa permite transformar cultura e identidade em modelo de negócio viável. A empresa aposta em produtos veganos, sem glúten, sem lactose e sem conservantes, alinhados ao conceito de clean label, sem abrir mão do sabor e da identidade amazônica. “A ideia é mostrar que o que vem da Amazônia é saudável, nutritivo e pode atender um mercado cada vez mais exigente”, afirma.
A cadeia produtiva da Amazonia Space envolve diretamente a agricultura familiar de municípios como Acará, Abaetetuba, Maracanã e Castanhal. Os insumos utilizados vêm de produtores que adotam práticas sustentáveis, com acompanhamento próximo e troca de conhecimento. Um dos exemplos é o uso do caroço de açaí como biomassa para alimentar fornos de casas de farinha, reduzindo resíduos e custos, além de iniciativas para o cultivo sustentável do jambu.
Da renda local ao mercado internacional
A experiência da Amazonia Space ilustra como a economia criativa gera impactos que vão além da empresa. Ao conectar agricultores familiares, fornecedores de embalagens, designers e outros serviços, o modelo fortalece uma rede econômica baseada na cooperação e na inovação. Hoje, os produtos da marca já chegam a outros estados brasileiros por meio do comércio eletrônico e de pontos de venda parceiros em Belém, como o Ver-o-Peso e o aeroporto.
O reconhecimento da gastronomia paraense, impulsionado por chefs e pela projeção nacional e internacional da culinária amazônica, tem ampliado as oportunidades. A empresa se prepara para exportar, com adequação de rótulos, participação em rodadas de negócios internacionais e busca por certificações que permitam acessar novos mercados.
Os dados da Fapespa indicam que a maior parte dos negócios criativos no Pará emprega de uma a quatro pessoas, o que reforça o papel do setor na geração de trabalho e renda local. Ao converter saberes tradicionais e patrimônio cultural em atividade econômica, a economia criativa se consolida como caminho sustentável para o desenvolvimento, especialmente em um estado marcado pela diversidade cultural e ambiental.
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